visao.sapo.ptMiguel Araújo - 13 set 08:10

Sobre atender o telefone

Sobre atender o telefone

Eu nunca atendo. Tenho a função do toque desligada. É essa a minha hipótese de fuga

Quando eu aprendi a ser gente, o telefone era um dispositivo que estava atarraxado a uma parede da casa. Não andava atarraxado à pessoa. O trriiiim sonoro que cantava de dentro do aparelho de cada vez que alguém telefonava oferecia várias saídas ao eventual destinatário do estridente alarme. Uma delas era atender. Mas essa era apenas uma delas, de uma larga paleta de hipóteses. Mais ainda: o dobrar do esganiçado e intermitente sino do apelo telefónico podia ter como alvo qualquer um dos habitantes do domicílio. O que reduzia logo a tal paleta de hipóteses para, em média, um quarto ou um quinto dos vários desfechos possíveis. Mais ainda: durante largos períodos do dia, ninguém estava em casa. Quando estava alguém, que não o destinatário do telefonema, o recetor do recado apontava a tentativa de contacto, se calhar, num papelinho de recados, oferecendo ao contactando um lag temporal precioso para poder decidir quando, como, ou até se queria responder. Havia hipótese de fuga, e só assim é que um telefonema se safava de ser uma absoluta indelicadeza. Era grosseiro não responder, mas o telefonema não era propriamente uma emboscada de beco sem saída. Nem era para “conversar”, era caro (gastava períodos) e ocupava a linha. Com o avançar inexorável e impiedoso do progresso tecnológico, os telefones passaram a andar agrilhoados à nossa existência como bola de chumbo acorrentada à canela. Um grande número dos constrangimentos do nosso dia a dia foi bastante aliviado por esta portabilidade do aparelho. Mas há uma coisa que o não foi: o ónus da resposta imediata e a respetiva grosseria socialmente atribuída ao seu incumprimento. Aquele que não atende o telefone é o grosseiro, o malcriadão. Pois eu tenho para mim que as regras da boa conduta social, no aferir do quanto há de grosseiro ou não nas atitudes, deveriam ser pautadas pelo bom senso, pelo respeito da liberdade e do bem-estar do outro. Aliás: assim é, e o que é de bom-tom hoje deixará de o ser amanhã. Mas neste caso, como ainda teimamos em achar que o telemóvel é a mesma coisa que o telefone antigo, temos demorado a rever e a atualizar esta lei. . De todas as formas de comunicação, considero o telefonema a que mais me desobriga. Decidi ser incontactável por essa via. Entendo que um telefonema convenha a quem liga. Mas dificilmente convém a quem se destina. E isso, na sua essência, é indelicado. As almas mais gentis com que me relaciono intuem isso desde os mais pesados e desajeitados Nokias. Nunca telefonam. Às vezes ainda recebo telefonemas (cada vez menos). A probabilidade de me dar jeito, poder, ou até, no limite, querer atender é quase nula. Eu não gosto de conversar ao telefone nem aprecio ser coagido a responder a algo que não me tenha merecido ponderação suficiente. Podem telefonar, claro. Mas saibam que é uma indelicadeza considerar indelicado não atender.

(Crónica publicada na VISÃo 1331, de 6 de setembro de 2018)

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