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Modestamente nós

Modestamente nós

Entrevistei longamente Franco Nogueira, ainda no exílio londrino, em 1981. Depois fomos amigos, confidentes, colaboradores em diversos projectos, de certa forma cúmplices, embora ideologicamente diversos. Agora que se celebra o seu centenário, no MNE e na SHIP, importa perceber porque é que o antigo responsável pela diplomacia portuguesa é ainda um exemplo crucial e relevante. No fundo, trata-se de saber quem somos, de onde vimos e para onde vamos - Opinião , Sábado.

Alberto Franco Nogueira nasceu há precisamente 100 anos. Partiu do mundo visível em 1993. Conheci-o bem e faz-nos falta. Homem de letras tornado diplomata de carreira, nunca perdeu o interesse pela crítica literária, teatral, até cinematográfica. Apaixonado pela história, oriundo das "esquerdas" próximas do PCP, evoluiu doutrinalmente para um nacionalismo anti-imperialista e anti -racista, justicialista, não elitista e multicultural.

Depois de colocado nas missões portuguesas no Japão, Austrália, Reino Unido, ONU, Genebra, e de um papel activíssimo, em 1956, na feitura da Convenção Internacional para a Supressão da Escravatura, sucede a Marcello Mathias na chefia do MNE. Estávamos no catastrófico ano de 1961: Portugal fora invadido pela União Indiana, perdera Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar-Aveli, e defrontava-se com uma cruel guerra de guerrilha em três províncias africanas.

Era o ocaso de Salazar, mas a escolha de Franco Nogueira não foi um acaso. O regime precisava, face ao isolamento internacional e à má imagem e comunicação nos diversos blocos da Guerra Fria, de um profissional experiente, competente, capaz de dialogar com grandes e pequenos, e de explicar uma posição "colonial" (ou "ultramarina") que parecia anacrónica a muitos.

Franco Nogueira passou oito anos a tentar romper o cerco, a ensaiar a tranquilização de velhos aliados, o convencimento de cépticos, a adesão de novos amigos, ou a promessa de neutralidade de potenciais adversários. Reuniu-se com Kennedy, falou com os líderes do Terceiro Mundo, tentou discretamente perceber as orientações de Cuba e da Jugoslávia, dialogou com as nações árabes, embrenhou-se na complexa teia das relações interafricanas.

Criou, como reconhecem apoiantes e críticos, uma doutrina autónoma. Vê-lo – à "esquerda" ou à "direita" – como uma excrescência, epifenómeno, curiosidade ou consequência do Estado Novo é falsificar a história.
Franco Nogueira acreditava no que se calhar era impossível: sonhou com uma "integração plena" das várias parcelas de Portugal, que tinha de envolver o fim do separatismo, mas também a criação de igualdade integral entre "metrópole" e "ultramar", podendo isso resultar, por exemplo, numa capital rotativa entre Lisboa, Luanda, Lourenço Marques, etc.

E acreditava noutra coisa, como tentou provar em As Crises e os Homens: que a identidade nacional portuguesa sempre se fez contra "elites" corrompidas e traidoras, barões e oligarcas apátridas, defensores de reinos e empórios estrangeiros.
O risco da dissolução em Espanha era apenas um dos seus avisos. Outro alertava para a necessidade de refazer as relações atlânticas e de salientar não o nosso isolamento, mas a nossa diferença.
Não orgulhosamente sós, mas modestamente nós.
De forma modesta, mas firme, lúcida, intransigente e decidida.

P.S. – Pode não se gostar do estilo Rio. Mas não foi Rio que, sem qualquer dado, veio dizer que o material de Tancos entrara no circuito do terrorismo internacional. Não foi Rio que tentou ocultar o desaparecimento das armas anticarro (o que quase levou à suspensão do Dia Nacional dos EUA, depois da visita do adido de defesa americano aos depósitos arrombados). Não foi Rio que disse, erradamente, que os Law explodiriam nas mãos dos usuários. Não foi Rio que minimizou o incidente, alegando obsolescência, ou dizendo que era comum lá fora. Não foi Rio que manteve nos lugares todos os responsáveis, incluindo a si próprio. Não foi Rio que revelou ignorância das condições nos paióis portugueses. Não foi Rio que colocou a hipótese de nunca ter havido subtracção. Não foi Rio que se resignou à forma como as armas e as munições foram "devolvidas". Ou à não apreensão dos suspeitos. Ou ao gravíssimo conflito de competência operacional entre PJ, o órgão mandatado, e PJM, o órgão coadjuvante, ambos dependendo do executivo. Não foi Rio que, durante todo o processo, semeou a dúvida, a confusão, a ineficácia e o absurdo. 

Surrealismo internacional
O Reino Unido acusa a Rússia, com provas forenses, dos crimes de uso de arma proibida, dois homicídios sob forma tentada e um consumado, por negligência grosseira.
Os acusados (na foto), que deixaram vestígios do tóxico Foliant num hotel, teriam chegado a solo britânico depois de viagens por seis países europeus, incluindo longas estadas em Genebra. Fariam parte da Segunda Divisão do GU (ex-GRU), o serviço secreto militar, dirigido pelos oficiais Korobov, Alekseyev, Kostyukov, Lelin e Kondrashov.
Entraram por Heathrow, com visto alegando dois motivos de visita. Os passaportes (não diplomáticos) eram verdadeiros, mas os nomes falsos.
Moscovo e Londres continuam a manter relações diplomáticas. 

A alternativa negativa
Os Democratas Suecos tinham menos de 5% dos votos antes de 2010. Hoje têm 18%. Como a AfD alemã, o Jobbik húngaro, a Liga Norte italiana, a FN francesa, o Justiça e Direito polaco, e muitos outros partidos europeus, são hostis à "abertura escancarada de portas" à imigração, sobretudo a que chega de zonas de conflito, e carrega a suspeita de transportar terroristas infiltrados.
O que os une não é a "ideologia", mas o que não querem.
Há uns quatro anos, um diplomata da ONU, insuspeito de xenofobia, dizia-me com amargura: "A verdade é que não fazemos a ideia de quem é quem, entre os asilados. A identificação biométrica devia ter sido o primeiro passo. Nunca o demos. Vamos pagar por isso."
Vê-se. 

Na era da Baviera
A conhecida ECM, com sede em Munique, continua a ser uma vanguarda da boa música. Nas novidades, dois grupos exemplares, alicerçados no piano: de Marcin Wasilewski (na foto), Live, e do trio Maestro/Roeder/Nehemya, The Dream Thief. O primeiro, mais "europeu", reflexivo, ultramelódico, revisita clássicos populares. O segundo, vibrante e potente, é "música do mundo", orientalizante e enigmática. Temos ainda Temporary Kings, o encontro, subversivo e soberbo, entre o saxofone de Mark Turner e as teclas de Ethan Iverson. E há o solo absoluto de contrabaixo de Barre Phillips, na epopeia End to End. E Prism 1, do Danish String Quartet: aqui, Bach, Beethoven e Shostakovich reaparecem na sua magnificência.

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