www.sabado.ptFlash - 14 set 09:00

O glúten nosso de cada dia

O glúten nosso de cada dia

Fui eu quem puxou o assunto, com uma pergunta inocente até prova em contrário: De onde é este pão? - Opinião , Sábado.

Fui eu quem puxou o assunto, com uma pergunta inocente até prova em contrário: "De onde é este pão?" A mesa estava posta com o tal pão deitado sobre ela à francesa, e o jantar ia ser nutricionista friendly à inglesa, com uma salada que punha o tomate a conversar com o hipotálamo e uma pasta de beringelas que nos punha o céu da boca a brincar com o fundo da alma. Aquele jantar não era carne nem peixe, mas era isto: com a cerveja e o vinho em modo galheteiro a fazerem a sua parte, nós faríamos o resto.

A pergunta sobre a origem do pão não ficou sem resposta (e essa incluía dados como "fermentação lenta", "massa-mãe" e "farinhas alternativas", o que, não fazendo a maioria salivar, teria feito um nutricionista ficar de água na boca). Com a curiosidade na ponta da língua, alguém lançou outra escada: e o glúten, amigos? O que temos nós a dizer sobre o glúten? E foi assim que, apesar de nos respeitarmos muito, os meus amigos e eu transformámos aquela cozinha num mercado, fazendo a peixeirada que ele pedia.

Atiraram-se estudos às caras e sobre as coroas que tantos deles escondem também nos desfiámos: mas podemos acreditar em tudo, não devemos acreditar em nada, "esta salada está incrível", "passa-me aí o vinho", "mas espera: e se alguém dissesse que o açúcar mata mais do que o glúten engorda?".

Enquanto isto, claro, o pão desaparecia. E os nutricionistas que havia em nós esmoreceram quando alguém perguntou por um docinho. Virando a página, começámos a falar de intuição - de corpos intuitivos, que saberão sempre o que uma morcela de arroz e um hambúrguer com bacon lhes farão, querendo sempre pecar sem se justificar, mas piorando tudo com um argumento qualquer sobre a beterraba. Decidimos então jogar baixo, até porque a razão já não nos convinha: amigos, se não é o glúten, o que é que nos incha, afinal?

E foi então que, saqueando o pouco glúten que ainda restava sobre a mesa, a minha amiga disse: "Eu não sei, mas a mim a única coisa que me incha é o período."

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