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Portugueses estão de volta aos tabuleiros de jogo

Portugueses estão de volta aos tabuleiros de jogo

Os dados estão a rolar com um aumento de 12% nas vendas de jogos tradicionais. Estão a ser descobertos por uma geração que já não cresceu com eles.

Os jogadores estão de regresso à casa de partida. As vendas de jogos de tabuleiro estão a crescer e não são as crianças, mas jovens adultos que passaram a infância no jogo eletrónico, quem hoje empurra aquele que é o segmento de maior expansão no mercado dos brinquedos. Em Portugal, o cansaço do digital e a procura por companheiros de partida também está a fazer disparar vendas, a gerar negócios novos e a recuperar os antigos, e a despertar o grande retalho.

As vendas de jogos e puzzles aumentaram em Portugal 12% no último ano. Valeram 22 milhões de euros, com 1,8 milhões de unidades, de acordo com dados da GfK. São números que acompanham uma tendência internacional liderada pela América do Norte, com um terço das vendas mundiais e subidas de 14% em 2016 nos dados da Euromonitor. E a consultora diz que vai continuar a crescer.

“As pessoas estavam completamente isoladas em termos lúdicos”, diz Gil d’Orey, criador de jogos português. “Posso estar a jogar online com 40 milhões de pessoas, mas no fundo estou a jogar com um número. O facto de as pessoas estarem todos os dias frente aos computadores gerou esta contracorrente. Back to the basics, vamos falar com as pessoas!”

Gil d’Orey, com a editora Mebo, passou 15 anos como designer em agências até descobrir que o que queria era criar e publicar jogos. Alguns dos seus maiores sucessos, como o Vintage e o Caravelas, resultaram na venda de licenças a editoras internacionais – hoje constitui mais de um terço do negócio. Uma das produções mais recentes, Estoril, está agora a chegar à China. Em Portugal, o designer conquistou lugar nas grandes superfícies comerciais ao lado de clássicos de família como Monopólio ou Trivial Pursuit. Algumas das tiragens já superam as 10 mil unidades. “É um número estrondoso para Portugal”.

“Não é lançar o dado e andar com o boneco”

Espaços comerciais como a FNAC têm vindo a apostar em campanhas específicas de promoção de jogos de tabuleiro, com eventos e parcerias com grupos de boardgamers e alguns fãs mais conhecidos desta modalidade de entretenimento, como Nuno Markl. “A FNAC já passou pela casa de partida há algum tempo”, assegura a empresa.

“Vivemos na era dourada dos jogos de tabuleiro, em que são lançados nos mercados internacionais cerca de mil jogos por ano, com uma grande diversidade de mecanismos e temáticas. Em Portugal, esta realidade é também uma tendência em crescimento e o mercado está muito recetivo”, diz a FNAC.

A Alemanha tem sido o motor da redescoberta. É em Essen que se realiza a Spiel, a maior feira da indústria. E é alemão o jogo Catan, o mais popular jogo de estratégia, do final do milénio, que fez o mundo descobrir o estilo de jogos europeus – os chamados eurogames. “Afinal isto não é lançar o dado e andar com o boneco. A partir daí foi a loucura”, diz Gil d’Orey.

Vital Lacerda especializou-se nesta tipologia. É outro designer que deixou o mundo das agências para se dedicar à “profissão de sonho”. Trabalha como freelancer para os mercados internacionais. O seu best-seller, The Gallerist, alcançou uma tiragem de 25 mil tabuleiros. A mais recente criação, Escape Plan, está perto de ser lançada pela Eagle Gryphon. Recebeu até à última sexta-feira mais de 600 mil dólares na plataforma Kickstarter.

Lacerda chegou à criação de jogos para pôr Portugal no mapa, literalmente. Criou um mapa do país para um jogo, The Age of Steam, e a partir daí não parou. E Portugal ficou mesmo no mapa. “No ano passado lancei um jogo chamado Lisboa, que é a reconstrução da cidade depois do terramoto. Recebo emails diariamente de gente a dizer que vai visitar Lisboa e levar as peças do jogo para encontrar os sítios. Este ano saiu um chamado Coimbra. Não deve demorar muito a sair um chamado Porto.”

Não são só os portugueses quem leva o país para os tabuleiros. O autor alemão Michael Kiesling lançou no ano passado Azul, jogo onde o tema é criar um painel de azulejos no Palácio de Leiria. Foi o vencedor do prémio Spiel des Jahres, na Alemanha, e a tiragem já anda na ordem dos milhões. A editora italiana What’s Your Game gostou tanto do país e dos seus criadores que fez de um sede e dos outros sócios. Nuno Bizarro Sentieiro e Paulo Soledade são os parceiros e a sede é em Leiria, onde decorre o maior evento de jogadores indústria do país, o LeiriaCon, com mais de 400 participantes.

Irina Rosa, responsável pela comunicação da Majora no The Edge Group. ( Pedro Rocha / Global Imagens )

“A intenção é crescer e também começar a apanhar novos públicos”, explica Irina Rosa, responsável pela comunicação da Majora. ( Pedro Rocha / Global Imagens )

Majora para maiores de 18

Há agora mais editoras e distribuidoras no país – Mebo, Pythagoras, What’s Your Game, Devir, Morapiaf – ao lado de nomes internacionais como a Hasbro ou Concentra e da histórica marca Majora, recuperada em 2016 pela holding de investimentos The Edge Group. O nome que os portugueses mais identificam com a infância e com os jogos de tabuleiro também está a apressar o passo para apanhar novos e antigos consumidores.

A Majora foi desde sempre a porta de entrada nos jogos de tabuleiro para as crianças portuguesas e quer continuar a sê-lo. Mas “a intenção é crescer e também começar a apanhar novos públicos”, explica Irina Rosa, responsável pela comunicação da marca. Até ao Natal, a Majora põe em loja 11 novos jogos. Um deles será para adultos. “É mesmo um jogo para mais de 18 anos”, avisa.

Muitos estão a descobrir na vida adulta as virtualidades do jogo tradicional de tabuleiro. E as empresas também. Bruno Monteiro, dono do único bar de jogos de tabuleiro do país, em Lisboa, o Pow Wow, é também formador em sessões de jogo encomendadas por empresas. “Com um jogo em que é preciso negociar constantemente desenvolve-se uma soft skill. Pode ser negociar, comunicar, trabalhar em equipa. Os jogos são uma maneira de desenvolver isso porque estamos numa situação que é palpável”, explica.

Ao Pow Wow, em Telheiras, chegam pessoas que não são o típico jogador experimentado. “Perguntam porque não tenho o monopólio. Respondo que não gosto de monopólio. Há milhares de jogos. Começam a experimentar, voltam, querem aprender mais, trazem amigos. É assim que isto cresce”, diz o proprietário. “O que é fixe é que ninguém pega no telemóvel”.

É também assim na Pastelaria Tentações, junto a Picoas, em Lisboa, todas as quartas-feiras. O encontro semanal do Lisbon Boardgamers, grupo informal de jogadores de tabuleiro criado há mais de dez anos, reúne até 50 pessoas por evento.

“Há sete ou oito anos, quem vinha eram pessoas que gostavam de jogos de hora, hora e meia. Hoje em dia vê-se muitas pessoas que estão aqui a jogar jogos de 20 minutos, party games, para descontrair”, diz Tiago Duarte.

Tiago Duarte está no grupo há nove anos e quase nunca falha um encontro. Em casa, tem uma autêntica ludoteca – 500 jogos numa divisão, numa coleção a uso. Vai a jogo “pelas pessoas”. Muitos boardgamers são hoje amigos com quem faz férias ou almoça. “A parte social está muito presente. Não tenho prazer com o jogo online. Prefiro jogar um jogo com pessoas com quem tenho empatia sendo um jogo de que não gosto tanto do que o contrário. Mas o ideal é jogar com pessoas de quem se gosta jogos de que se gosta.”

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