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"A China está a aproveitar para comprar países inteiros e, nalguns casos, a preço de saldo. Portugal é um bom exemplo desse investimento"

"A China está a aproveitar para comprar países inteiros e, nalguns casos, a preço de saldo. Portugal é um bom exemplo desse investimento"

Leia ou releia a entrevista a Pedro Baños, coronel na reserva e especialista em Geopolítica e Terrorismo

Entre 2001 e 2004, foi chefe de Contrainteligência e Segurança do Eurocorps, em Estrasburgo. Recentemente, durante a formação do Governo de Pedro Sánchez, o nome do espanhol Pedro Baños, 58 anos, chegou a ser dado como certo para diretor da Segurança Nacional. No entanto, a oposição protestou, atribuindo a este militar simpatias pró-Putin. A editora Clube do Autor acaba de lançar, em Portugal, o seu livro Os Donos do Mundo.

Em Espanha, o Partido Popular e o Ciudadanos acusaram-no de simpatias pró-Rússia. A que atribui essa suspeita?

Tenho defendido, e continuo a defender, que a União Europeia (UE) deve fazer o possível por manter muito boas relações com a Rússia. Esta tem tudo o que nos falta, a nós, na UE: recursos, energia e minerais estratégicos. Acho um erro o atual clima de confronto que pode até desembocar, nem que seja por acidente, num conflito armado. Há que evitar isso a todo o custo. Devemos ter relações económicas e comerciais mais fluidas com a Rússia. É importante para a segurança europeia, do ponto de vista não só militar mas também da prosperidade de que necessitamos.

Entre 2001 e 2004, foi chefe da Contrainteligência e Segurança do Eurocorps. Os problemas de segurança que se punham à Europa eram muito diferentes dos de hoje?

Estamos a viver situações muito complicadas, entre outras razões, porque dá a ideia de que os EUA estão, de certa forma, a abandonar a segurança europeia, que até aqui garantiam. Donald Trump enviou recentemente aos presidentes ou aos primeiros-ministros de vários países da UE uma carta, na qual dizia que terão de aumentar, no caso de Espanha mais do que duplicar, o orçamento da Defesa, se querem que os EUA continuem a defender a sua segurança. É uma mudança de paradigma muito importante.

A Europa devia estar a fazer um esforço para desenvolver a sua própria segurança. No entanto, os países t��m perceções muito diferentes das ameaças, o que impede um exército único. Hoje pensa-se em criar uma Europa a duas velocidades em termos de Defesa, um sistema em que um conjunto de países aceite as regras do jogo, dotando-se de Forças Armadas comuns. Só que isso implicará que outro grupo de países fique à margem dessa defesa, o que também mostra a debilidade da UE atual.

Quais seriam as consequências dessa Europa a duas velocidades?

Há um risco evidente, porque incluiria os países mais poderosos, como se vê pelos que assinaram o acordo de princípio, mas deixaria à margem países importantes, que também terão o seu peso na UE. Quando se fala em exércitos, não se pode avaliar só a parte do PIB destinada à Defesa; tem de se ter em conta também a vontade política, as missões. E nisto há uma profunda disparidade dentro da UE.

Escreve, no livro, que a Europa já manda pouco e tenderá a mandar cada vez menos. Isso sente-se em quê?

Estamos a retroceder na capacidade de influenciar o contexto mundial. Em contrapartida, outros países afirmam-se, muito centrados na Ásia, sobretudo a China, mas não devemos esquecer a Índia, com os seus 1 300 milhões de habitantes, muito boa tecnologia, e onde as elites falam inglês, o que permite maior penetração nos mercados internacionais. Estamos numa guerra económica claríssima, em que a Europa perde competitividade. Até há pouco tempo representava 25% do PIB mundial, hoje anda pelos 17% e, por volta de 2030, prevê-se que não seja mais de 7% ou 8%. Se não formos capazes de reinventar a UE, teremos um futuro realmente incerto.

Até que ponto a vinda de refugiados levanta problemas reais de segurança à Europa?

Quando se fala em segurança, há novamente que ter em conta a nossa diversidade. A principal preocupação dos países do Leste ou do Centro da Europa é com a Rússia. Já na faixa mediterrânica, Itália, Malta, Espanha ou Grécia, o problema são os movimentos migratórios em massa descontrolados, até pelo perigo de terrorismo de recorte salafita e jihadista. Esta diversidade faz com que também não sejamos capazes de chegar a acordo quanto a políticas comuns para combater os riscos de segurança. 
É uma grande debilidade.

O declínio da Idade do Petróleo que consequências geoestratégicas trará?

Na Europa, somos absolutamente dependentes do exterior em energia, seja em gás ou em petróleo. Isto não vai mudar assim. Ainda que amanhã todos os automóveis particulares passassem a ser elétricos, o petróleo continuaria a ter muita importância, pois grande parte do que nos rodeia provém de derivados do petróleo. No Médio Oriente, coexistem vários fatores, mas um importante é obviamente o domínio dos poços de petróleo, porque na Arábia Saudita, no Kuwait ou no Iraque estão os poços mais rentáveis do mundo, tanto pela qualidade do crude como pela facilidade de extração.

Portanto, não influirá muito na evolução do Médio Oriente?

Todos os problemas do Médio Oriente se repercutem no conjunto da UE. O mesmo sucede com o Magrebe, os países do Sahel e, cada vez mais, com a África Ocidental. A intervenção na Líbia, absolutamente errada, trouxe grande desestabilização. Voltando ao Médio Oriente, travam-se ali guerras sobrepostas, como no caso da Síria, onde há uma guerra civil, uma guerra regional e uma guerra de política mundial, a do confronto entre a Rússia e os EUA.

Como perito em contrainteligência, de que forma prevê que evolua o terrorismo jihadista?

Continuará a existir, porque não se eliminaram as suas raízes. Porém, preocupa-me muito mais o fundamentalismo salafita que está a instalar-se na Europa, ao qual se presta menos atenção.

Surpreendeu-o o encontro entre Trump e Kim Jong-un?

Sim. Creio que se insere um pouco na política de Trump que chamo “a estratégia do louco”, para nos manter numa incerteza permanente. De repente, Jong-un passa de ser o mais monstruoso do planeta a quase candidato ao Nobel da Paz, por chegar a acordo com Trump. Falta saber muito do entendimento que terá realmente existido. Provavelmente, um dos fatores por detrás do secretismo será a quantidade de dinheiro que os EUA darão à Coreia do Norte para a contentar e para que abandone, ainda que só parcialmente, o projeto nuclear. Não estou nada otimista, pois creio que se tratou mais de um gesto do que de algo que vá frutificar. 
O resultado passará pela relação entre os EUA e a China. Esta não pode permitir que a Coreia do Norte passe a ser um país, não digo aliado, mas, ao menos, não inimigo dos EUA.

No livro, diz que a “estratégia 
do louco” se aplica também 
a Kim Jong-un.

É verdade. Porém, ele acabou por demonstrar que a arma nuclear funciona. Um país pequeno, e dos mais pobres da Terra, conseguiu sentar-se à mesa de negociações, pelo menos teoricamente, com o país mais poderoso do planeta. Ele bem dizia que os países não se invadem por terem armas de destruição massiva, como alegadamente o Iraque em 2003, mas por não terem. A Coreia do Norte conseguiu um grande êxito, sobretudo em termos de política interna.

Como vê a fase atual das relações entre os EUA e a Rússia?

Desde o desaparecimento da URSS, os EUA tornaram-se o país mais poderoso. A sua Marinha é maior do que todas as outras juntas, designadamente em número de submarinos nucleares. Mas desde 2000, quando Putin chegou ao poder, a Rússia quer recuperar, se não todo, pelo menos parte do peso político que tinha nos tempos da URSS. E os EUA não estão interessados, no mínimo, nessa partilha de poder.

No entanto, diz que Trump e Putin têm muita afinidade ideológica. 
É possível isso existir entre um magnata e um ex-quadro do KGB?

Tanto um como outro querem instaurar um novo conservadorismo, o regresso aos valores tradicionais que eles achavam corretos e que estariam a perder-se. Putin, que era tenente-coronel do KGB, é muito astuto e dá muita importância à economia, pois sabe que sem isso não é possível ter umas boas Forças Armadas, um bom serviço de Inteligência ou um bom serviço diplomático. E Trump, que vem do mundo dos negócios, quer recuperar a capacidade económica dos EUA, o domínio que estava a perder. Isto não significa que tenham o mesmo entendimento político. No entanto, como decisores têm grande afinidade ideológica.

Como vê a China na sua relação 
com os EUA e com a Europa?

A China, de forma mais astuta e a longo prazo, quer também dominar o mundo, e igualmente através da economia. Isto não é novo, pois, já em finais dos anos de 1970, Deng Xiaoping reinventara o país deixado por Mao, para poder reforçar a sua capacidade económica. 
E a China está a aproveitar para comprar países europeus inteiros e, nalguns casos, a preços de saldo. Portugal é um bom exemplo do investimento chinês, seja no porto de Sines, nos transportes aéreos, na Banca ou na eletricidade estatal, seja através dos Vistos Gold, quase todos adquiridos por chineses. A penetração da China em setores estratégicos do continente europeu é um dado relevante.

O embaixador norte-americano em Portugal disse recentemente que os EUA estão preocupados, sobretudo por os negócios envolverem empresas estatais chinesas. Assim, tratar-se-ia de uma parceria política e não económica.

É perfeitamente compreensível essa preocupação do embaixador. E poderíamos falar também de África ou da América Latina. Há alguns confrontos, como na Venezuela, a que não é alheia essa disputa política entre EUA e China. Quase toda a dívida externa da Venezuela está nas mãos da China, que não quer um governo que deixe de lhe pagar. Os EUA estão muito preocupados, veem a China cada vez mais como o principal inimigo. Claro que, quando esta se tiver consolidado do ponto de vista económico, o próximo passo será dotar-se de um exército mais poderoso, não só em número de efetivos mas também qualitativamente.

Dedica parte do livro à guerra pelo Espaço. Em que ponto estamos?

O domínio do Espaço é um novo campo de confronto entre as grandes potências. Não só porque, se a população continuar a crescer ao ritmo atual, serão necessários novos destinos para a Humanidade mas também pelos recursos naturais, a energia, os materiais que existem em asteroides e planetas. A China e a Índia também estão nesta corrida. Em janeiro, Trump deu ordens à NASA para tratar do regresso de seres humanos à Lua, seguindo depois dali pelo menos para Marte. E crê-se que se têm instalado armas a laser em alguns satélites. 
O Espaço está de novo a ser militarizado.

Quais são as grandes evoluções geoestratégicas previsíveis 
para os próximos tempos?

Preocupam-me vários temas que são transversais. Os países, sobretudo os pequenos, devem estar atentos às tentativas de controlo económico por parte de grandes grupos investidores, de grupos de capital de risco ou de fundos soberanos de outros países. Senão, estaremos a vender os nossos países a preços muitos baixos, o que terá consequências no futuro.

Outro problema é a degradação do meio ambiente, incluindo as alterações climáticas. Recursos naturais como a água vão adquirir um valor enorme. Grandes multinacionais já estão a investir em água, o que se relaciona com outro desafio estratégico que é a demografia. Nalguns países, o problema será a baixa natalidade, como já acontece na Europa. Ao contrário, em África a população vai duplicar (até 2050). Outra ameaça importante é a disputa que se trava no ciberespaço, na internet e nas redes sociais, com toda a manipulação e todo o controlo dos meios de informação. Lamentavelmente, creio que os políticos não prestam a devida atenção a isto, que será uma grande vulnerabilidade para toda a Europa.

Mas há maneiras de conseguir realmente mais segurança no ciberespaço?

Muito mais. Um ataque importante no ciberespaço pode bloquear um país inteiro. Tudo é controlado pela informática, seja o fornecimento de água e de eletricidade seja o funcionamento dos bancos. Os grandes países têm verdadeiros exércitos neste tipo de tarefas. 
Os EUA elevaram o seu comando de ciberguerra, já nem lhe chamam ciberdefesa, ao nível de comando estratégico, tal é a importância disto para a segurança dos cidadãos. Há que prestar toda a atenção a este tipo de risco.

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