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Márcia: “Escrever e cantar é completo e prazeroso”

Márcia: “Escrever e cantar é completo e prazeroso”

Márcia, cantora e compositora. Mãe de dois filhos. Fez parte do Real Combo Lisbonense. Edita a solo desde 2009. Em outubro sairá o quarto álbum, “Vai e Vem”

De onde vêm as palavras que são depois canções?
De um lugar onde não chego de outra forma.

O que te fez ser cantora e não seguir pintura ou cinema?
Cantar é mais libertador e permite-me chegar aos outros, logo depois de mim. Tornou-se profissão porque dediquei mais tempo à música, por prazer e por curiosidade; escrever e cantar é completo e prazeroso, não me obriga a pensar.

O meio é pequeno ou as mentes é que são pequeninas?
O meio é pequeno, sente-se isso quando há pouco para investir. Mas são as mentes que fazem enaltecer o que é único, ou empobrecer o que é diferente. Temos esse poder.

A teimosia pode ser uma virtude?
Espero que sim. Esforço-me para fazer com rigor aquilo em que acredito. Tudo é possível, na música e na vida. Cada um tem a sua verdade e eu tento seguir a minha.

Ainda faz sentido sermos de esquerda ou de direita?
Definitivamente, não.

O que te ensina o teu pai, um homem ‘de outro tempo’, com outras histórias?
O meu pai pensa poesia. Cita poetas para exprimir uma ideia ou para se lembrar de uma palavra. Ensinou-me a gostar da trovoada e de pintura, porque eu via-o pintar em miúda. Cultivou-me o sentido de humor, e a liberdade de rir das coisas sérias. Recentemente elogiou-me a escrita ao ouvir o meu disco novo. Disse-me que não sabia que eu escrevia “tão bem e cada vez melhor” e aconselhou-me: “Não faças como eu. Não leias poesia. Se leres muito não escreves.” São conselhos sábios e pouco ortodoxos. O meu pai é o verdadeiro alternativo.

Devemos pensar muito antes de ter filhos, ou o ideal é não pensar demasiado?
Na minha entourage de Belas-Artes os meus amigos tinham medo de ter filhos porque a vida era instável para os artistas. É claro que é. Mas é para todos, não é exclusivo do meio artístico. Eu não pensei no momento, mas pensei nisso a vida toda. Na hora, o ideal é não pensar demasiado, aliás porque compromete a performance.

Foi válida a experiência no Festival da Canção?
Sim. Fico feliz por ter contribuído para trazer música a um festival que celebra música, e sempre adorei a ideia do Festival da Canção. A parte do concurso, porém, jogava fora.

Como nos reinventamos para não repetir sempre a mesma cantiga?
Mudamos naturalmente, não temos de nos esforçar. Aceito que mudo de ideias.

E no fim, é sempre o amor que nos salva?
Sempre. E a música é uma ótima cura para corações solitários. Quem a ouve pode rever-se e sentir-se entendido, e quem a fez sente-se entendido quando isso acontece. Essa troca é a chave. Essa troca é amor.

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