www.dinheirovivo.ptRicardo Reis - 12 ago 09:00

A tempestade no deserto

A tempestade no deserto

Os milhões do petróleo tirado do solo a um custo de dezenas de euros e vendido por mais de uma centena dava para tudo.

A pergunta mais frequente feita por jornalistas portugueses é: pode Portugal em breve ter uma crise que exige um novo resgate? Uma variante mais global desta pergunta é: de onde virá a próxima crise mundial que nos afeta? A resposta mais comum à primeira pergunta é que a maior fragilidade da economia portuguesa continua a ser a sua grande dívida, pública e externa, pelo que uma perda de confiança na nossa capacidade de a pagar pode desencadear uma fuga de capitais do país. Em relação à segunda pergunta, uma crise em Itália, cuja situação política e mau estado do sistema bancário ameaçam uma saída do euro há anos, poderia facilmente arrastar Portugal. Lendo as publicações internacionais, outras fontes de preocupação são o protecionismo americano, o excesso de crédito na China ou as eleições próximas no Brasil.

O que se passa no Médio Oriente recebe menos atenção mas é talvez mais fascinante e preocupante. Desde a formação da OPEP nos anos 1960, e o seu bem-sucedido cartel que subiu o preço do petróleo, habituámo-nos a invejar a prosperidade fácil dos países do golfo Pérsico. Membros das famílias reais e xeques viajavam pela Europa em comitivas de centenas de Mercedes e esgotavam lojas de luxo. Em casa, vivem em palácios luxuosos, equipam exércitos com as armas mais avançadas e ocupam grande parte da população em empregos públicos.

Desde 2014, com os avanços tecnológicos do fracking que o preço do petróleo fica abaixo dos 75 dólares e, até há poucos meses não excedia os 55 dólares. Havendo hoje fontes alternativas de energia que custam aproximadamente este valor, o petróleo não pode custar muito mais. O problema é que, para pagar os custos de extração do petróleo e, sobretudo, as faturas que chegam todos os meses ao Ministério das Finanças à conta de todos os subsídios e salários públicos a pagar, a Arábia Saudita precisa que o preço seja pelo menos 70 dólares só para balançar as contas. Como tal, depois de décadas em que, apesar de gastos luxuosos, os sauditas tinham excedentes e poupavam milhões no exterior, já há alguns anos que as suas enormes reservas de riqueza externa estão em queda acelerada. Em abril deste ano, a Arábia Saudita pediu emprestado, através da venda de dívida publica, 11 mil milhões de dólares. Desde 2016 que um país que emprestou em grandes quantias durante décadas tem agora de pedir emprestado todos os anos.

Num país em que a elite tem uma vida tão descaradamente opulenta, e em que exército e outros funcionários públicos estão habituados a um sustento seguro, a austeridade é impensável. Mas, como Portugal bem sabe, nas finanças públicas, a crua frieza dos números torna o impensável em realidade num ápice. Com a Síria e a Líbia em guerra civil e o Irão debaixo de sanções, uma crise económica na Arábia Saudita terá consequências extraordinárias por todo o mundo, quer económicas quer políticas.

Professor de Economia na London School of Economics

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