expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 12 ago 21:00

Filhos da Pauta

Filhos da Pauta

Não é por acaso que a definição mais elementar de música nos diz ser a arte de combinar os sons. Mesmo que às vezes tal conceito seja posto à prova, o certo é que, para nosso júbilo, existem muitas e exemplares provas vivas da sua assertividade. “Ebony and Ivory” é um tema de Sir Paul McCartney e a ele recorro na tentativa de não bater sempre na mesma tecla no que à musica clássica diz respeito

A música clássica tem evoluído nos últimos anos de uma forma particularmente agradável no que concerne à sua aproximação ao público – quer junto dos que desde cedo aderiram ao género, quer (e é ainda mais importante) na conquista de novos adeptos a um estilo que, durante décadas, foi olhado de soslaio e com pouca apetência por parte de quem, por diversa ordem de razões, nunca deu uma hipótese à música que imortalizou Beethoven, Mozart, Verdi, Chopin e muitos outros sem os quais a nossa vivência seria inequivocamente mais pobre.

Boa parte deste saudado sucesso deve-se à própria aproximação feita pelos intérpretes: os concertos dos Três Tenores terão sido o primeiro passo neste processo de sedução dirigido a um público mais vasto. O êxito alcançado por Carreras, Domingo e Pavarotti foi tal que projetou para plateias inéditas o seu próprio nome e, mais notável ainda, o do maestro indiano Zubin Mehta, um nome praticamente desconhecido fora da esfera dos amantes da música clássica.

Por outro lado, a aparente informalidade de alguns executantes ajudou em muito a propagar a boa nova dos grandes compositores à escala planetário. Lembro-me, por exemplo, do aparecimento do então jovem talento britânico chamado Nigel Kennedy.

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O violinista, hoje com 61 anos, deixou a sua marca a vários níveis: desde logo, pelo seu visual descontraído -- cabelo “penteado” ao bom estilo de uma barbearia urbana do Soho londrino, roupa a condizer com o “urban style” e conversas informais com o público radiante ao ouvi-lo falar nas Quatro Estações de Viv, ou seja, Antonio Vivaldi. Foi aliás com o inesquecível compositor italiano que granjeou fama e notoriedade (também) junto do público mais jovem.

A irreverência de Nigel (usemos também de informalidade para a ele nos referirmos) não se limitou (nem limita) à música: socialista convicto e acérrimo crítico da política israelita, foi alvo de censura por parte da BBC quando, numa atuação realizada no âmbito dos lendários Prom Concerts no Royal Albert Hall, foi obrigado a retirar da sua intervenção a referência ao apartheid com a qual queria caracterizar a atuação de Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. E não foi assim há tanto tempo: aconteceu em 2013. (pode rever esse concerto AQUI)

Com uma vasta obra discográfica, o senhor Kennedy (demos-lhe agora algum formalismo) tocou com as principais orquestras do mundo, demonstrando sempre uma atitude e um virtuosismo que se tornaram imagens de marca na sua longa carreira. De entre os seus trabalhos permito-me destacar “The Kennedy Experience”, uma espécie de tratamento clássico sobre a obra de um guitarrista de rock que o instrumentista muito aprecia: Jimmy Hendrix (veja AQUI). Numa vertente mais tradicional sublinho o “Concerto para Violino” de Tchaikovsky ou o “similar” de Sibelius. Versátil nas abordagens, as incursões de Nigel Kennedy no mundo do jazz merecem igualmente destaque, nomeadamente os álbuns “Recital” (2013) ou “Blue Sessions”. Cada um deles é um regalo...

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Para a vista e para o ouvido, ninguém fica indiferente à presença de Yuja Wang: nascida em Pequim no ano de 1987, a pianista chinesa é hoje, aos 31 anos, uma das figuras mais notáveis e mais notadas no panorama mundial da música clássica. Elogiada pela crítica, apreciada pelo público (e o português já teve oportunidade de vê-la e ouvi-la), querida pelos fotógrafos, a senhora Wang conta com 5 gravações de estúdio onde prova sem mácula o seu talento, trabalhado desde os seis anos de uma idade sem inocência.

O seu disco de estreia – “Sonatas & Etudes” (veja e ouça AQUI) data de 2009 e figurou no ano seguinte nas nomeações aos prestigiados Grammy Awards. O seu trabalho mais recente foi editado em 2013: gravado com a Orquestra Sinfónica Simón Bolívar da Venezuela, “Piano Concertos – Rachmaninov/Prokofiev” (disponível na internet, onde o escutei, espreite AQUI https://www.youtube.com/watch?v=gbjklh1WuUw) representa em pleno o que um crítico do “San Francisco Chronicle” escreveu um dia sobre o talento de Yuja Wang: “(...) nada mais nos resta do que recostarmo-nos, ouvirmos e admirarmos a sua arte”.

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O mesmo poderá dizer-se da bem mais “veterana” (ou “sénior”, se preferirmos): também com atuações já registadas entre nós, a notável Martha Argerich tem num registo discográfico de 1965 um álbum obrigatório para os amantes ou simples curiosos da música clássica: “Chopin – The Legendary Recording” (AQUI) é um prazer que se repete tantas vezes quanto se escuta. Ousada, quando não temerária, a execução da argentina nascida em Buenos Aires aos 5 de junho de 1941 (e entretanto naturalizada suíça) surpreendeu o mundo da música pelo imenso talento revelado (confirmado) por alguém que tinha, à época, 24 anos.

Hoje com 77 anos, Martha continua a impressionar como uma pianista de exceção (à semelhança de Maria João Pires) de que nos foi dando conta ao longo da sua vasta discografia. Em boa verdade, qualquer título serviria para demonstrar o que aqui assumo mas, para falar apenas do que conheço, permito-me sugerir os concertos No. 2 & 3 de Beethoven (2004), “Martha Argerich & Nelson Freire in Salzburg” (2009, AQUI) ou, do mesmo ano, “The Berlin Recital”.

Considerada por muitos como a mais virtuosa das pianistas, a obra desta grande senhora merece ser ouvida sem reserva ou até... vista pelo olhar da filha que realizou “Bloody Daughter”, um retrato íntimo da instrumentista que chegou a ser visto no Lisbon & Estoril Film Festival de 2016. Com registos gravados ao longo de duas décadas, o filme é o retrato da relação entre mãe e filha, sendo que a última diz, a dada altura, que ter Martha como mãe é como ser filha de uma deusa. Cada um sabe de si mas, a priori, a tendência será para concordar.

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