www.sabado.ptFlash - 12 ago 05:00

Fogos, mitos e realidades

Fogos, mitos e realidades

Vir para o Algarve em clima de tragédia tem uma vantagem: obrigar a pensar numa emergência continuada, que se arrisca a piorar todos os anos, e que exige uma disponibilidade total, permanente e ininterrupta dos chamados “poderes públicos”. Nada de embandeirar em arco

Rumo ao Sul, achei que devia passar por Monchique. E seguir os primeiros dias de confronto com o incêndio que destruiu o maior pulmão verde do Algarve.
Muitos meios, muitas corporações, muita vontade, muito sacrifício, muita galhardia, mas infelizmente também muitas perguntas, ainda sem resposta.
Por razões que não vêm agora ao caso, acompanhei de perto, há uma década, os fogos florestais no condado de San Diego, na Califórnia, e em especial a situação em Cedar.

Um dos problemas que se colocaram então tornou-se clássico: saber se os meios aéreos estavam a ser usados de forma eficaz, ou apenas para publicidade política.
Tive longas conversas com alguns dos operacionais no terreno, ligados às forças de bombeiros, aos pilotos civis e militares de helicópteros e aviões, e aos chamados smokejumpers, unidades especiais de pára-quedistas, largados em zonas de alto risco.

Lembrei-me agora de iguais debates com responsáveis portugueses, em situações semelhantes.
Duas verdades comezinhas merecem ser lembradas.
Primeiro, a intervenção aérea sobre os fogos não é uma varinha mágica: helicópteros ligeiros com os chamados baldes Bambi, por exemplo, são meras gotas de água num mar de chamas.
Em segundo lugar, muitas vezes é impossível o uso aéreo, mesmo que os meios existam em quantidade e qualidade. Ventos altos e excesso de fumo impossibilitam a visão e o ataque.

Por outro lado, o uso atempado e estudado dos mesmos instrumentos, antes da formação de colunas de fumo ou de fuligem (sei de um C-130 que teve de regressar, por ter ficado com todas as superfícies ópticas cobertas), em áreas onde os bombeiros não podem chegar (Monchique devia ser um caso exemplar), pode desempenhar um papel essencial na prevenção e na travagem da progressão de fogos activos.

Mas para isto é preciso um planeamento exemplar, com coordenação de comunicação e acção militar-civil (nos casos em que as forças aéreas, e não apenas contratados, actuam), determinação de uso de hélis onde a asa fixa não pode, ou desta onde aqueles não são suficientes, e, como se disse aqui várias vezes, o estabelecimento de uma estrutura permanente de comando, controlo e combate, nas mãos e da responsabilidade do Estado.

Se o fogo é um perigo permanente e estrutural, a resposta pública tem de ser igual. Mas não vejo, apesar das promessas, a criação dessa estrutura de permanência.
Na Califórnia, muitos voos de largada de água e retardante acabaram por se dar por pressão de eleitos locais e nacionais, receosos de que a opinião pública pedisse acções espectaculares.
Mas concluiu-se que, por isso mesmo, era preciso afastar a politiquice do combate. Os meios aéreos tinham de ser usados com conta, peso e medida. Ou seriam ruinosos, inúteis, enganadores e contraproducentes.

Concluiu-se ainda, há uma década, que o sistema de bombeiros voluntários, embora essencial para muitas tarefas, incluindo a prevenção e a vigilância, e a presença em todo um território, não pode dispensar a formação de unidades de sapadores, profissionais e especializados, geralmente seguindo uma organização e preparação militares: lembremos, sem teatralidade, que o espectáculo de uma floresta a arder, e a tomada de decisões nesse inferno, se assemelha muitas vezes a um cenário de guerra contra um inimigo impiedoso.

No ano passado, fiz uma modesta proposta nesta direcção: a de criação, nas 20 capitais distritais, de pelo menos uma companhia de sapadores bombeiros, com quadro orgânico completo e equipamento adequado.
Representaria um vasto investimento público, mas poderia entrar dentro da promessa à NATO de subida para 2% do PIB das despesas com a defesa, na medida em que se trataria de unidades militarizadas destinadas a proteger a infra-estrutura crítica nacional, incluindo estradas e auto-estradas, depósitos de combustível, centrais energéticas, redes de transmissões, edifícios públicos e sistemas de saúde. 

Mitos e realidades (II)

Essas companhias de sapadores, linha dianteira no período de fogos, seriam também preciosas noutras emergências, e poderiam dar treino aos voluntários. Mas não vejo nenhum plano em curso neste sentido, e a verdade é que um sapador-bombeiro demora tempo a formar, a treinar e a manter. Claro que há elementos positivos na mudança de direcção da Protecção Civil, no pré-posicionamento de meios, no maior rigor de actuação e unidade de comando, na comunicação adequada (emissão dos 7 milhões de SMS), na (boa) militarização do espírito. Mas há ainda muitos "generalistas" sem experiência adequada, e uma grande carência de mapas actualizados, sensores e uso de drones, para citar apenas alguns meios.

O que interessa
Tudo isto se inclui na discussão mais vasta sobre o papel do Estado nas crises, numa altura de dúvidas sobre as empresas públicas menos produtivas. A começar pela CP, acusada de insustentabilidade, envelhecimento, e ineficácia em situações de aperto, apesar do profissionalismo e boa vontade de muitos trabalhadores e estruturas. O sistema partidário nacional está, dizem alguns, ou em "crise" ou em "transformação", agora "à direita". Seja esta turbulência natural ou artificial, fruto de guerra de capelas, amuos e criancices, ou reais clivagens "ideológicas", importa que desagúe na questão central e maior: um poder público que não saiba, possa ou queira intervir na emergência serve para quê?

Lugares e momentos
Fruto da imaginação de Cottinelli Telmo, arquitecto e cineasta de uma época de ouro, junto às Penhas da Saúde fica a Pousada da Serra da Estrela (na foto). Magnífico edifício que lembra o expressionismo alemão, ou a Belle Époque, é o sítio ideal para Verões quentes e Invernos frios.
Em Lisboa, quando a noite paira irrespirável, convém jantar no Balcão Sá Pessoa, 7º andar do El Corte Inglés. Invenções culinárias imaculadas de uma equipa jovem: o arroz verde à Bulhão Pato, a acompanhar um naco de pargo escalfado, é superlativo.
Em Faro, debaixo de arcadas, face à marina, no jardim central, os melhores cocktails do mundo bebem-se no Columbus Bar. E há que provar aí a salada de moxama, o "presunto" do atum.

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