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Turismo em Monchique: entre a esperança e o desespero

Turismo em Monchique: entre a esperança e o desespero

O setor do turismo em Monchique divide as suas expetativas entre a apreensão pela paisagem negra e a esperança na regeneração rápida da floresta.

O setor do turismo em Monchique divide as suas expetativas em relação ao futuro entre a apreensão de uma paisagem negra e a esperança na regeneração da floresta, numa “serra milagrosa”, onde tudo se põe verde num instante.

Na Albergaria do Lageado, nas Caldas de Monchique, o incêndio chegou numa altura em que está um projeto na Câmara Municipal para ampliação do espaço com a perspetiva de passar a estar aberta todo o ano, conta à agência Lusa o responsável pela gestão da antiga pensão construída em 1880, José Rosa.

As chamas “lamberam as paredes” da albergaria, mas o fogo acabou por não afetar o espaço, o que permite estar neste momento aberto e de lotação esgotada.

“Surpreende-me estarmos cheios. Esperava ter apenas três ou quatro pessoas – os fiéis que vêm todos os anos. Mas não, estamos esgotados e, neste momento, sinceramente, não contava com isso”, confessa o responsável. No entanto, José Rosa admite que o preocupa “muito o futuro próximo”.

“Vim de Lisboa e vim intencionalmente por Grândola, para passar pela serra e, de facto, o cenário é desolador. Está tudo queimado”, sublinha o responsável do espaço, para logo a seguir deixar um discurso de esperança em torno de um setor que tinha como alicerce o turismo de natureza.

Monchique “é uma terra de água. Há água por todo o lado e a natureza revive de imediato. Já em 2003, depois do inverno e da primavera seguinte ao incêndio estava tudo a rebentar. Dizem que esta é uma serra milagrosa e começo a acreditar que é”, vinca.

Benedita Cocheno não consegue ter um discurso tão positivo em relação ao futuro. Abriu uma unidade de alojamento local em 2016, em Saramagal, e quando estava a ultimar o projeto e a preparar-se para o lançar esteve a braços com um incêndio que passou ao lado da casa, mas ainda a alguma distância.

Agora, não teve a mesma sorte, diz. “Ardeu tudo à minha volta. A sorte foi ter pessoas que cá moram e que vieram e defenderam a nossa propriedade. Estou grata a eles até ao fim da minha vida”, diz, de voz embargada.

A casa e o seu jardim ficaram intactos, mas a paisagem, salienta, “é lunar”. Entretanto, surgiram os cancelamentos num mês em que estariam cheios. Sobre o futuro, Benedita não sabe ainda o que dizer.

“É difícil. Por um lado, é uma zona linda do Algarve e é um privilégio morar aqui. Estou contente por termos dado esse passo. Por outro lado, estou apreensiva. Tenho 25 anos e fisicamente não consigo ter isto [os incêndios] todos os anos e não tenho confiança nos políticos para que evitem algo parecido nos próximos cinco anos”, conta.

Também João Jesus, com uma quinta em Pocilgais, já registou vários cancelamentos – tantos que não sabe para onde se virar. “Vai ser difícil porque as pessoas adoravam isto para as caminhadas e passeios pela serra e agora está tudo desta cor. Mas, a quinta está toda verde e toda bonita. É possível que haja uma grande quebra, mas também há pessoas que gostam de ver este tipo de coisas. Há gente para tudo”, conclui.

Já José Canelas, com uma casa de turismo rural na zona das Caldas de Monchique não está muito preocupado com o preto que domina na paisagem.

“Daqui por um ano, isto está tudo verde à volta e daqui a dois anos ninguém nota”, frisa o proprietário de uma unidade que, por trás, tem tudo negro e à sua frente “tudo verde”. “Sou um felizardo”, admite.

Evangelista de Oliveira, com quatro casas de campo na Foz do Besteiro, também acredita na capacidade da floresta regenerar rapidamente. “Aqui, os sobreiros e os medronheiros rebentam com facilidade. Nesta serra, com as primeiras águas, começa logo tudo a nascer. Leva o seu tempo, mas vai ficar tudo verdinho”, refere Evangelista.

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