expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 12 ago 14:00

As emoções separavam os homens das máquinas mas elas já nos entendem

As emoções separavam os homens das máquinas mas elas já nos entendem

Investigadores do MIT criaram modelos de machine learning para a perceção de emoções

Os computadores podem facilitar grande parte das atividades humanas no presente, e poderão substituí-las num futuro próximo, mas há algo em que estes não são tão bons. Ou não eram. Uma capacidade que apenas a Humanidade conseguiu aperfeiçoar com milhões de anos de evolução e que era até agora a grande fronteira entre o homem e a máquina. Trata-se da aptidão para detetar e avaliar estados emocionais apenas com recurso ao olhar, de perceber o outro sem recurso a palavras ou ações. Mas isso está prestes a mudar. Era uma questão de tempo. A verdade é que as sensações e as emoções também são algoritmos de processamento de dados bioquímicos — e que os humanos são essencialmente uma coleção de algoritmos biológicos, como Yuval Noah Harari lembra em “Homo Deus: História Breve do Amanhã” —, pelo que também não é tão estranho assim que se tente dar capacidades humanas às máquinas.

Este ano tornou-se mais claro que computadores estão a ganhar uma espécie de sensibilidade e que esta terá muitas aplicações na vida quotidiana. Em janeiro, a vice-presidente da empresa de consultoria Gartner expressou que “em 2022, os dispositivos pessoais saberão mais sobre o estado emocional dos seus utilizadores do que a sua própria família”. E o que no início do ano parecia uma excentricidade de Annette Zimmermann acabou por ganhar força científica nos últimos meses. Primeiro foi a Universidade de Ohio a anunciar que tinha criado um algoritmo com uma capacidade sobre-humana de detetar emoções e agora a confirmação deu-se com uma demonstração do MIT Media Lab.

O grupo de trabalho do Massachusetts Institute of Technology criou um conjunto de modelos de machine learning capazes de ler expressões faciais e compreender emoções humanas. Mas isso não é tudo. O laboratório norte-americano conseguiu que a nova ferramenta tenha a possibilidade de se adaptar a novos contextos — por exemplo outras culturas, onde as expressões faciais para determinada emoção diferem — sem perder precisão. O objetivo não é novo, mas a combinação de redes neurais individuais (em vez do mapeamento de um conjunto de expressões) mostrou-se mais eficaz do que as abordagens anteriores.

“Se quisermos robôs com inteligência social, temos que fazê-los responder de forma inteligente e natural aos nossos humores e emoções, mais como os seres humanos”, considera Oggi Rudovic, coautor do artigo do MIT Media Lab. Mas qual a relação entre o cérebro humano e os processadores dos computadores? E porque continuamos a tentar equiparar-nos mutuamente? Há muito que nos comparamos a máquinas, e no século XIX o cérebro humano era descrito como se de uma máquina a vapor se tratasse, mas hoje isso já não faz sentido. “Porquê usar computadores como modelo para entender a mente”, questiona-se também Harari, mas aqui a questão é a oposta. Porque queremos que os computadores se tornem o mais semelhante possível aos humanos?

São várias as justificações apresentadas para os avanços da computação afetiva, cujo mercado se estima valer 35 mil milhões de euros daqui a quatro anos, e as grandes tecnológicas também estão atentas a estas inovações. Perceber as emoções dos utilizadores é um dos grandes objetivos de gigantes como a Apple, Amazon, Google ou o Facebook, e existem já empresas a especializarem-se em sistemas de inteligência artificial relacionados com o lado mais emocional de cada um. É o caso da Affectiva — cuja ferramenta Emotion AI é utilizada por mais de 1000 marcas em todo o mundo e tem o canal CBS, a MARS e a Kellogg’s entre os clientes — e de outros nomes menos conhecidos, como a BeyondVerbal ou a Sensay, que estão a criar produtos empresarias a partir das mais recentes inovações tecnológicas. Certo é que no futuro os dispositivos vão reconhecer, interpretar, processar e até simular emoções humanas, com as questões éticas a crescerem à mesma velocidade que a tecnologia.

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