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A luta sinistra que vivemos entre segurança e liberdade

A luta sinistra que vivemos entre segurança e liberdade

A boa notícia é que Portugal se encontra no 10º lugar no ranking das democracias a nível mundial, a inquietante é que está a encolher o espaço democrático nos principais países do lado do espectro democracia-autocracia. - Opinião , Sábado.

Esta semana tivemos conhecimento dos resultados do Relatório da Democracia de 2018, o segundo relatório anual do projecto Variedades da Democracia (V-Dem), uma rede global de investigadores e especialistas com sede na Universidade de Gotemburgo, que analisa os indicadores democráticos e de direitos e liberdades em 201 países. A boa notícia é que Portugal se encontra no 10º lugar no ranking das democracias a nível mundial, a inquietante é que "está a encolher o espaço democrático nos principais países do lado do espectro democracia-autocracia. Uma parcela muito maior da população mundial está hoje a experimentar a autocratização", alertam os autores do relatório acrescentando que, pela primeira vez desde 1979, o número de países que se afastam da democracia (24) é o mesmo que o número de países que apresentam avanços.

As tensões provocadas pela crise financeira mundial e nacional e o fluxo migratório a atingir níveis críticos com centenas de milhares de pessoas a tentar escapar dos seus países, devido a guerras, conflitos, fome, intolerâncias culturais e religiosas, alterações climáticas, violações de direitos humanos, desesperança e outros, têm sido evidentemente aproveitadas por forças populistas em acções de intimidamento, violência e opressão numa tentativa desesperada pela invocação de uma ordem ilusória marcada pelos cânones de tempos idos. Estas forças ocupam um espaço vazio que existe entre as certezas que as antigas culturas nos davam e que fomentavam a confiança nas instituições e o estado embrionário em que ainda se encontram as novas culturas que pretendem trazer o sentido da vida, numa perspetiva desfragmentada, para as diversas áreas da realidade social.

Quando países como a Suécia, considerados os pioneiros de um modelo socioeconómico de referência, promotores de uma sociedade aberta e tolerante, são abanados pelos resultados das eleições de Domingo passado, com a conquista de espaço por forças políticas que promovem o medo, a violência, a fragmentação da sociedade, o racismo e a xenofobia, não temos por onde escapar a uma reapreciação dos valores e das tensões que nos habitam enquanto indivíduos gregários e às "mini nações" que são as nossas relações com tudo o que existe. A nossa ineficácia enquanto espécie em descobrir quais as mudanças necessárias, nos ideais e nas estruturas sociais, continua a provocar sofrimento em todo o mundo.

Conhecer a história é fundamental mas não para a invocar de forma ubíqua e inquestionável como arma de arremesso entre "os de direita" ou "os de esquerda", os conservadores ou o transgressores e por aí fora numa categorização e divisão simplista daquilo que nos torna humanos. Já não podemos olhar o mundo a preto a branco, por mais sedutora e fácil que seja essa abordagem ou só ter acesso a informações que validem o nosso arrumado e hermético sistema de crenças ou de pós crenças.

Quando aparece em Portugal um novo partido político no Parlamento que não se revê na categorização obsoleta direita/esquerda e que afirma que a defesa dos direitos humanos do século XX deve ser estendida (nunca substituída) à esfera não humana (animais e natureza) no século XXI, agitam-se as vozes desde os espaços vazios da sobrevivência imediata e pouco abertas à inovação social. Mas quer colaboremos ou não, o planeta envia-nos mensagens claras sobre uma era que está a terminar, a da ilusão do controlo do humano sobre tudo o que existe.

Estes espaços vazios, associados às incertezas sobre as novas configurações do ambiente digital, estão a ser explorados pelas dúvidas acerca do que é o bem comum. O mundo está cheio de estrelas decadentes. Por sermos diferentes oscilamos no discernimento sobre a base dos valores éticos pelos quais pautar a nossa conduta e avaliar a alheia, no entanto, sabemos que não é honesto estimular, ainda que de formas subtis ou ardilosas, a violência, o preconceito, a intolerância e o individualismo. Precisamos de muito mais imaginação e colaboração do que antes para conseguir apreender o significado da luta sinistra que vivemos entre segurança e liberdade.

A mensagem é clara: Se pensarmos juntos, tornamo-nos melhores.

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