www.sabado.ptFlash - 15 set 01:00

Ovos e galinhas

Ovos e galinhas

No Porto, o homem enfrentou Pinto da Costa, a “comunidade artística” da cidade, os empreiteiros, os jornalistas e todos os lóbis que parasitavam a Câmara socialista. Não lhe venham dizer agora como ele deve enfrentar as legislativas do próximo ano - Opinião , Sábado.

Entendo a cabeça de Rui Rio: se ele governou o Porto sem escutar as opiniões de sábios ou barões, por que motivo deve mudar de filosofia e de atitude só porque está à frente do PSD?
No Porto, e durante três mandatos gloriosos, o homem enfrentou Pinto da Costa, a "comunidade artística" da cidade, os empreiteiros, os jornalistas e todos os lóbis que parasitavam a Câmara socialista. Não lhe venham dizer agora como ele deve enfrentar as legislativas do próximo ano.

O raciocínio de Rio está correcto. Ou quase. Porque a pergunta fundamental não é saber como ele conseguiu as maiorias absolutas de 2005 e 2009. É perguntar como foi que ele conseguiu a primeira maioria (relativa) em 2001.
A esta eu respondo: não foi por mérito de Rui Rio. Quando muito, foi por mérito de uma cidade que, tradicionalmente, nunca gostou de ser pau para todo o serviço.

Não gostou em 2013 quando Luís Filipe Menezes atravessou a ponte para continuar a reinar o pagode. E não gostou naquele início de milénio quando Fernando Gomes cometeu a mesma imprudência: depois de abandonar o mandato a meio para ir brincar aos ministros, Guterres devolveu-o à procedência e Gomes reclamou o seu brinquedo antigo, como se fosse dono dele. Não era.

Comparar uma experiência autárquica ao governo de um país é sempre um erro primário; mas, ainda que não fosse, a comparação só faria sentido depois de Rio chegar ao governo, nunca antes.
Claro que, em feliz coincidência, o Dr. António Costa ainda pode ter um ataque de loucura, abandonando momentaneamente S. Bento para experimentar, sei lá, uma carreira internacional como leitor de português. Se Fernando Gomes podia ser ministro, um leitorado universitário era o mínimo para Costa. Mas, como alguém diria, seria bom que o PSD não contasse com esse ovo no dito cujo da galinha.

É absurdo pensar que, depois do caso Robles, o Bloco de Esquerda não regressaria mais a um lugar onde foi feliz: o do combate à "especulação imobiliária". Mas, apesar de tudo, esperava-se um "período de nojo" entre a falsidade do moralismo e o moralismo da falsidade. Sobretudo quando sabemos que o Bloco gosta de recomendar essa quarentena a políticos que abandonam a carreira e entram na actividade privada.

Esperanças vãs. Para começar, Mariana Mortágua abriu caminho no Expresso ao disparar sobre o cadáver político de Robles com uma violência assaz macabra. E, no dia seguinte, Catarina Martins informou-nos de que negoceia com o Governo uma taxa de IRS (mais uma) para quem compra e vende com muito lucro num curto espaço de tempo.
No fundo, uma "taxa" que podia levar o nome de Robles: não apenas porque o saudoso vereador era entusiasta da medida; mas porque ele próprio poderia ter sido, ao mesmo tempo, um defensor da medida e uma vítima dela – um caso singular na política do Ocidente.

Para os outros, o Bloco defende "períodos de nojo" que duram anos, na impossibilidade de serem décadas. Para si próprio, um mês e meio chega. O nojo que o Bloco não respeita é inversamente proporcional ao nojo que o Bloco desperta.

Serena Williams perdeu o US Open. E deu espectáculo: depois de insultar o árbitro da partida com o epíteto de "ladrão" – o árbitro era o português Carlos Ramos que a admoestou pelo facto de estar a receber instruções do treinador –, a nossa Serena declarou-se injustiçada por ser mulher e negra.

Esta rábula correu o mundo mas, infelizmente, ocultou três verdades óbvias e desconfortáveis. A primeira é que o treinador estava realmente a fazer coaching. A segunda é que Serena, vítima de sexismo, jogava contra outra mulher. E a terceira é que Serena, também vítima de racismo, jogava contra outra mulher que não era propriamente branca. Falamos da japonesa Naomi Osaka, que foi praticamente ignorada (e apupada) .

Nenhuma surpresa, eu sei: todo o mundo marcha contra a "discriminação". Mas quando falamos de asiáticos parece que a discriminação não tem a mesma gravidade. Que o diga a Universidade de Harvard, que enfrenta um processo judicial por discriminação sistemática de alunos asiáticos. Alunos que, em condições "normais", inundariam a instituição pelo mérito.
Tivesse Naomi Osaka um currículo politicamente correcto e o mais provável era não ter recebido o troféu com lágrimas envergonhadas.

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