observador.ptJosé Luís Andrade - 14 set 00:33

John McCain: O significado da coragem

John McCain: O significado da coragem

Numa altura em que a coragem começa a ser um conceito pouco apreciado pela opinião mediática do politicamente correcto, olhar para a vida do militar e político John McCain é um estimulante benfazejo.

Conheci John McCain em 1983 quando ele era um recém-eleito deputado do Congresso dos EUA. McCain tinha passado à reserva, depois de 23 anos como oficial da Marinha de Guerra. Piloto na guerra do Vietname, ainda mal refeito dos ferimentos que sofrera numa explosão acidental no USS Forrester, tivera de se ejectar quando o seu A-4 Skyhawk fora abatido nos céus de Hanói. Gravemente ferido na queda, foi capturado pelas forças de Võ Nguyên Giáp, tendo ficado 5 anos, 4 meses e 18 dias como prisioneiro de guerra do regime comunista norte-vietnamita. Quase tanto como o nosso 1.º sargento piloto-aviador António de Sousa Lobato em Conacri.

Sujeito recorrentemente a sevícias, torturas e humilhações, viu as suas condições de cativeiro alterarem-se quando Hanói teve conhecimento de que o pai, o almirante John S. McCain Jr., fora entretanto nomeado comandante de todas as forças americanas presentes no teatro de guerra da Indochina. Propuseram-lhe a libertação mas John, ciente do Código de Honra, recusou-a, sem que os outros prisioneiros de guerra detidos antes dele fossem postos em liberdade. Além de que tinha perfeita consciência de que era um gesto de propaganda e acção psicológica para abalar o moral dos outros prisioneiros, «demonstrando-lhes» que, «nas sociedades burguesas», os filhos das altas entidades tinham um tratamento preferencial.

Seguiram-se mais quatro anos de desumanas represálias que o levaram ao limite da resistência física e psicológica. Mas sempre se recusou a encontrar-se com grupos ou personalidades contra a Guerra, implícitos apoiantes das autoridades comunistas. McCain ficaria visto por grande parte dos americanos como um herói de guerra, tenaz, corajoso mas também de grande humanidade ao admitir humildemente que acabara por ceder ao inimigo, embora mantendo a intransigência nas coisas fundamentais.

Um ano depois de se ter casado em segundas núpcias com Cindy Hensley, uma rica filha do Vale do Sol (Phoenix), resolveu dar por encerrada a sua carreira militar e resolveu assentar arraiais no Arizona. Estimulado para entrar na política, resolveu fazê-lo com grande ambição, galgando degraus que a tarimba partidária normalmente exigia, almejando directamente o Congresso sem passar pela legislatura estadual. Tendo conseguido a nomeação local do partido republicano, foi eleito deputado federal em 1982, representando o eleitorado do 1.º Distrito do Arizona. Mas, ao contrário do que muitos dos seus colegas da Câmara dos Representantes faziam, não se mudou para Washington, mantendo a sua morada habitual em Phoenix, próximo dos seus eleitores. Aliás, durante a campanha eleitoral enfrentara frequentemente a acusação de ser um carpetbagger, um «paraquedista» nortista estranho ao Arizona; ao que McCain, com ironia, respondia habilmente afirmando que, como militar e filho de militar, tivera de andar sempre de um lado para o outro e que, provavelmente, até a permanência de maior duração fora em Hanói.

Eu era então um jovem grad student da Faculdade de Engenharia da Arizona State e decidi procurar John McCain como uma espécie de contributo pessoal ao apelo dramático da Igreja Católica em Timor, que, pela voz de D. Martinho da Costa Lopes, então administrador apostólico de Díli, denunciara publicamente as atrocidades do exército indonésio, pedindo ajuda internacional. Como católico e como português, com uma forte ligação a Timor, procurei fazer o que estava ao meu alcance para ajudar aquele povo mártir abandonado pelas autoridades abrilistas portuguesas. Solicitei uma entrevista ao staff de John McCain, um estrela política em ascensão mediática, e com grande surpresa minha marcaram-ma para poucos dias depois.

De uma simpatia inexcedível, McCain recebeu-me, a sós, e durante cerca de hora e meia conversámos sobre Portugal, a Europa, Angola, a sua experiência de cativeiro e o nosso comum amor ao Arizona, uma terra de adopção para ambos. Mas ao assunto de Timor nada disse; percebi que o desconhecia em absoluto. Ainda me perguntou se me referia ao problema Tamil do Sri Lanka, especulando sobre uma possível má pronunciação da minha parte. Resumi-lhe o historial e prometeu-me estudá-lo com atenção, até porque tinha um particular interesse pela região geopolítica em que a Indonésia se inseria. Saí descontraído mas obviamente sem a grata sensação do dever cumprido; fora provavelmente uma iniciativa frustrada.

Eis senão quando, cerca de um mês depois, recebo do gabinete de John McCain uma nota do congressista em que ele afirma que se inteirara do problema, prometendo estar atento e influenciar, tanto quanto a estabilidade das relações com o aliado indonésio o permitisse, a exigência do respeito pelos direitos humanos em Timor. Mas afirmava igualmente que eu não lhe tinha dado toda a dimensão do problema, nomeadamente do papel inacreditável (unbelievable) que Portugal jogara na ocupação indonésia de Timor. Sublinhava que o tinham informado de que haviam sido altas figuras do Estado português a sugerir a Jacarta a invasão e ocupação, dando-lhe inclusivamente conselhos sobre a melhor forma de o conseguir, e reafirmando que Portugal nada faria a favor da continuação da ligação com Timor.

Sabemos hoje o nome dessas figuras a que McCain se referia: Almeida Santos, Vítor Alves, Jorge Campinos e Melo Antunes, por sinal todos «irmãos» da Augusta Ordem; em pelo menos duas ocasiões (em 9 de Março, com o general Ali Muertopo, e em Novembro de 1975, com Adam Malik) deram indicações à Indonésia de que o Estado português se desinteressava dos destinos de Timor. A atitude política portuguesa não só retirara credibilidade às forças políticas que, como a UDT, preconizavam a autonomia com uma estreita ligação a Portugal, como acabara por favorecer (quando não fomentar escandalosamente) as forças revolucionárias maoistas, através dos delegados enviados pelo MFA. E o não-assunto de Timor passara a ser tratado por Washington como mais um epifenómeno do tenso combate entre o Mundo Livre e o Império do Mal, característico da política externa de Ronald Reagan, de que McCain era fervoroso apoiante.

Essa atenção explicativa de John McCain levou-me, naturalmente, a ficar atento às suas posições políticas posteriores. Primeiro como congressista e posteriormente como senador foi um político respeitado, gerador de consensos e pontes, embora nem sempre alinhado com os seus colegas de partido, granjeando uma reputação de independente quando não de rebelde (maverick). Habitualmente tolerante não cedia, contudo, no essencial, como na questão do aborto livre. Votou pela destituição de Bill Clinton por perjúrio e obstrução da justiça, quando dos escândalos dos recorrentes assédios sexuais na Casa Branca, com estagiárias e funcionárias. Mais tarde votaria contra várias propostas da administração Obama que rotulava de socialistas e atentatórias das aspirações dos pequenos empresários e trabalhadores americanos. Discordou frontalmente da política externa de Obama tal como o fizera, pontualmente, da de Bush. Mas era tenaz defensor dos interesses dos índios, moderado nas soluções sobre o problema da imigração clandestina e frontalmente contra as técnicas de interrogatório sob tortura.

McCain não se considerava um herói mas sim um americano conservador não-conformista, defensor de causas de forma independente dos partidos. Esse espírito «rebelde» e destemido herdou-o porventura da mãe, Roberta, que, desde há muito, viajava pelo mundo sozinha ou acompanhada pela sua irmã gémea Rowena. Em 2009, com 97 anos, visitando mais uma vez Lisboa de que tanto gostava, sofrera uma queda ao tropeçar num degrau das casas de banho do café Nicola e tivera de ser internada no Hospital de São José. Derramando simpatia, tal como o filho, quando soube que a nora, Cindy, a vinha visitar terá proferido: «mas o que é que essa Barbie chata vem cá fazer? Estou a ser bem tratada…»

Mesmo quando nos anos oitenta e noventa o tema da guerra do Vietname era incómodo para a opinião publicada americana, McCain nunca se furtou a defender os veteranos e a própria intervenção que, segundo frisava, se destinara a defender a população do Vietname do Sul de ser dominada à força pelo regime comunista fundado por Nguyên Sinh Cung, militantemente chamado Hô Chí Minh (o que ilumina). E recriminara Kissinger por, depois do abandono militar, ainda ter sabotado a ajuda financeira ao governo de Saigão.

Pela sua luta para evitar o financiamento maciço das campanhas eleitorais por parte das multinacionais e do grande capital especulador de Wall Street, McCain recebeu em 1999 o prémio Profile in Courage. Em 2004 escreveu Why Courage Matters: The Way to a Braver Life. Numa altura em que a coragem começa a ser um conceito pouco apreciado pela opinião mediática do politicamente correcto, olhar para a vida do militar e político John McCain é seguramente um estimulante benfazejo. E bom exemplo seria para os nossos «mandões», que dão mostras de preferir aos oficiais corajosos, competentes, briosos e honrados os «cabides de fardas» ajaezados de insígnias e as suas guardas de honra «fraternais».

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