www.dinheirovivo.ptVital Moreira - 12 ago 09:45

Assim, não!

Assim, não!

Só pode inspirar preocupação enfrentar neste estado a próxima liberalização do serviço ferroviário de passageiros.

1. No jornal Público de quinta-feira, lia-se: “Na passada terça-feira, a CP registou atrasos em 290 comboios, num total de 52 horas e meia, dos quais 59% tiveram origem em problemas com material circulante e 15% em problemas na infraestrutura (a cargo das Infraestruturas de Portugal).”
Não há como qualificar esta situação como admissível num país da União Europeia e não é por acaso que numa classificação recente sobre a qualidade do serviço ferroviário Portugal figura entre os piores países. Um registo lastimável!

2. É evidente que os problemas da ferrovia entre nós remontam a décadas de falta de investimento e de desmazelo, em que a prioridade foi dada ao transporte rodoviário, mesmo quando as preocupações ambientais vierem pôr em relevo as enormes externalidades negativas dessa opção. O abandono do projeto TGV e da integração de Portugal na rede de bitola europeia em que a Espanha apostou decididamente selaram essa secundarização do modo ferroviário entre nós.

No entanto, o agravamento da situação presente do serviço ferroviário tem causas próximas na opção política que privilegiou o “fim da austeridade” nos salários da função pública, pensões e outras transferências sociais, sacrificando o investimento público em infraestruturas e serviços públicos.

Quase todos os investimentos do plano ferroviário estão atrasados, tendo ficado também por realizar a aquisição de material circulante necessário para assegurar a renovação, incluindo no lucrativo transporte de longo curso dos Alfa e Intercidades, que subsidia o restante serviço ferroviário.

3. Em todos os países, o serviço ferroviário é insubstituível no transporte de grandes massas de passageiros nas áreas metropolitanas, no vaivém entre os centros urbanos e a periferias habitacionais, problema agravado entre nós pela redução da população em Lisboa e no Porto e pelo crescimento das cidades-satélite à sua volta.

É deprimente efetuar uma viagem dessas, tal o estado de degradação de estações e dos comboios, consequência conjugada da incúria da gestora de infraestruturas e da CP e do vandalismo incivil, que nada poupa. Em Portugal a propriedade coletiva é para destruir.

A política de tarifas baixas, eleitoralmente motivada, agravada pela falta de fiscalização das passagens que banaliza a fraude e não é compensada devidamente pelo Estado, só contribui para privar a empresa de recursos para melhorar o serviço. Assim, não!

Professor da Universidade de Coimbra e da Universidade Lusíada Norte

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