tribunaexpresso.pttribunaexpresso.pt - 12 ago 10:25

Eduardo: “Tinha nove anos quando o meu pai faleceu. O carro bateu e fui projetado para o banco da frente. Fui o único que ficou consciente”

Eduardo: “Tinha nove anos quando o meu pai faleceu. O carro bateu e fui projetado para o banco da frente. Fui o único que ficou consciente”

Aos 35 anos, o guarda redes que cresceu no Braga, passou por Itália, Turquia, Croácia, Inglaterra e vive agora na Holanda, recorda com emoção o dia em que perdeu o pai e como isso afetou a sua vida e família, levando-o a percorrer um caminho algo solitário. Crente, Eduardo não esconde alguma mágoa pelo facto de não ter jogado mais vezes na seleção nacional, mas garante não se sentir menos campeão europeu do que os seus colegas. Sobre a relação com Jéssica Augusto não diz uma palavra e os olhos brilham quando fala da filha de ambos, Leonor, de três anos

Nasceu em Mirandela, mas tem dois irmãos que nasceram em Moçambique, certo?
Sim, os meus três irmãos mais velhos nasceram em África, o meu irmão Jorge nasceu em Murça e eu já nasci em Mirandela. Os meus pais eram caseiros de uma quinta, em Mirandela.

Em Moçambique os seus pais faziam o quê?
O meu pai foi para lá por causa da tropa, a minha mãe acompanhou-o e ficaram por lá um tempo, depois vieram para Portugal e foram trabalhar para a quinta. Éramos caseiros, vivíamos da terra.

O Eduardo é o caçula da família.
Sim. Somos cinco. Além de mim são mais dois rapazes e duas raparigas. O meu irmão mais velho tem 49 anos. Não é uma distância muito grande.

Quando se fala de infância, qual é a primeira coisa que vem à cabeça?
A quinta. Jogava à bola lá na quinta com os meus irmãos e como eles eram mais velhos quem tinha que ir à baliza era eu. Mas nunca tive a paixão de jogar na frente, sempre gostei da baliza. Lembro-me de na escola também ficar à baliza e um amigo meu às tantas diz-me: "Tens de ir treinar ao clube, precisamos de guarda-redes". Um dia lá fui, ao Mirandela, sem dizer ao meu pai, porque ele era difícil. Cheguei a casa tarde. Quando cheguei ao portão o meu pai estava lá em cima à beira de casa, com a lareira acesa cá fora, à minha espera. Eu já cheio de medo. Mas quando ele soube, como as pessoas gostavam de mim, lembro-me de ele ir lá uma vez ver-me. Foi a única.

O seu pai também jogou como guarda-redes.
Sim, jogou. Mas nunca o vi nessas brincadeiras porque ele faleceu muito cedo, eu tinha nove anos.

Como?
Num acidente de viação.

Onde estava quando lhe deram a notícia?
Foi nos meus braços. Íamos todos fazer a passagem de ano a casa da minha tia. Eu ia no meio quando tivemos o acidente, o meu pai no lugar do passageiro da frente, o meu irmão a conduzir. Quando o carro bateu eu fui projetado para a frente. Fui o único que ficou consciente.

Percebeu se ele ainda estava vivo?
Vi que estavam todos mal. Lembro-me de ter saltado pela parte de trás do vidro que estava partido. Quando me apanharam, já foi uns quilómetros fora dali, porque eu saí a correr à toa à procura de ajuda e pelos vistos tinha corrido para o lado errado. Corri para o meio do monte. Nem sequer tinha consciência do que estava fazer. O meu pai ainda chegou vivo ao hospital mas faleceu passadas poucas horas. Foi um período difícil. Nós não tínhamos nada, vivíamos da terra, depois tivemos de sair da quinta porque o meu irmão estava na tropa, ninguém ia trabalhar, o meu pai era o suporte daquilo... .Não é fácil não termos nada e ter de sair para nada.

Eduardo, à esquerda, aos 12 anos, com dois amigos de infância, Rui Borges e Hugo Adegas

Eduardo, à esquerda, aos 12 anos, com dois amigos de infância, Rui Borges e Hugo Adegas

D.R.

Foram viver para onde?
Os meus irmãos, entre eles, como já trabalhavam, arrendaram um apartamento pequenito para nós. Entretanto com 12 anos fui jogar para o V. Guimarães, através do treinador de Mirandela, que fez tudo por mim. Era ele que me levava a casa, que me ia buscar, que me dava o que eu não tinha e que me levou a treinar ao V. Guimarães. Entretanto como não tínhamos condições a minha mãe foi viver para casa de uma irmã minha, em Aveiro. Os meus irmãos foram para o Luxemburgo trabalhar e a minha mãe ficou nessa casa com o meu outro irmão. Neste momento os meus quatro irmãos estão todos no Luxemburgo.

A sua mãe ficou sempre em Aveiro?
Sim, mas há dois meses ofereci-lhe uma casa aqui, em Braga, que era o sonho dela.

Depois de ter ido para os iniciados do Mirandela aquele senhor de que falou levou-o ao V. Guimarães.
Sim, fiquei lá um ano, depois fui dispensado e vim para Braga.

E a escola? Teve cabeça para acabar a escola?
Tive. Fiz até ao 11º ano, depois tornei-me profissional no Sp. Braga, com 16 anos, e só acabei o 12º ano há uns anos quando abriram o programa das Novas Oportunidades.

Ter crescido sem pai obivamente marcou-o muito.
Claro que sim. Acho que todos gostamos de ter os pais presentes, sobretudo naquelas idades. Fui para Guimarães com 12 anos, morávamos 11 numa casa. Cresci assim, no meio de colegas.

Quando via chegar os pais dos outros sentia alguma inveja?
Era dificil. Nessas idades uma pessoa sente bastante a falta.

Em que é que o seu pai lhe fez mais falta?
Em tudo. Eu hoje sou pai e se calhar agora apercebo-me um pouco mais. Com 11 ou 12 anos precisamos de alguma orientação, precisamos de ter alguém que dê o raspanete nas horas certas ou que nos apoie quando precisamos. Eu cresci no meio de colegas, é óbvio que os colegas são amigos, mas... Ao fim de semana vinham as famílias e eu ficava sozinho, às vezes, na casa. Depois via os familiares deles a trazerem coisas, a estar ali com eles, a brincar. E eu ficava sozinho. Era triste para mim. Ainda hoje quando estou lá fora sozinho, não é fácil, porque os meus colegas têm família e eu vou uma vez ou outra a casa deles mas também não me sinto bem em estar sempre no meio dos outros. Não é que eles não queiram, e muitos ajudaram-me bastante, mas uma pessoa sente-se um bocado retraída.

Houve alguém que de alguma forma tivesse substituído o papel do seu pai?
Esse senhor do Mirandela. Costumo dizer que, se consegui chegar a algum lado, até porque lá a nossa terra não é um sítio de grandes oportunidades, foi graças ele, ao senhor Rocha, que ainda hoje trabalha no Mirandela. Se não fosse ele se calhar não tinha tido sequer hipótese.

Eduardo chegou ao Sp. Braga com 16 anos

Eduardo chegou ao Sp. Braga com 16 anos

D.R.

Quando chegou ao V. Guimarães e vivia na casa com os outros 11 miúdos, como se organizavam?
Tínhamos lá um senhor que vivia connosco. O senhor Manafá. Era africano. Punha-nos um bocado de ordem. Morava lá também o Duda, era meu vizinho de quarto, que também punha um bocado ordem. Havia jogadores de várias idades. Eu cheguei a ser o mais novo, havia juniores do último ano. No meu quarto estava um rapaz que era de Macedo de Cavaleiros, era mais velho.

Foi um choque quando o V. Guimarães o dispensou?
Foi. Pensei que ia regressar a Mirandela. Naquelas idades é uma desilusão muito grande e pensamos que se fomos dispensados é porque se calhar acabou. O senhor Rocha é que disse: “Nem penses”. Ele é que tirava os jogadores todos daquela zona, fez os contactos dele e pronto.

Como foi o embate ao chegar ao Sp. Braga?
No primeiro dia quando entro nas instalações do clube, disseram-me para ir ao escritório falar com o Victor Santos, que era o coordenador do futebol juvenil. Entro e vejo um senhor a olhar para mim: “Tu estiveste no V. Guimarães, não é?”; “Sim, estive lá na época passada”; “E tu pensas que os dispensados de lá vêm para aqui assim?! Põe-te já a andar daqui para fora”. Eu deitei as mãos à cabeça e pensei, onde é que me meti. [risos] Depois vi que era o jeito dele, tinha essa fama, havia aquela rivalidade e ele era um gajo mesmo de Braga. Ele lá veio ter comigo: “Vá, vai lá treinar, mas não penses que isto é assim” [risos]. Estive lá a treinar uma semana e o treinador da altura, o Zé Maria, gostou de mim e pronto.

Tinha quantos anos?
Uns 16 anos.

Vem de armas e bagagens para Braga...
Sim, vou viver para um apartamento com colegas.

Alguns desses colegas vingou também no futebol?
Talvez só o Rui Rego, que ainda foi guarda redes no Beira-Mar, mas foi dos poucos. Depois fiquei sempre aqui, andei na escola, na Alberto Sampaio e com 16 anos, veio o mister Carlos Manuel e passei a treinar sempre com os seniores. Desde essa altura, desde os 16 anos, treinei sempre com os seniores. De manhã treinava com os seniores e à tarde treinava com os juniores e juvenis.

E jogava onde?
Nos juvenis. Depois criaram as equipas B. Estive cinco anos na equipa B. Praticamente desde que ela existiu até à altura em que acabou. Nessa altura tinha 24, 25 anos e fiquei como terceiro guarda-redes da equipa principal. Entretanto é quando vem o Carvalhal para Braga. Só que logo em dezembro é dispensado e quase no mesmo dia em que assina com o Beira-Mar vem buscar-me.

Eduardo, o 4º a partir da esquerda, com a equipa do Mirandela

Eduardo, o 4º a partir da esquerda, com a equipa do Mirandela

D.R.

Chegou a estrear-se nessa altura pelo Braga na I Liga?
Não. É no Beira-Mar que faço a minha estreia como sénior, com o Carvalhal. Só que acontece aquela cena com os espanhóis.

Qual cena?
Passadas umas semanas uma empresa espanhola tomou conta do clube e o Carvalhal sai. Ou seja, na mesma semana em que eu vou para o Beira Mar, o Carvalhal sai. “Estou tramado, agora que eu chego o homem sai”. Nunca tinha jogado na I Liga, estavam a renovar a equipa, estávamos em último, havia ali uma série de dúvidas sobre o que é que me ia acontecer. Mas felizmente comecei a jogar e as coisas correram bem.

Mas então não chega a estrear-se com o Carvalhal.
Acho que não. Estreio-me num jogo em Paços de Ferreira, o treinador era o espanhol Paco Soler.

Estava muito nervoso?
Claro que sim, mas já tinha muitos jogos da equipa B, tinha cinco anos da equipa B, que na altura era um campeonato muito competitivo. Felizmente fiz um bom jogo e acabei por fazer uma boa época.

Na baliza também se nota muito a passagem de um campeonato menor para a I Liga?
Sim, não tanto pela quantidade de defesas, mas mais pela gestão do jogo, por aquilo que se pode dar à equipa. Um guarda-redes não serve só para defender bolas. Existe a liderança, a experiência, o companheirismo. Um guarda-redes cresce com isso tudo, com a experiência, com a gestão de jogo, com a abordagem das situações, com a melhor definição dos lances. O parar e o chutar bolas é o mais fácil.

Eduardo, em pé à esquerda, na equipa de campeões de iniciados do Mirandela

Eduardo, em pé à esquerda, na equipa de campeões de iniciados do Mirandela

D.R.

Em pequeno sonhava em ser alguma coisa?
Como cresci numa zona onde há poucas oportunidades, não havia muitos clube de referência, havia o Chaves na altura, era difícil a gente sonhar com essas coisas. Se não houver ninguém que nos dê um empurrão, que nos leve aos sítios. Ali era difícil a gente dizer que queria ser alguma coisa.

Quando é que conhece a sua primeira namorada?
Com 16 anos.

Foi a Jéssica Augusto?
Foi.

Como é que a conheceu?
Na escola, mas eu não queria falar muito sobre isso. Estamos separados.

Fica meia época no Beira Mar e depois é emprestado ao Vitória de Setúbal. Porquê?
Sempre estive ligado ao Sp.Braga, fui emprestado ao Beira-Mar, entretanto tinha feito uma época boa mas o clube desce de divisão e o Carvalhal assina com o V. Setúbal e a primeira coisa que fez foi vir buscar-me outra vez.

Eduardo numa foto recente com a mãe

Eduardo numa foto recente com a mãe

D.R.

Antes de falarmos nesta mudança de Braga para Setúbal, quando é que assina o seu primeiro contrato?
Assinei como profissional com o Sp. Braga, aos 16 anos, porque na altura um dos guarda redes, o Paulo Morais, lesionou-se e era preciso ter um guarda-redes, e tiveram que me fazer um contrato profissional para eu poder ser inscrito.

Até aí não ganhava dinheiro nenhum?
Não, o meu primeiro ordenado foi de 250 euros.

Vivia como?
No V. Guimarães davam-nos 50 euros de subsídios. Tinha 12, 13 anos. Tínhamos tudo pago, a alimentação, o almoço, o jantar. Ao jantar levávamos comida para o pequeno-almoço. Os 50 euros que nos davam tinham que dar para o mês todo.

Houve alguma coisa que quisesse muito comprar com o primeiro ordenado?
Nessa altura acho que foi um telemóvel Motorola. Como desde muito cedo tive que aprender a ser responsável, tinha que gerir muito bem as minhas coisas porque não tinha a quem pedir. E mesmo quando comecei a ganhar esse dinheiro, que era muito na altura para nós, nunca tive essa coisa de gastar o dinheiro mal gasto. Já podia dar à minha mãe e aos meus irmãos.

Ia vendo a sua mãe com que frequência?
Ia quando podia. Apanhava aqueles autocarros que demoravam quatro horas para chegar a Mirandela, percorriam as aldeias todas e uma pessoa dormia lá atrás. Não havia dinheiro para gastar por isso ia quando podia. Às vezes de dois em dois meses.

Houve alturas em que se sentiu muito sozinho?
Sim. Ainda hoje muitas vezes. Estou há muitos anos fora, sozinho. Mas temos de pensar no futuro e nos nossos. Muitas vezes são esses sacrifícios que nos levam para a frente.

Eduardo, à direita, festeja a conquista de uma Taça da Liga pelo V. Setúbal

Eduardo, à direita, festeja a conquista de uma Taça da Liga pelo V. Setúbal

FRANCISCO LEONG

Estávamos em Setúbal. Quando vai para o V. Setúbal, já não estudava?
Não, deixei um bocadinho antes de ir para o Beira-Mar. Quando deixei já treinava de manhã com os seniores e à tarde com a minha equipa de juvenis ou juniores e não tinha tempo. Achei que com os estudos não tinha futuro e arrisquei tudo no futebol.

Quando era pequeno torcia por que clube?
Na altura o meu pai era portista mas eu era como a minha mãe, torcia mais pelo Benfica. Mas não era nada demais. Depois quando vim para Braga passei a ser do Sp. Braga e ainda hoje sou. Sou sócio há 20 anos, o tempo da minha carreira. Agora tenho Braga na minha cabeça, cresci aqui, foi aqui que sempre sonhei jogar como profissional, foi no Sp. Braga que comecei a ver os jogos dos profissionais.

Vai sozinho para Setúbal?
Não, fui viver com um colega, o Frederico Gonçalves, tínhamos jogado os dois na equipa B, éramos grandes amigos e como fomos os dois para lá, decidimos até para poupar nas rendas, dividir o apartamento.

Como é que foi mudar de Braga para Setúbal? Gostou de Setúbal?
Adorei Setúbal, as pessoas, a própria cidade em si, o clima, o peixe. E quando uma pessoa vai para um sítio, as coisas correm muito bem e as pessoas tratam-nos muito bem, ficamos em paz. Fizemos uma época fabulosa e toda a gente nos adorava. Foi uma cidade e um clube onde adorei estar.

Dessa equipa fez algumas amizades?
Nós nesse ano fizemos uma época brilhante pela amizade que tínhamos. Havia prazer em ir para o treino e em ir para o balneário. Na altura tínhamos o Sandro, o Pitbull, o Filipe, o Jorginho, o Gama, o Severino, havia ali um grupo fabuloso. Depois o Carvalhal também ajudava porque tinha uma relação fantástica com os jogadores. Brincávamos com tudo, num altura até roupa queimámos lá dentro.

Conte lá melhor essa história.
Quando víamos que havia alguém que levava a mesma roupa durante muito tempo ou meias diferentes, pegávamos fogo. [risos].

Alguma vez foi praxado?
Sim. Acho que a primeira vez foi no Sp. Braga, tinha 16 anos, e na altura faziam aquelas partidas das entrevistas à noite. Uma pessoa chegava ali e não sabia, pensava que estava mesmo a dar uma entrevista por telefone e do outro lado estavam eles a rir à gargalhada. Quando fui convocado pela primeira vez, puseram-me no quarto com um determinado jogador, mais velho. Quando acabo de jantar vou para o quarto direitinho, vou ver televisão, e esse colega apaga a luz. E eu: “Alto, que vamos dormir”. Tinha muito respeitinho, era mais velho. Só que passado um bocado ele acende a luz, saca das colunas, saca de um livro e começa a rezar e a ouvir músicas de igreja até às tantas. Eu não era capaz de dormir mas também não era capaz de lhe dizer nada. No dia seguinte ao pequeno-almoço, estava cheio de sono e o pessoal todo a rir. Depois percebi o porquê. Ele costumava ficar sozinho, mas como eu era novo puseram-me no quarto com ele. Era o Aldair, brasileiro.

Eduardo com as luvas que o ídolo Buffon lhe ofereceu

Eduardo com as luvas que o ídolo Buffon lhe ofereceu

Rui Duarte Silva

Em Setúbal as coisas correm muito bem e é chamado de novo ao Sp. Braga. Ficou com pena de sair de Setúbal?
Foi difícil porque estava no início da minha carreira, sentia-me confortável ali. Gostava das pessoas, as pessoas gostavam de mim, respeitavam-me e... Por um lado não era difícil porque o Sp. Braga já era um grande clube, ia às competições europeias, estava a formar uma grande equipa porque tinha vindo o Jorge Jesus, era um salto. Mas tinha aquele sentimento do que tinha acontecido em Setúbal era bom. Sentia-me ligado e ainda hoje tenho um grande respeito pelo Vitória de Setúbal e pela cidade.

Foi uma grande diferença entre o Carvalhal e o Jorge Jesus?
São treinadores diferentes. Quem me conhece sabe que sou um profissional rigoroso e não mudo nada, por motivo nenhum. Sou assim e serei sempre. Sempre gostei de trabalhar, sou o primeiro a chegar, não digo que sou o último a sair, mas sou sempre o primeiro a chegar, faço aquilo que tenho que fazer, preparo-me para o treino.

Tem alguma preparação especial? Alguns rituais?
Sim, quase todos os dias faço primeiro ginásio. Chego tão cedo que brincam comigo e dizem que tomo o pequeno-almoço com os cozinheiros porque ninguém lá está.

A que horas é que vai para lá?
Chego por volta das 7h45. O treino é às 10h30. Gosto de estar ali. Tomo o pequeno almoço, leio as notícias, depois vou para o ginásio.

Não respondeu às diferenças entre Carvalhal e Jesus.
O Carvalhal foi o primeiro a acreditar em mim. Era a pessoa que me ajudava e que muitas vezes tinha conversas comigo e é óbvio que desta forma uma pessoa se sente mais confortável, mais à vontade. O Jesus já era mais temperamental, mas eu adapto-me bem.

Ao vê-lo e ouvi-lo agora reconhece o Jesus que o treinou há 10 anos?
Completamente.

Os jogadores brincavam com a forma dele falar?
Sim. E até havia jogadores, o Rúben Amorim por exemplo, que o imitavam bem [risos]. Havia coisas muito engraçadas que aconteciam e depois quando estávamos sozinhos [risos], o Rúben imitava-o na perfeição.

D.R.

Esteve uma época com o Jorge Jesus em Braga. Como é que correu?
Foi bom, fui chamado à seleção pela primeira vez. Nunca tinha sido internacional nas camadas jovens. Fui a todos os estágios das seleções jovens mas nunca fui convocado para um jogo oficial, até à seleção A, com 26 anos. E faço a estreia num jogo contra a Suécia, no Estádio do Dragão, em que se perdêssemos não ��amos ao Mundial-2010. Correu muito bem, acho que já estava preparado. Na altura o mister Queiroz acreditou bastante em mim, pôs-me à vontade e deu-me confiança.

Foi convocado a primeira vez e jogou logo?
Não, já tinha sido convocado antes. Na última convocatória não comecei logo a jogar, estava o Quim a jogar, mas quando fui convocado para esse estágio no Algarve, para a qualificação do Mundial-2010, ele virou-se para mim, e disse-me: “Agora estamos nas tuas mãos”. Depois conversou comigo, pôs-me à vontade e a partir daí defendeu-me com unhas e dentes, e felizmente correu bem, fiz o apuramento todo. Penso que nos 12 jogos sofri um golo. Depois deixei de jogar, por motivos... Por deixar de jogar no clube.

Deixou de jogar no clube quando?
Quando vim para o Benfica. E deixando de jogar o mister Paulo Bento apostou no Rui Patrício e foi assim que deixei de jogar na seleção. Face àquilo que conquistei, como conquistei e depois ter corrido bem, foi bastante duro para mim.

Eduardo estreou-se pela seleção A frente à Suécia, num jogo de apuramento para o Mundial de 2010

Eduardo estreou-se pela seleção A frente à Suécia, num jogo de apuramento para o Mundial de 2010

D.R.

Porque é que vai para Génova?
No Mundial-2010 as coisas correram-me bem e como consequência dá-se a transferência. Apareceu o Génova que me fez uma oferta, pagou por mim e a mudança para o campeonato italiano era uma porta aberta e para outros clubes.

Ir para fora do país era uma coisa que já lhe passava pela cabeça?
Não pensava nisso.

Nem havia nenhum campeonato onde gostasse de jogar?
O campeonato italiano era um campeonato de referência. Na altura havia a possibilidade de ir para Espanha ou para Itália.

Em Espanha quem é que estava interessado?
O Málaga, quando o Jesualdo foi para lá. Mas depois foi tudo uma questão de timing. O Málaga estava um bocado atrasado nas propostas, entretanto, não sei se foi um erro ou não, dei a minha palavra ao Génova E ainda hoje quando dou a minha palavra, as coisas não voltam atrás.

Foi ganhar quantas vezes mais? 10?
Ou mais. Ganhava muito pouco [risos].

Tinha noção de que lhe pagavam pouco?
Perfeitamente. Mas na altura tinha um contrato antigo de longa duração e estava agarrado aquilo, não tinha outra hipótese.

Vai sozinho para Itália?
Vou sozinho e vou viver sozinho.

Já lá vamos. Quando é chamado à seleção lembra-se do que sentiu e de como soube da convocatória?
Penso que foi através do Vital. Eu tinha um bocado de “mágoa” porque tinha feito aquela época em Setúbal e na altura do Euro 2008 o Quim lesiona-se no estágio e eu que tinha feito a época toda pensava que ia ser chamado, e foi o Nuno Espírito Santo que estava no banco do FCP. O treinador era o Scolari. Quando sai entra o Carlos Queiroz que me chama logo.

Entretanto o Jorge Jesus sai do Sp. Braga e vai para o Benfica. Vem o Domingos Paciência para Braga. Que tal?
Foi diferente mas adaptámo-nos bem. Tínhamos uma grande equipa, uma boa estrutura deixada pelo Jesus, com uma série de bons jogadores. O mister Domingos fez umas adaptações e fizemos uma época brilhante. O Jesus tem uma particularidade, que é o seu caráter, é uma pessoa com as suas ideias muito vincadas, enquanto o Domingos era mais aberto, tinha outro tipo de relação com os jogadores, pedia mais a opinião, integrava-se mais, até brincava connosco nos treinos, os próprios treinos eram diferentes. São métodos, por isso é que os treinadores rodam e trocam-se quando às vezes não dá.

Com os treinadores de guarda-redes é a mesma coisa, troca-se com a mesma facilidade?
Aqui no Sp.Braga foi sempre o mesmo, o Vital, uma pessoa a quem eu devo bastante. Sempre me ajudou. Foi mais do que um treinador para mim, é um amigo para a vida. Uma pessoa que me ajudou a desenvolver bastante.

A segunda época em Braga com o Domingos corre muito bem.
Lutámos pelo título até à última jornada. Imagine o que é um clube como o Sp. Braga que vinha a crescer bastante e faz a época que faz. Andamos em primeiro até março. Acho que deixamos de ser primeiros num jogo que fomos fazer ao Dragão. Perdemos lá o 1º lugar, faltavam quatro ou cinco jornadas para acabar o campeonato. Terminámos a um ponto do Benfica, podíamos ter sido campeões. A euforia das pessoas, a euforia que se vivia nos jogos, não perdemos um jogo em casa nesse ano, empatámos um, com o Naval, ganhámos a toda a gente.

Acreditaram mesmo que podiam ser campeões?
Acreditámos. Independentemente daquilo que se passou, daquele caso do túnel no jogo com o Benfica em que suspenderam o Vandinho, mesmo com isso tudo, fomos até ao fim. Havia uma dinâmica de vitória, íamos para os jogos e sabíamos que íamos ganhar. Era uma confiança e uma dinâmica que nos transcendia. Foi um ano fabuloso.

D.R.

É a primeira vez que vai sozinho para um país estrangeiro. Adaptou-se bem?
Foi diferente. Fiquei num hotel durante algum tempo e foi difícil. Em Portugal temos sempre amigos quando precisamos. Agora quando chegas a um país diferente, acabas o treino deixam-te no hotel. Queres ir a algum lado, não conheces, sais do hotel e vais a pé, andas por ali, comes qualquer coisa e o que é que vais fazer? Vais para o hotel.

O que é que fazia nos tempos livres?
Via filmes, nunca joguei Playstation, nunca tive em criança e a coisa não se transportou para a idade adulta. Basicamente estava sempre no hotel. Foi difícil.

Não havia mais portugueses no Génova?
Nessa altura não, depois acaba por vir o Miguel Veloso. Mas eles têm as suas famílias e custa um pouco estarmos sempre ali no meio deles. Uma pessoa vai jantar uma vez ou outra, mas sempre não nos sentimos bem. Por isso muitas vezes via-me ali sozinho, mas…

Custa muito.
Custa.

Dos italianos e da cidade em si, gostou?
Gostei. Depois comecei a ganhar amizade pelo dono de um restaurante onde costumava ir. Quando arranjei o apartamento era mesmo em frente ao restaurante e ia lá muitas vezes jantar, já me sentava com ele à mesa. E às vezes era ele que me ligava. Também havia o roupeiro e o mecânico que nos ajudava com os carros do clube. Também criei amizade com eles. Tínhamos um ritual. Sou católico e eles tinham um santuário lá no cimo e todas sextas-feiras fazíamos a caminhada até lá acima, vínhamos para baixo e comíamos com as famílias deles num restaurante. Era o nosso ritual semanal.

O ser católico foi-lhe incutido por alguém?
Não. Foi por mim e é das coisas a que eu muitas vezes me agarro. Costumo dizer que cada um tem a sua maneira de encarar a fé e eu respeito todas. Concordo com algumas coisas, não concordo com outras mas é mesmo assim, são questões pessoais. A fé é algo que está bastante presente na minha vida.

Eduardo com a filha Leonor

Eduardo com a filha Leonor

D.R.

Desportivamente como corre a época em Génova?
Bem. Eu vinha do Sp.Braga, de muitos anos com um trabalho diferente, tive que me adaptar a um trabalho e a uma competição diferentes.

Consegue dar-me um exemplo para as pessoas perceberem, de uma coisa nova e diferente no trabalho?
Os métodos são diferentes. Ali íamos muito ao ginásio, coisa que eu não fazia, trabalhávamos muito o efeito de ginásio, pouco no campo. Era uma maneira de treinar diferente. A minha maneira de jogar tinha que ser diferente daquilo que fazia em Portugal. Quando falávamos há pouco da experiência que se ganha, antigamente eu era um guarda-redes que arriscava muito, jogava muito fora, antecipava muitos lances e em Itália isso era muito complicado pela maneira como a equipa jogava. Era obrigado a jogar mais retraído e muitas vezes arriscava e as coisas corriam-me mal. Ou seja houve uma adaptação daquilo que eu era, face ao trabalho e à maneira de estar em campo. No início foi um bocado difícil, mas a parte final já foi bastante boa.

Lê as críticas?
Leio.

Sofre com elas?
Com as infundadas sim. Agora já lido melhor, mas na altura houve coisas bastante ingratas.

A imprensa lá é mais dura?
Era, muito mais e para mim foi uma realidade nova. Tudo o que acontecia eras tu o responsável. As pessoas tinham criado uma expetativa de ti e então não perdoavam, mesmo que não tivesses culpa, tinhas culpa, era um pouco assim.

Como é que se lida com isso? Alguma vez recorreu a ajuda psicológica?
Houve uma altura que comecei a fazer um trabalho, mas depois não segui.

Lá ainda?
Não, foi quando vim para o Benfica, pela situação que foi. Foi no ano a seguir.

Eduardo foi para a Croácia em 2014

Eduardo foi para a Croácia em 2014

D.R.

Por que vem embora de Itália?
Porque houve uma mudança de treinador. Eu não queria vir, até porque tive uma parte final bastante boa e não queria vir, mas esta é a parte que eu não quero contar.

Porquê?
Eu não queria vir, mas fui convencido a vir. Houve ali uma situação no Génova, uma troca de treinadores e o treinador novo queria trazer o guarda-redes deles, não vinha se eu não saísse. Na altura o Benfica apareceu, foi-me proposto ir para o Benfica. Eu não queria vir, queria continuar, já me tinha adaptado. Não me foi imposto, mas disseram para sair, que conseguiam arranjar uma solução. Depois houve uma “sedução” para que as coisas acontecessem e chegou a uma altura em que também não estava a gostar de me sentir a mais.

Mas porque é que não queria ir para o Benfica? Alguma coisa no Benfica que não lhe agradava?
Vir para o Benfica agradava-me. Era uma boa opção. No Génova tive outro tipo de condições, era um bom campeonato, mas o Benfica era um clube que lutava pelos títulos, já podia ganhar campeonatos, podia ganhar taças, joga na Liga dos Campeões e no Génova não. Isso também me seduziu.

Vem emprestado.
Vim emprestado porque na altura o Génova tinha dado bastante dinheiro por mim. Vim com opção de compra, ou seja, se as coisas corressem bem, o Benfica podia comprar o meu passe.

Mas as coisas não correram bem no Benfica...
Não joguei.

Porquê? O que é que aconteceu entretanto?
Não quero falar sobre isso. Não jogo por opção do treinador. Ponto final.

Tinha feito uma boa época em Itália e de repente chega ao Benfica e não joga...
E como consequência deixei de jogar na seleção. Se tivesse continuado a jogar no clube regularmente tinha continuado a jogar na seleção. Mas quando decidimos uma coisa não prevemos o futuro.

Foi pedir satisfações a Jorge Jesus?
Isso são coisas que devemos guardar. A única coisa que digo é que pelo Benfica e pelos seus responsáveis fui sempre bem tratado, só tenho a dizer bem e orgulho-me em ter estado num clube como o Benfica.

É por causa disso que vai para Istambul, por não jogar no Benfica?
O presidente Luís Filipe Vieira foi sempre fantástico comigo, ele e o Rui Costa. Até houve conversas para saber se estava interessado em continuar. Mas eu disse que não, queria outro rumo, porque queria jogar e alimentar o sonho de voltar à seleção. Na altura ainda pertencia ao Génova e teve que se encontrar uma solução. Não foi fácil, pelas exigências do Génova. É então que o Carvalhal assume o controlo do Istambul BB e convida-me. Lá se conseguiu um entendimento para eu ir.

Eduardo esteve no Genova, o seu primeiro clube fora de Portugal, em 2010/11

Eduardo esteve no Genova, o seu primeiro clube fora de Portugal, em 2010/11

Valerio Pennicino

Vai para a Turquia sozinho?
Vou.

Houve algum choque cultural?
Sim, aí foi mais difícil porque quando se está sozinho num país em que nem a língua se percebe, é muito complicado. Muita gente nem fala inglês. Às vezes entrava num táxi e nem inglês eles falavam. Tinha que pegar num telefone e pedir ao tradutor. Depois já não conseguia vir a Portugal tão regularmente. Quando vinha a Portugal vinha para a seleção e não ia a casa. Foi muito complicado. Entretanto o Carvalhal também saiu.

Havia outros portugueses a jogar na equipa?
Havia mais um, o Geraldes, que acaba por ser a minha companhia lá. Com a maior parte dos turcos era uma relação difícil, era difícil comunicar e havia uma separação, eles tinham os rituais deles. Havia ali uma certa dificuldade connosco e éramos poucos. Estávamos nos treinos mas quando acabava era cada um por si.

Gostou da cidade?
Adorei Istambul e as pessoas no geral.

O que é que mais o surpreendeu?
Muita coisa... Nunca me senti inseguro em lado nenhum. Ia a vários sítios, tinha zonas excelentes para passear, às vezes íamos com portugueses que conhecíamos e que lá estavam a passear para conhecer a cidade. Istambul foi dos sítios que mais gostei de conhecer.

Eduardo no Dinamo de Zagreb

Eduardo no Dinamo de Zagreb

ADRIAN DENNIS

Fez o apuramento para o Euro 2012.
Fiz o apuramento e o Euro, fiz tudo.

Mas não jogou no Euro 2012.
Não, já não joguei. Já estava com a condição de suplente, jogava o Rui nessa altura.

Como é que ajudava a seleção fora das quatro linhas?
Sendo eu próprio, fazendo aquilo que me compete fazer e que tenho prazer em fazer.

E isso significa o quê?
Tudo. Dar o meu melhor todos os dias, porque ao fazê-lo estou a ajudar os meus companheiros, estou a ser honesto comigo e com as pessoas.

Tornou-se numa espécie de confidente dos outros jogadores?
Não. Sinto que as pessoas ao me conhecerem, respeitam-me e sabem aquilo que lhes posso dar. Aquilo que eu puder fazer, sabem que eu faço. Acima de tudo tenho amizades, grandes amizades, tenho grande respeito e sinto também que da parte dos jogadores e da estrutura, dos treinadores, têm-me grande respeito se não, não me tinham chamado, e não contavam comigo nem falam comigo como falam hoje.

Há rivalidade entre guarda-redes?
Há uma rivalidade e uma vontade de jogar saudável. Sempre houve e o Rui é um grande amigo meu, é uma pessoa de quem gosto muito, e sei que ele também me respeita e gosta muito de mim. Houve sempre esse respeito e essa maneira de estar, que é cada um dando o seu melhor, ajuda-se um ao outro.

Eduaro, à direita, é consolado por Danny, quando Portugal perde com a Espanha e é afastado do Munidla de 2010

Eduaro, à direita, é consolado por Danny, quando Portugal perde com a Espanha e é afastado do Munidla de 2010

Ryan Pierse - FIFA

De Istambul regressa ao Sp. Braga porquê?
Foi uma mistura de sentimentos. Abdiquei de muita coisa para vir para o Sp.Braga nessa altura. Perdi imenso a nível de contratos para regressar ao Braga.

Então porque é que regressa?
Acima de tudo queria vir para casa, pensei mais com o coração. Queria voltar à família. Costuma-se dizer que a pessoa não deve voltar à casa onde foi feliz, mas na altura foi o meu desejo. Tinha propostas muito melhores, tinha o meu último ano de contrato com o Génova, que era o meu melhor.

Veio tentar salvar a sua relação, o seu casamento? Sentiu que podia estar a fugir-lhe estando tanto tempo fora?
Não, tentei regressar à família, tentei regressar ao grande clube que foi o Braga, que é um clube que me diz muito. Ao fim e ao cabo queira regressar a uma zona de conforto, queria sentir-me bem comigo próprio, embora perdendo tudo aquilo que perdi.

Nessa altura tinha hipóteses de ir para onde?
Tinha várias propostas. Lembro-me que tinha a possibilidade de ir para a Ucrânia, uma boa proposta. Depois tinha outros clubes de Espanha, mas estava na minha cabeça que queria voltar.

Quem era o treinador?
Era o Jesualdo. Também foi ele que me “convenceu” e também foi por ele.

Já tinha treinado com ele?
Já.

Quando?
Quando era mais novo, ele tinha estado aqui no Sp. Braga quando eu estava nos juniores. E o Vital que estava cá, também me convenceu a vir. Ou seja, as pessoas de quem eu gostava estavam aqui, a minha família estava aqui, achei que era bom voltar às raízes.

Leonor, filha de Eduardo e Jéssica Augusto, com três anos

Leonor, filha de Eduardo e Jéssica Augusto, com três anos

D.R.

Fica uma época. Como é que corre?
A nível de equipa não correu muito bem e a nível emocional foi o ano que mais me custou.

Porquê?
Porque regressar ao sítio onde tinha sido tão feliz e as coisas não correrem bem... Foi muito ingrato por parte de algumas pessoas que sabiam daquilo que tinha abdicado para vir para aqui. Sabiam e sabem a maneira como eu sempre estive, independentemente de as coisas correrem bem ou mal e ter sido julgado em certas coisas como fui. Em algumas pessoas as reações surpreenderam-me, noutras não. Foi um ano muito duro para mim.

Mas está a referir-se em concreto a quê?
Sabemos como é que são as massas adeptas, como é o mundo do futebol quando as coisas não correm tão bem. As pessoas esquecem muitas vezes aquilo que somos e muitas sabiam aquilo que eu tinha perdido. Custou-me bastante algumas reações.

Não foi acarinhado como estava à espera?
Não, mas isso são coisas que não vale a pena falar. Ficam guardadas para nós. Não gosto muito de falar sobre elas porque são coisas que transportam reações que nesta altura e depois de tanto tempo não vale a pena ter.

É por isso que vai embora novamente?
Sim. Na altura o presidente falou comigo. Era difícil eu continuar, até porque não íamos à Liga Europa no ano seguinte e pôs-me à vontade, se quisesse ir... E senti que era altura de ir. Mal ele me abordou disse-lhe que íamos tentar encontrar a melhor solução para todos e pouco tempo depois apareceu o Dínamo de Zagreb e eu fui.

Eduardo foi para o Chelsea, em 2016

Eduardo foi para o Chelsea, em 2016

Darren Walsh

Foi sozinho para a Croácia?
Sim.

Sempre sozinho...
Sempre sozinho.

Primeiro impacto quando chegou, era o que estava à espera?
Era. O clube é um clube muito particular. Tem umas ambições enormes, quer sempre entrar na Liga dos Campeões, o que me seduziu porque era a única competição que não tinha feito. Era um clube projetado para os jovens, para a formação. Eles apostam em meia dúzia de jogadores experientes para suportar a formação. Foi isso que me foi pedido pelo presidente, esse trabalho de ajudar na formação, trazer experiência à equipa para entrarmos na Liga dos Campeões, que é o grande objetivo. Felizmente em três anos, fomos duas vezes à Liga dos Campeões.

Que outros portugueses estiveram lá consigo?
O Ivo Pinto, Gonçalo Santos, Paulo Machado e o Wilson Eduardo. Foram duas épocas e meia brilhantes, que me correram bastante bem.

E do país, gostou?
Gostei bastante. Zagreb é uma cidade relativamente pequena, um centro bonito, pequenino. Não é como Splitz, não tem aquelas praias fabulosas, mas é uma cidade bastante agradável e tem um clube muito bem estruturado.

Pelo meio nasce a sua filha.
Sim, a Leonor nasce em 2015.

Era um sonho ser pai?
Era.

Assistiu ao parto?
Assisti. Eu tinha chegado essa noite de estágio da Eslovénia, com o Dínamo. Lembro-me de me terem ligado a dizer que ela ia nascer e às cinco da manhã estava a apanhar o avião. Cheguei e a minha filha nasceu ao final da tarde. Esperou por mim. Depois custou-me imenso ter de deixá-la para voltar a Zagreb.

Nunca foi ponderado elas irem consigo?
Foi. Mas não aconteceu.

Eduardo carrega nos ombros Éder, o autor do golo que deu o título europeu a Portugal, em 2016

Eduardo carrega nos ombros Éder, o autor do golo que deu o título europeu a Portugal, em 2016

Nick Potts - EMPICS

Como surge entretanto o Chelsea?
Foi um bocado emocional. Eu já era capitão, coisa difícil porque um estrangeiro ser capitão no Dínamo de Zagreb era complicado. Até a nivel de imprensa foi duro, era difícil para eles aceitar um estrangeiro como capitão porque são muito nacionalistas. O presidente tinha um respeito enorme por mim e fez tudo, tudo para que eu ficasse. Ofereceu-me um melhor contrato do que aquilo que fui receber no Chelsea. Eu tinha de jogar todos os jogos da pré-eliminatória da Liga dos Campeões antes de poder viajar para o Chelsea e fomos jogar a Salzburgo, tínhamos empatado 1-1 em casa. Levei as minhas malas para viajar no dia seguinte. Ganhámos, eu fiz uma exibição fantástica e no fim ele saltou da bancada, entrou no relvado, acompanhou-me ao túnel, abraçou-se a mim, começou a chorar e a pedir-me para eu ficar. Disse-lhe que não, que não podia porque já tinha dado a minha palavra. Ele ainda hoje tem um carinho e respeito por mim.

Por que razão foi para o Chelsea?
É difícil dizer que não a um clube como o Chelsea. Foi para lá o Conte, com um treinador de guarda-redes que eu tinha no Génova. Foi ele que me ligou, disse que precisava de uma pessoa como eu a trabalhar no grupo. Depois o treinador abordou-me e eu sempre ambicionei jogar num clube assim. Poder estar num clube daquela dimensão, no campeonato inglês. Sabia que não ia para jogar, mas pensei que com o meu trabalho podia conseguir alguma coisa. De certa forma na minha cabeça dizia: "Vai, vais trabalhar como sempre e um dia vais conseguir alguma coisa ali".

Conseguiu?
Não tanto como eu esperava, mas fiz por isso.

Não chegou a estrear-se na equipa principal.
Não. Treinava, trabalhava e de vez em quando fazia alguns jogos dos sub-23 para manter a competição. São as decisões que temos de respeitar. Ponto final.

Também foi sozinho para Inglaterra. Como foi a adaptação?
A adaptação a Inglaterra é mais fácil. Um clube como o Chelsea com a estrutura que tem... não é difícil. A cidade também é bastante boa. Óbvio que tem as suas condicionantes, o tempo, às quatro da tarde já é escuro, está sempre a chover, é um bocado deprimente no inverno. Mas tem um campeonato e umas condições de treino fabulosos. Uma realidade diferente do que vivemos em Portugal.

Eduardo com a mãe, a quem ofereceu uma casa em Braga

Eduardo com a mãe, a quem ofereceu uma casa em Braga

D.R.

Como é que vai matando as saudades da filha?
Faço tudo e mais alguma coisa.

Vem cá quando pode?
Até quando não posso, às vezes. Cheguei a vir de manhã e a ir à noite para estar um bocadinho com ela.

É verdade que tem €100 mil a receber do Istambul?
É mentira. Graças a Deus, pelos clubes por onde passei ninguém me deve um tostão.

Como nasce o gosto pelas motos Vespa?
De uma parolice [risos]. Eu sempre disse que nunca ia ter motos na minha vida. Mas não sei porquê um dia vi uma Vespa e comecei a pensar: “Aquilo até deve ser porreiro, nem anda muito rápido”. Comprei a primeira há cinco ou seis anos. Depois de comprar a primeira e dar umas voltas naquilo... Já tenho umas peças bonitas [risos].

Tornou-se numa espeécie de colecionador?
Tenhos umas quantas peças bonitas, clássicas, antigas. Tenho paixão por coisas antigas, até porque agora ando um pouco pela área do imobiliário e até aí tenho paixão por coisas antigas para recuperá-las.

Eduardo, em primeiro plano, festeja o título europeu

Eduardo, em primeiro plano, festeja o título europeu

Carlos Rodrigues

Em que clube ganhou mais dinheiro?
Quando a minha vida realmente mudou foi quando fui para o Génova. Assinei um contrato de quatro anos e a partir daí quando fui para os outros clubes foi sempre em volta daquele valor que ganhei dinheiro.

Investiu o dinheiro só em imobiliário, nunca se meteu noutros negócios?
Negócios não quero. Para que é que vou abrir um negócio, um restaurante, café, seja o que for se não percebo nada disso? A maior parte do meu capital está toda em imobiliário. Abri uma empresa de imobiliário.

É aí que se vê no futuro, a trabalhar na área do imobiliário?
Gosto disto, desta experiência, isto surgiu quando pensava sobre o futuro depois do futebol, em não gastar dinheiro à toa, ter coisas para, se precisar, no futuro ter onde recorrer. Mas gostava de continuar ligado ao futebol, à àrea dos guarda-redes.

Eduardo com uma estatueta que o representa na seleção

Eduardo com uma estatueta que o representa na seleção

Rui Duarte Silva

Além da experiência já tirou mais algum curso específico para treinar guarda-redes?
Tenho o curso de treinador de nivel I e guardo os meus apontamentos. Aprendi muito com os treinadores com quem estive e fui tirando os meus apontamentos para evoluir e adaptar-me a diferentes métodos. Penso que estou preparado. Gosto de aprender, de ouvir e no futuro gostava de trabalhar a nível profissional ligado a alguém, numa academia, com jovens. Há muita falta de conhecimento daquilo que é o guarda-redes e penso que é bom ter antigos guarda-redes, que foram referências, a ensinar.

A propósito, quem foram as suas referências?
Na altura o Preud’Homme era o meu ídolo. Depois quando venho para o Sp. Braga com 16 anos, eu trabalhava com a equipa principal e trabalhava com o Quim, que estava na seleção e que também foi uma referência.

Qual o melhor guarda redes do mundo até agora?
Buffon.

Porquê?
Por tudo. Pelo guarda-redes que foi, pela simplicidade que mostra no jogo que faz. Não é um guarda-redes de grandes aparatos, é simples, acho que é uma referência de estar na baliza. Tenta passar discreto em tudo aquilo que faz durante o jogo.

Alguma vez tentou imitar um guarda-redes?
Quando estava no Mirandela o Preud’Homme era a referência da altura e eu gostava de ter o equipamento dele, até imitava a maneira como ele andava e tudo [risos].

Eduardo foi emprestado pelo Chelsea, ao Vitesse, esta época 2018/19

Eduardo foi emprestado pelo Chelsea, ao Vitesse, esta época 2018/19

NurPhoto

A posição de guarda-redes é mesmo a mais ingrata?
É. Mas é a mais apaixonante porque é a mais desafiante de todas. É uma posição ingrata porque as pessoas quando olham para um lance e dizem que é um frango, muitas vezes não sabem avaliar o que é que aconteceu ali. É óbvio que são erros e nós reconhecemo-los. Mas a maior parte das pessoas não sabe. Estar numa baliza é diferente.

Porquê?
As emoções que passam, as reações que temos de ter e que têm que ser tão rápidas, que é difícil as pessoas entenderem. Muita gente não sabe aquilo que suportamos ali, sozinhos. O facto de estarmos ali sozinhos e o jogo estar a decorrer à nossa frente. Quando estamos muito em jogo, as coisas não passam pela nossa cabeça. Agora quando estamos ali sozinhos, durante minutos, minutos e minutos, as emoções que passam por nós, as reações, ansiedade, tudo isso...Temos de controlar aquilo tudo para num segundo, às vezes nem tanto, decidirmos o que vamos fazer. Uma bola que vem uma uma velocidade e comportamento... Não é fácil.

Qual foi o “frango” que mais lhe custou?
O do jogo em Braga com o PSG. Tinha feito um jogo fantástico lá, empatámos a zero, e perdemos 1-0 em casa. Quis antecipar um cruzamento, a bola passou-me por cima e...

Eduardo passou o natal de 2018 na companhia de Ivo Pinto, à direita, e da muher deste, em Inglaterra

Eduardo passou o natal de 2018 na companhia de Ivo Pinto, à direita, e da muher deste, em Inglaterra

D.R.

A saída dos postes é o mais difícil na ação em jogo para um guarda-redes?
Não é que seja mais difícil. Tem muito a ver com o comportamento da bola, o timing, a leitura, a coragem, o facto de queremos fazer coisas que às vezes não nos competem, mas queremos ajudar. Há guarda-redes que se retraem mais, que não arriscam, é mais fácil.

O mais importante para um guarda-redes é a força mental, o lado psicológico?
Muitas vezes sim. É o mais difícil de trabalhar.

Chegou a ter psicólogo quando estava no Benfica. Desistiu porquê?
Um pouco por feitio. Quando fiz esse trabalho foi numa altura difícil, em que não estava a jogar, depois deixei o Benfica, fui para fora e desliguei-me disso.

Tem superstições?
Algumas. Sou muito agarrado à fé. Antes dos jogos gosto de ter as minhas coisas.

Que passam por?
São coisas muito pessoais.

Qual foi a sua melhor defesa?
Já tive algumas. Talvez no jogo do Dínamo com o Red Bull Salzburgo, em casa. Houve um cruzamento, o jogador cabeçeou mesmo no meio da pequena área, o jogo estava ser difícil. Foi uma boa defesa, até porque depois acabámos por ganhar lá e fomos à Liga dos Campeões.

Qual o avançado que mais temeu?
Felizmente joguei contra grandes jogadores. Não joguei contra o Ronaldo, mas joguei contra o Messi, o Ronaldinho Gaúcho, o Zlatan, o Drogba... É difícil escolher um.

Edurdo na sua casa de Braga

Edurdo na sua casa de Braga

Rui Duarte Silva

Além das Vespas tem mais algum hobby ou alguma coisa que goste de colecionar?
Não propriamente. Tive um carro Mustang de 1968, tive um Mini, mas depois ganhei juízo e vendi-os. As Vespas foi a única coisa com que fiquei.

Diga-me uma coisa que lhe dê muito prazer.
Estar com os amigos. Receber os amigos em casa. Gosto de cozinhar. Sempre cozinhei para mim.

Tem ideia de quantas luvas já teve?
Milhares.

O mesmo par de luvas dá para quanto tempo?
Depende. Pode durar um dia, como três semanas, um mês. As luvas são feitas à medida das nossas mãos.

Há alguma coisa especial que faça questão de ter nas suas luvas?
Sim, o corte interior da luva. Gosto da luva justa, gosto que o corte seja ajustado nos dedos. Há outros colegas que gostam largo. Eu gosto de usar sempre o mesmo modelo, não gosto de mudar, há outros que vão mudando porque as marcas fazem modelos diferentes, mas eu não gosto. Sentirmo-nos confortáveis com as luvas é uma segurança enorme.

Teve lesões nas mãos?
Os dedos já saltaram todos. Quando as bolas batem em determinadas zonas, os ossos saltam e metemo-los no sítio. Uma vez, num jogo, o médico não conseguiu pôr o osso no sitio e joguei com ele assim. Há um ligamento que já não existe num dedo. Às vezes é preciso fazer uma luva especial porque juntamos dois dedos. Joguei muita vez assim.

Nos penáltis há algum segredo?
Não. Há estudo do adversário, há formas de ver como é que eles se posicionam, há percentagem/probabilidade de quantas vezes batem para a esquerda e para a direita. Em jogos de pressão, em que termina a zero, para que lado é que costuma bater. A reunião de guarda-redes é feita para projetar esse tipo de lances, livres, bolas paradas. etc.

Eduardo, em pé à direita, com a sua nova equipa do Vitesse

Eduardo, em pé à direita, com a sua nova equipa do Vitesse

VI-Images

Tem alguma alcunha?
"Bicho". Pela maneira como eu trabalho. Eu tenho uma característica muito particular no trabalho. Chateio-me com toda a gente. Não posso ver brincadeiras no trabalho, sou 100% profissional todos os dias e muitos dos meus amigos riem-se com isso, porque gostam de brincar e estar à vontade.

"Bicho" as pessoas associam ao Jorge Costa.
Sim. Eu também tenho esse temperamento quando estou a treinar. Às vezes arrependo-me e tenho de pedir desculpa porque passo os limites.. Nas peladas não gosto de perder.

O Rui Patrício é mais descontraído do que o Eduardo? É que ele tem um ar muito sério.
[risos] Mas é mais calmo do que eu.

Quando Portugal perde com a Espanha no Mundial 2010, uma das imagens mais marcantes é o Eduardo a chorar compulsivamente.
Era o meu primeiro Mundial e ter perdido daquela forma, 1-0, com um golo em fora de jogo... Marcou-me bastante porque senti que estava num grande momento e que tínhamos equipa para irmos muito mais além. Perdemos com o campeão, mas foi duro.

Quando tocou o hino também chorou.
[risos] Foi aí e na Bósnia. Um dos jogos que mais prazer me deu jogar, no play-off de apuramento. O percurso do estádio para o hotel era curto, mas estava completamente cheio de pessoas, lembro-me de ver a polícia a bater nas pessoas para abrir caminho. Chegámos ao estádio, que devia ter lugar para 3000/4000 pessoas e estavam lá umas 5000 ou 6000. Quando chegámos ao estádio quase nem relva tinha, más condições...Vou ver o campo e quando entro aquilo estava a abarrotar de gente, Entrei sozinho e toda a gente a assobiar. Eu pensei: “Agora não posso dar parte fraca”. E acelerei o passo para ir para o meio do campo [risos]. Foi daqueles jogos que depois de entrar em campo, a adrenalina... Era impossível ter perdido aquele jogo. Ganhámos 1-0 com golo do Raúl Meireles. Foi a emoção do jogo, a vontade de ganhar que me levou às lágrimas.

Rui Duarte Silva

É difícil participar em Europeus e Mundiais sabendo que à partida não se vai jogar?
Lógico que sim. Mas só fazer parte do grupo é um privilégio. Depois é deixar-se ir com a onda. Acima de tudo era o prazer de estar ali, de ajudar e de estar disponível em qualquer altura. Foi isso que sempre fiz.

É um sabor diferente ser campeão europeu sem ter jogado?
Se calhar para as pessoas é diferente, mas não me sinto menos campeão. Eu estava disponível, fiz tudo para estar disponível e ajudei os meus colegas naquilo que pude. Naquilo que me foi permitido fazer, não podia ter feito mais. Dei o que podia.

É dos que faz mais partidas aos outros?
Não. Na altura tínhamos uma brincadeira, que começou no Mundial-2010. Víamos quem era o pessoal novo e na primeira noite de estágio entrávamos no quarto com almofadas e saltávamos para cima deles. Dávamos umas palmadas, era engraçado.

Nos estágios da seleção, depois do jantar vai cada um para seu quarto?
Não. Normalmente temos uma sala reservada para os jogadores, onde jogamos cartas, ficamos a conversar, a ver jogos.

Quais são os jogadores de quem se tornou mais amigo?
Tenho alguns. O Gonçalo Santos, o Ivo Pinto, Paulo Machado, Filipe Gonçalves, Rui Patrício, Adrien, João Moutinho, Cedric, Fonte, Bruno Alves, são pessoas de quem gosto muito, é difícil estar a dizer mais.

Já estava à espera de não ser convocado para o Mundial da Rússia?
Estava. Mas custou-me.

O que mais tem pena de não ter conquistado?
Um campeonato nacional, em Portugal. Quando estive no Sp. Braga, merecíamos.

Rui Duarte Silva

Voltou à competiçao no Vitesse. Que tal?
Está a correr bem. Depois de dois anos, sinto-me bem a voltar a jogar. Pouco a pouco vou recuperando a confiança. Foi longo o período sem jogar, apesar de treinar sempre o m��ximo quando se compete é sempre diferente. As pessoas depositaram grande esperança e confiança em mim e quero retribuir com enorme entrega, como sempre fiz, para ajudar o clube nos seus objetivos.

Qual o seu maior sonho?
A nível desportivo tive mais do que sonhei. Sei como o consegui e orgulho-me disso, da maneira como conquistei as coisas, mas neste momento o meu maior sonho é ver a minha filha Leonor feliz.

Ao longo dos anos ajudou muito os seus irmãos e mãe?
Sim. Realizei o sonho da minha mãe que foi dar-lhe uma casa, aqui em Braga. Quis trazê-la para a minha beira, para estar perto de mim porque em breve é para aqui que venho viver e quero-a perto de mim, com o seu espaço, até para a poder auxiliar no que for preciso.

Não costuma estar com os seus irmãos?
Muito pouco.

Passa o período de festas, o Natal, por exemplo, sozinho também?
Com a minha mãe. Este Natal fiquei em Inglaterra porque o campeonato lá não para. Fiquei com o Ivo e a esposa. Se calhar eles podiam ter vindo cá, mas preferiram ficar comigo porque perceberam que eu ficava sozinho. Sei que abdicaram de muito para ficarem comigo, por isso digo que é das amizades mais… (emociona-se) Como eu jogava, preferi que a minha mãe fosse passar com os meus irmãos, para não ficar sozinha.

Sente que ao longo da vida sacrificou-se muito pelos outros?
Muito.

Mais do que os outros por si?
Muito mais.

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