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Vania Leles: “Nas Bolsas de diamantes sou a única africana”

Vania Leles: “Nas Bolsas de diamantes sou a única africana”

Tornar os diamantes éticos e afirmar-se como a primeira joalheira africana de luxo norteiam a ex-modelo guineense, convertida em gemóloga, a partir de um ateliê em Londres

Como é que uma modelo da Guiné-Bissau que cresceu em Lisboa vai parar ao negócio dos diamantes?
Andava cansada e pensava sobre o que iria fazer no longo prazo. Um dia estava a fazer uma sessão fotográfica com joias antigas da Tiffany’s e comecei a interessar-me e fui estudar. Descobri que 90% das pedras preciosas vêm de África, mas não há joalheiros de luxo africanos. Decidi que queria ser a primeira. Na altura, a minha mãe disse-me para primeiro trabalhar dez anos numa empresa, para perceber porque é que os africanos não têm esse negócio.

Trabalhou em Londres, nas maiores do mundo: a Graff Diamonds, a De Beers e a Sotheby’s. Percebeu o que a sua mãe lhe queria dizer?
Percebi que já não somos colonizados, mas a nossa economia é colonizada. Há também a questão de o negócio passar de geração em geração, dentro das mesmas famílias de judeus e indianos. Nas Bolsas de diamantes, onde as pedras são transacionadas, sou a única africana. Mulheres há algumas, mas são mulheres ou filhas de intermediários. Quando me contrataram para a Graff, ofereceram-me uma posição comercial, quando eu queria a posição de gemóloga, porque a minha formação no Gemological Institute of America é na avaliação da qualidade das pedras.

Como é que começou?
Comecei com o dinheiro poupado durante os anos em que trabalhei como modelo em Nova Iorque. Aluguei um escritório minúsculo em Belgravia, na Eaton Square [Londres], e trabalhava só por encomenda. Fiz as primeiras joias — anéis de noivado clássicos — com uns oito ou dez diamantes que um fornecedor que tinha na Graff me emprestou. Depois de os vender, paguei-lhe as pedras. Em 2011 decidi lançar-me com a Vanleles Diamonds, pensada como uma marca internacional inspirada em África, com estética moderna e linguagem portuguesa.

Porquê anéis de noivado?
É o que tem mais procura e é mais fácil de fazer. Ter uma coleção é complicado e exige investimento. As coisas, entretanto, começaram a acontecer. Um dos meus clientes na Sotheby’s e na Graff veio ter comigo com a namorada, para comprar um dos anéis, e perguntou-me o que é que eu precisava para crescer. Respondi-lhe: “Dinheiro.” Disse-me para lhe apresentar um plano de negócio e, ao fim de nove meses a pensar, decidiu investir. Com esse dinheiro aluguei o ateliê que tenho atualmente na Bond Street, que é a rua de Londres onde estão os joalheiros de luxo.

Sente que as novas gerações, menos ligadas a tradições como o anel de noivado, estão fora do seu negócio?
Não. Como sou uma marca nova, a maioria dos meus clientes tem entre 35 a 45 anos. Dependendo dos países, os millennials continuam a acreditar no amor e procuram uma coisa simbólica, mas o que faz deles clientes diferentes é que são comprometidos com causas e exigem que determinadas questões sejam respondidas.

O que é que isso significa?
Querem saber a origem do ouro e dos diamantes, para terem a certeza de que estão a comprar algo bonito e com uma alma bonita. Não se interessam por esmeraldas da Colômbia ou por rubis da Birmânia. Adoram o facto de as esmeraldas da Zâmbia serem muito mais éticas, porque as comunidades de onde são extraídas são bem cuidadas.

Há assim tantos consumidores das novas gerações com dinheiro para comprar esse tipo de joia?
Há muitos millennials, por exemplo nos Estados Unidos, que ficam milionários de forma instantânea. Tenho um cliente com 31 anos que teve um filho e perguntou-me se era possível comprar um diamante azul. Encontrei o diamante que ele queria, muito pequeno, com menos de um quilate. Mas era azul e com origem ética, desde a mina de onde foi extraído à forma como foi cortado.

Quanto é que custou?
Não posso dizer, centenas de milhares. Quando a pedra tem este preço, não cobro o valor da peça. O trabalho do joalheiro não acrescenta grande valor. Podemos dizer que sim para ganharmos mais dinheiro. Em termos de horas, é igual trabalhar uma pedra que custa 5 mil euros ou uma de 5 milhões de euros. A quantidade de ouro ou platina é a mesma, não se usa mais porque tem uma pedra mais cara. Quando uma pedra custa mais de 100/150 mil euros, não cobro o trabalho.

O negócio está na margem entre a compra da pedra e a venda ao cliente?
Sim. A pedra custa sempre mais. Se comprar um anel e o quiser desfazer, não vale grande dinheiro, só se tiver uma pedra grande, que é onde está o valor, ou uma marca conhecida.

O que pensa dos diamantes sintéticos feitos em laboratório?
É um grande negócio, mas se dissermos às pessoas para não comprarem diamantes naturais por estarem associados a corrupção, exploração infantil e destruição do planeta, isso não vai parar. As comunidades vão continuar a ser exploradas para os diamantes serem extraídos. A conversa não é sobre não comprar diamantes naturais mas como tornar a indústria melhor e mais ética para essas comunidades.

Se não houver clientes para os diamantes naturais, esse negócio acaba?
Nunca acabará. Vou dar um exemplo: o meio ambiente. A conversa é como tornar as pessoas mais conscientes a nível ambiental, não é esquecer a vida na Terra e construir vida noutro planeta. Com os diamantes naturais é a mesma coisa: foram-nos dados pela mãe natureza, vamos é torná-los limpos e éticos. Para que o negócio dos diamantes naturais deixe de existir é preciso que todos estejam no mesmo barco, e não estamos.

Qual é o seu propósito com a Vanleles?
É falar sobre isso. Em Angola, por exemplo, não é dizer vamos parar de comprar diamantes angolanos, mas fazer com que os diamantes angolanos sejam éticos e beneficiem as comunidades de onde são provenientes. É o mesmo com o ouro ou o alumínio, que em alguns países são extraídos de forma ética, não fomos criá-los em laboratório.

Porquê a referência a Angola?
Devido à natureza do trabalho e negócio que faço. Angola tem muitos diamantes, há muita gente a beneficiar disso, enquanto as comunidades de onde esses diamantes vêm não têm acesso a água potável, hospitais e escolas. Quando os africanos perceberem a riqueza e os empregos que os diamantes e o ouro (os nossos recursos naturais) geram fora do continente, por exemplo em Antuérpia, será um estalo global. Não é que não saibamos, o problema é que os nossos líderes são gananciosos e fecham os olhos quando lhes passam um envelope debaixo da mesa.

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