visao.sapo.ptAntónio Lobo Antunes - 13 set 08:45

E no Seu Nome esperarão as gentes

E no Seu Nome esperarão as gentes

E ali ficámos, agarrados, comigo de novo tão pequeno, tão feliz. Gija. Gija Gija Gija. Os convidados do casamento espantados, as pessoas que olhavam espantadas e eu, muito maior do que ela, de repente pequeno, ao seu colo. Ao seu colo. Tinha um senhor ao lado, que era o marido que eu não conhecia, mas eu queria lá saber do marido. Éramos um do outro, Gija, e voltei a ser o menino de alguém

Susa Monteiro

Quando me sinto desinfeliz vem-me sempre à cabeça o poema de Carlos Queiroz chamado 
“. Voltei, com tanta força, a ser o menino de alguém. A ternura dela era a mesma, o amor por mim era o mesmo, só que estava cheia de lágrimas. Lembro-me tão bem de dizer-lhe

– Gija nunca deixei de ser o teu menino

e depois voltei para o casamento, para Tomar onde tinha sido colocado antes de ir para Angola, para longe de ti, eu que nunca devia ter saído do teu colo, tu que me amaste sempre incondicionalmente, com tanta pureza, tanta simplicidade, tanta, meu Deus, alegria. E eu que continuo a amar-te de uma paixão tão linda, eu que sempre, ao acontecer-me um desses problemas gravíssimos da infância, uma queda, a perda de um brinquedo, dizia logo

– Quero a Gija

e tudo se compunha outra vez. 
Foi a última ocasião que te vi, embora continue sempre a ver-te

E se com esta voz de insone
dissesse que não creio em nada
no ar azul da madrugada
escreverias o Teu nome?

embora continue sempre a ver-te, Gija. Não vais acreditar na quantidade de vezes em que penso em ti. Onde quer que estejas, que estupidez dizer isto, estás no Céu de certeza, o teu menino pensa em ti. Há uns anos fui a Compostela receber um prémio, ou seja à tua terra na Galiza. E no discurso de agradecimento, com o Presidente do governo lá deles

(isto passava-se na Catedral e era solene) dediquei-te o prémio e disse o teu nome. Tenho a certeza que estavas lá, com o meu pijama de menino na mão

– Temos que vestir o pijama, Toino

e que te sentia tão orgulhosa de mim. Quando um 
dia morrer vais vestir-mo outra vez, porque não posso aparecer nu diante do Senhor, ordenas a Deus

– Tome bem conta do meu menino, ouviu?

e esperas que Ele te garanta

– Claro que tomo, Gija

antes de te afastares e que, de vez em quando, virás espiar-me no medo que eu tenha desarrumado o cobertor e espirre, ordenando a São Pedro que ponha o olho em mim, porque o meu menino, você é Santo e percebe, não veio aqui para se constipar.

(Crónica publicada na VISÃo 1331, de 6 de setembro de 2018)

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