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A designer portuguesa da Seat que faz dos carros uma sala de estar

A designer portuguesa da Seat que faz dos carros uma sala de estar

Telma Fernandes é designer da marca de automóveis espanhola desde 2013. A imprensa do país vizinho diz que a portuense está a revolucionar o setor

A febre surgiu em setembro de 2015. A pré-trilionária Apple tinha acabado de lançar o novo iPhone e o mundo bateu palmas. O brinquedo nem trazia nada de novo mas chamou a atenção pela cor: rosa dourado. Estava criada a tendência.

Quando dois anos depois a Seat lançou o modelo Ibiza no mesmo tom, os críticos não tardaram a aparecer. Mal sabiam que a marca de automóveis espanhola não estava a apanhar a boleia da Apple. O Ibiza em rosa dourado tinha sido desenhado um ano antes do smartphone sair. Na equipa que o criou havia uma designer portuguesa.

Foi há cinco anos que Telma Fernandes trocou o Porto por Barcelona. “A única cidade onde sempre quis viver” além da Invicta. O convite da Seat era “irrecusável”, conta a designer de 33 anos em entrevista telefónica ao Dinheiro Vivo. E não surgiu por acaso. Ao mesmo tempo que ilustrava livros escolares na Ambar, Telma trabalhava como freelancer para uma empresa têxtil que fornecia os assentos dos carros da marca.

Aterrou em Barcelona a um domingo e no dia seguinte já estava integrada na equipa de color and trim da Seat. Que é como quem diz: passou a ser responsável por desenhar “tudo aquilo que vemos e tocamos num carro”, seja a forma do volante, o material dos painéis ou a palete de cores que o automóvel vai ter. Como o rosa dourado.

“Queríamos fazer uma cor fora do normal mas que pudesse ser tendência. Tal como a Apple, trabalhamos com plataformas que se dedicam a estudar o mercado e as modas, que nos vão fazendo relatórios, e vamos a muitas feiras de design. O que acontece é que um carro só chega ao mercado três anos depois de começar a ser desenhado. E um smartphone não…”, explica Telma.

No final do mês passado, a designer portuguesa saltou para a ribalta no país vizinho, após uma reportagem da revista de domingo do El País. A peça tinha como propósito antecipar o lançamento do novo Ateca, em novembro. Mas as quatro páginas acabaram por ser dedicadas à “portuguesa que está a revolucionar o design do interior dos automóveis”. Um título que Telma Fernandes, que prefere escapar aos holofotes, aceita com embaraço.

“Qualquer pessoa que trabalhe no mundo do design e que cria um produto que só vai sair no mercado dentro de três ou cinco anos pode ser considerado revolucionário. Acho que tenho a sorte de trabalhar num setor que está em mudança. Hoje as pessoas vêm os carros como algo útil e não tanto com desejo, o que significa que o público é diferente. O meu trabalho é precisamente pensar no que as pessoas querem ver e ter, e acho que nesse sentido sou apanhada no meio da revolução”.

Nas estradas de todo o mundo não faltam carros com a assinatura de Telma. O modelo Ateca foi “o primeiro bebé” e aquele de que mais se orgulha. Até porque quando foi lançado não faltaram aves agoirentas. “A concorrência na altura era o Nissan Qashqai, que era um carro económico e de qualidade aceitável. Muita gente dizia que o Ateca não fazia sentido, porque o mercado estava saturado, e não iria vender. A verdade é que as vendas são ótimas e as críticas ao design também. Não é só o espaço da bagageira que merece elogios”, brinca Telma.

Desde então, seguiram-se desenhos para os modelos Ibiza, Leon, Mii ou Arona. Nos próximos três anos trabalho não vai faltar na fábrica dos arredores de Barcelona: a Seat vai lançar sete novos carros.

Telma não esconde o entusiasmo com a estrada que tem pela frente, apesar de admitir que o mundo automóvel está longe de ser uma das suas paixões.

“Não é preciso gostar muito de carros para ter este trabalho, até é bom não gostar demasiado. Até brincamos com isso porque aqui os designers de exteriores são todos homens e têm as redes sociais cheias de fotos de jantes e motores e na nossa equipa por vezes nem sabemos quais são os modelos das outras marcas. Estamos mais envolvidos na moda e nas tendências. O carro acaba por nos passar ao lado, o que é bom. Caso contrário desenharíamos só para pessoas que gostam de carros e assim desenhamos para as pessoas comuns, que querem o carro como uma sala de estar”.

O que não lhe passa ao lado é o facto de fazer parte de um dos setores mais poluentes do mundo. Ou “a equipa dos maus”, como lhe chama. É por aí, segundo Telma, que passa a verdadeira revolução que quer fazer na Seat. “Às vezes sinto esse conflito, mas tenho como missão ser o mais responsável possível na escolha dos materiais e dos fornecedores. Já é possível ser sustentável. É a minha pequena contribuição para o planeta na construção de um automóvel”, sublinha.

As saudades de Portugal, guarda-as para a família e amigos, e pouco mais. “Esqueço-me logo das saudades quando vou ao Porto no inverno”, afirma. Em Espanha, Telma Fernandes encontrou um país “menos sério, com mais à vontade”. Da Catalunha só dispensa a língua, que percebe mas não fala. “Ainda vou a tempo de aprender”.

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