observador.ptobservador.pt - 16 set 13:17

Relação entre Portugal e Angola imune à diplomacia

Relação entre Portugal e Angola imune à diplomacia

Nas ruas de Luanda, as relações entre os dois países que se encontram esta segunda-feira a nível oficial são vistas como inevitáveis: "Estão condenados a viver juntos".

Angolanos e portugueses estão “condenados a viver juntos”, porque os laços históricos que unem os dois povos e países não permitem “frieza” nas suas relações, que, como nas famílias, há sempre pontos divergentes, pode ouvir-se nas ruas de Luanda.

As relações entre Angola e Portugal sempre foram boas, são “dois irmãos que, de quando em vez, têm pontos de vista diferentes”, resume à Lusa o funcionário público angolano Adérito Salamanca.

O primeiro-ministro português, António Costa, chega segunda-feira a Luanda, para uma visita de dois dias, depois de as relações entre Angola e Portugal terem registado, em 2017, um período de crispação, em consequência do processo judicial que envolvia o ex-vice-Presidente angolano, Manuel Vicente, acusado de corrupção ativa, branqueamento de capitais e falsificação de documento.

Para Adérito Salamanca, a vinda do primeiro-ministro português vai ajudar a “dissipar algumas dúvidas ou acertar alguns pontos de vista diferentes”.

“Acredito que daqui para frente irão melhorar, até porque, nós temos um novo cenário político, um novo Presidente e acredito que haverá mais abertura entre os dois países e maior estreitamento nas relações”, frisou.

A tensão diplomática entre os dois países não afetou as pessoas e ficou apenas entre os políticos, considera Adérito Salamanca. “A nível da população, o povo em geral, não” teve impacto, “porque, de facto, os dois povos viajavam de um lado e outro, sem qualquer restrição”, afirmou.

Por sua vez, Luís Rebelo tem as duas nacionalidades, mas vive há muitos anos em Angola acha que a visita de Costa pode ajudar a resolver questões pendentes.

A história torna Portugal e Angola “tão unidos, que não teriam condições de se manter a frieza que estava a haver”.

“Aquela era mais uma frieza pessoal do que propriamente entre populações, mas é maior o amor, de parte a parte, sem dúvida nenhuma”, disse.

Questionado se se sentiu atingido pela frieza nas relações, Luís Rebelo nega. “O povo não liga para isso, eu sou povo, sou angolano e sou português, e quando vou a algum lugar, tratar de algum assunto, seja num lugar público, seja em empresa privada, sinto sempre o respeito que têm pelo mais velho, nunca tive nenhuma reação menos simpática pelo facto hipotético das relações entre os países”, salientou.

Segundo o luso-angolano, os estados podem ter problemas, mas “o povo não se odeia”.

“É somente um encontro que já devia ter sido feito, que era exatamente a relação entre povos, não é de Governos, os Governos não valem nada, o que vale são os povos”, avançou.

Já o funcionário público João Amaro considera uma mais-valia a vinda de António Costa a Angola, tendo em conta que “a relação dos povos é importante” e a vinda do primeiro-ministro português “vai unir os laços de amizade entre os dois povos”.

“Essa amizade é histórica, Portugal colonizou Angola, e nós estamos condenados a viver juntos, por isso não tem como o primeiro-ministro não se deslocar para Angola”, disse.

Maria João Azevedo é portuguesa e reside há nove anos em Angola, com o marido e o filho. A contabilista considera que a crise diplomática não teve impacto nas pessoas porque os dois povos são “muito chegados pela língua e pela história”.

“Em todas as famílias há sempre uns arrufos, não acredito que tenha sido assim uma coisa que tenha afetado muito, pelo menos eu não senti assim como muitos outros colegas meus não sentimos nada e isto é o que conta”, referiu.

Para Maria João Azevedo, essas visitas de governantes dos dois países têm que ser feitas, a nível económico, financeiro, diplomático, porque “trazem sempre coisas agradáveis”.

“Desconheço a agenda do senhor primeiro-ministro e dos políticos angolanos, mas acho que sim, que se devem encontrar, dialogar, os países são muito próximos”, sublinhou.

O Governo angolano impôs como condição para o regresso à normalidade das relações que o processo do ex-vice-presidente angolano fosse transferido para a justiça angolana, o que acabou por acontecer em junho deste ano.

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