expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 12 ago 17:00

O dia (e o cheiro) em que a Polícia chegou ao homem que fazia milhões com amêijoa do Tejo

O dia (e o cheiro) em que a Polícia chegou ao homem que fazia milhões com amêijoa do Tejo

A Polícia chegou pela manhã sem avisar. Bateu à porta e não abriram. Insistiu e teve de arrombar o portão. Contava apanhar um dos maiores traficantes de amêijoa japonesa da margem sul. E apanhou. O negócio da amêijoa vale milhares de euros. Há quem diga que se aproximam dos do tráfico de droga. A diferença? O esquema da amêijoa é mais fácil e menos arriscado

O portão é aberto e o cheiro espalha-se: é peixe podre, é lodo que a maré baixa deixou para trás no areal, é lixo há dias esquecido de ser despejado. Entranha-se na pele, agarra-se aos cabelos, há desconforto no estômago, o abdómen contrai. Algo sobe pelo esófago. O peito arde e os lábios fecham-se instintivamente. Num impulso, a mão tapa a boca como se impedisse algo de sair. Há náusea, vontade de vomitar. O cheiro continua mas aos poucos habituamo-nos. Mentira. É tão forte que nunca passa. Há segundos que trazem novas nuances daquele fedor.

Há mais de um mês que as amêijoas japonesas estão no armazém num pequeno frigorífico. Estão estragadas. Num armazém no porto de Sesimbra, em Setúbal, o cheiro é o primeiro sinal de que algo está mal. Há uma dúzia de tanques. Só três têm bivalves. Apenas um com amêijoas japonesas, de casca partida – tudo indica que foram apanhadas por arrastão. No meio um balde cheio de espuma amarelada, suja. É também dali que sai o cheiro. É lixo da amêijoa, o que sai ao passar por água. Há apenas um filtro à vista, como o de uma piscina, e não há muito mais limpeza do que essa.

É amêijoa japonesa com origem no Sado. Supostamente é amêijoa japonesa do Sado. Provavelmente é de outro lado qualquer, porque no Sado é quase impossível que exista tanta como a que circula no mercado. As autoridades desconfiam que a verdadeira origem seja o Tejo, o mesmo Tejo onde muitas vezes está proibida a apanha de bivalves mas de onde todos os dias são retiradas toneladas ilegalmente.

As buscas no armazém continuam, é a sede de uma empresa depuradora e de exportação de bivalves. É também local de venda ao público. Ali, a Polícia Marítima apreende pouco mais de cem quilos de amêijoa japonesa numa ação conjunta com Corpo Nacional de Polícia de Espanha - desde o final do ano passado estão encarregados da “Operação Clamp”/“Operação Amêijoa”. Há uns meses, na Galiza, apenas num dia descobriram o rasto de 50 milhões de euros em amêijoas. Agora, em Sesimbra, continua a investigação. Chegaram ao topo da cadeia: a um dos chefes, negociadores, donos.

tiago miranda

O negócio do tráfico de amêijoa funciona mais ou menos assim: o produto é tirado do Tejo pelos apanhadores, que estão na base da cadeia; é vendido depois aos intermediários, à espera nas margens do rio – não há controlo sanitário; chega aos líderes, que através de empresas-fachada fazem negócio com outras empresas e vendem o produto com uma origem diferente da real. O lucro pode chegar aos muitos milhares de euros. Boa parte das amêijoas é depois exportada para Espanha, onde é colocado um selo de origem local (quase sempre da Galiza ou Cantábria) e as embalagens são novamente vendidas para toda a Europa. Para Portugal também? Talvez sim. Talvez não. Não há provas.

Milhares em poucos dias

Entre os papéis, guias de remessas e faturas, há um número que salta à vista: 50 mil euros faturados em três dias, vindos de Espanha. Mas há mais. Mais 24 mil de Itália, mais 22 mil de França. E há mais e mais. O dinheiro envolvido é muito mais que o esperado. A investigação da Polícia Marítima levou-a até uma casa não muito longe do porto de Sesimbra. A vivenda é vistosa, luxuosa, isolada. Os muros altos não deixam perceber o que se pode passar. O carro não é menos vistoso, luxuoso. Tudo custou bem caro.

Aquilo, suspeita-se, foi tudo comprado com dinheiro da amêijoa ou não fosse morada de um dos maiores negociadores da margem sul. Tem meia dúzia de carrinhas ao seu serviço, que saem diariamente para o estrangeiro carregadas de amêijoa japonesa do Tejo.

Uma vez mais, o desconforto no estômago, algo a subir pelo esófago, a boca tapada com a mão. Ao abrir o portão vem logo o cheiro. Outra vez o cheiro. Além do armazém no porto, o principal suspeito tem mais dois tanques em casa, estão vazios. Nos cantos junto às paredes há pequenas lascas de cascas e conchas inteiras. Os papéis provam os negócios, mas não há produto vivo. “Não há nada, porque talvez tenha havido um carregamento, mas há indícios de tudo.” No dia anterior terá partido uma carrinha para Espanha.

Ao contrário da maioria dos traficantes, neste caso a empresa não é fantasma, as notas de encomenda, as guias de remessa e as encomendas são verdadeiras. A mentira está na localização da empresa, que está legalizada como um viveiro no estuário do Sado e de onde saem supostamente toneladas de amêijoa. Mas dali qualquer um – mesmo quem não percebe minimamente do assunto – vê que não sai nada. Não há meios técnicos ou infraestruturas, o espaço está abandonado e para lá chegar é necessário conduzir por mais de meia hora num caminho incerto, por mato e terra batida. O viveiro é uma fachada para a verdadeira localização dos negócios: a vivenda e o porto de Sesimbra.

tiago miranda

Horas antes, a entrada na casa foi forçada. Tocaram uma vez. Nada. Tocaram a segunda. Nada. Terceira vez e o homem surge à porta. Era cedo e estava a preparar-se para o dia. Pediu uns minutos. Bateram ao portão e gritaram. Nada. Bateram ao portão e voltaram a gritar. Nada. Portão a baixo. O suspeito ficou deitado de peito no chão.

Este é um dos suspeitos da investigação, estão a decorrer mais seis inquéritos e processos encaminhados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), GNR, Polícia Judiciária (PJ), Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e Autoridade Tributária. Podem estar em causa os crimes de danos contra a natureza e falsificação ou contrafação de documento, com pena até oito anos de prisão.

Quando o Sado é o Tejo

No Tejo, os apanhadores estão quase sempre em situação ilegal. Arriscam a vida, a saúde e até a liberdade. Os donos das empresas são quase sempre os mesmos e acabam por ter apanhadores que lhes vendem em exclusivo e, quando isso não acontece, há problemas. Hoje, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a apanha no Tejo é permitida. Mas não é sempre. Além da apanha ilegal, a questão da verdadeira origem é uma dos problemas base de toda a história.

O caso mais gritante é amêijoa rotulada como sendo do Sado. Embora exista, a quantidade é quase nula. “No Sado, a população de amêijoa japonesa é praticamente inexistente. É mesma coisa que andar a vender elefantes e dizer que são de Monsanto, toda a gente sabe que não há elefantes em Monsanto”, explica Fernando Ricardo, um dos investigadores da Universidade de Aveiro que tem estado a trabalhar num projeto sobre a identificação da origem dos bivalves.

tiago miranda

Ao longo da vida, as conchas incorporam os elementos presentes na água, que são únicos de cada ambiente. “Chamamos-lhe uma espécie de código de barras natural”, diz Ricardo Calado, também investigador no departamento de biologia da Universidade de Aveiro. E através disso – e não só, mas já lá vamos - desenvolveram testes para confirmar se a afirmação do local de origem que por lei acompanha o produto é ou não real.

No caso dos bivalves apanhados no Tejo, as cascas apresentam um grande percentagem de elementos químicos, como o manganês, o estrôncio, o bário e o magnésio. É isso que as distingue, uma vez que o Tejo é uma região onde, ao longo dos anos, houve uma série de atividades humanas que deixaram marcas no ambiente e foram aspiradas pelos bivalves.

“Pod��amos pegar em amêijoas do Tejo, pô-las na Ria de Aveiro durante um ano e ainda assim percebíamos que não são exatamente iguais àquelas que sempre estiveram na Ria de Aveiro. A história para trás era do Tejo, não da Ria de Aveiro”, garante Fernando Ricardo.

Para reforçar os resultados, há também a possibilidade de analisar o músculo adutor – responsável por fechar as conchas, a bolinha que fica presa na concha quando se tira o interior da amêijoa -, pois funciona também como uma espécie de assinatura bioquímica devido aos sinais do ambiente onde esteve inserido. “Se estiver em águas mais quentes, frias, doces ou salgadas, essa variação reflete-se no perfil.” Ou seja, conhecendo as características de cada ecossistema, é possível determinar de onde vieram as amêijoa porque há um rasto, uma história gravada na casca e nos músculos.

“O que está aqui em causa tem essencialmente que ver com a apanha ilegal no rio Tejo e o facto desta ser depois vendida como oriunda de um outro ecossistema. A partir do momento em que se refere que a amêijoa é do Sado, da Ria de Aveiro, da Ria Formosa ou do Mondego, é muito fácil recolhermos organismos desse mesmo local e ver se coincidem”, explica Ricardo Calado, que tem estado a desenvolver o trabalho em parceria com Fernando Ricardo e Rosário Domingues, professora do departamento de química da mesma universidade.

A margem de certeza nestas análises é praticamente 100%, um número que a ciência não gosta de usar porque há sempre margem para erros.

tiago miranda

Normalmente já existe um pequeno risco associado ao consumo de bivalves. Quando estes saem do mercado ilegal, o perigo é maior, sobretudo se não é claro qual a real origem do produto.“No caso da amêijoa do Tejo – associado a níveis de contaminação históricos poluentes -, não são apenas microrganismos e toxinas, são também os metais. Há determinadas regiões do estuário do Tejo em que durante anos existiram indústrias pesadas e deixaram um legado de contaminação ambiental. Ao serem apanhadas numa zona não classificada, entram num circuito paralelo e que muita vezes foge ao circuito da depuração. O risco não é só de consumir organismos contaminados com metais como também se fica mais exposto à contaminação microbiológica e, eventualmente, por biotoxinas”, explicam os investigadores. Além dos mais comuns problemas como diarreias e complicações intestinais, pode acontecer desenvolver doenças mais graves como, por exemplo, paralisias.

Cinquenta, cem, duzentos mil euros. Rapidamente, uma encomenda chega às centenas de milhares de euros. Os valores do tráfico de amêijoa andam muito próximos dos lucros de quem trafica droga – há até quem tenha trocado de área de negócio. Muitas vezes aproveitam-se os mesmos meios, as ligações e os contactos.

“A amêijoa ainda é melhor que o tráfico de droga: é mais fácil, menos perigoso e rende o mesmo”, diz-se no meio. O esquema está montado, funciona, é discreto. E acontece quase todos os dias.

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