sol.sapo.ptCarlos Encarnação - 11 ago 13:14

O comando em fogo

O comando em fogo

E eis como um incêndio que em vários momentos foi anunciado como praticamente extinto e combatido com exuberância de meios ainda persiste e destrói

É a controvérsia do momento. Compreende-se. O aquecimento global, a tragédia grega, a desolação na Califórnia, o mundo em chamas.

Chegou a nossa vez, de novo.

Desde o ano passado que as expectativas  foram aumentadas quanto à não repetição da tragédia redobrada, a suficiência dos meios , a corrida à prevenção, a ideal eficácia do combate.

Multiplicou o Governo iniciativas, ao longo do ano, tendentes a demonstrar que tudo estava no bom caminho, participaram pessoas e instituições, limpou-se boa  parte do país.

Um inverno, chuvoso e frio, que se prolongou no tempo invadindo a quase inexistente primavera e adiou o verão,  fez acreditar no melhor.

Neste clima, o Governo exagerou porventura.

Declarou o sucesso durante o tempo favorável, comparou números incomparáveis.

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Ou, recorde-se como tanto especialistas como cidadãos comuns descobrem se terem repetido os percursos de anteriores chamas.

Ou, note-se, como estações de televisão mostram como a coordenação (?) ignorava a destruição de casas ou os conflitos com as desesperadas populações.

Perante um incêndio que crescia em área, em força e no tempo, não teve o ministro outro recurso senão tentar anunciar melhores dias.

Não foi suficiente.

É a vez do primeiro-ministro vir a terreiro.

Sucesso, brada.

Ninguém percebeu.

Insiste e acrescenta.

«Um incêndio não se apaga como uma vela de um bolo de aniversário, esta fatalidade é uma exceção que confirma a regra, continuará a arder sem data final prevista».

Ou seja, proclama as banalidades mais impressionantes.

Simplifica.

Longe (dois meses atrás) vai o tempo de enaltecer o esforço para salvaguarda das condições de vida, garantia da permanência das produções ligadas à terra para a sobrevivência da economia local, manutenção da ocupação do território.

Hoje tudo está, mais uma vez, comprometido.

O silêncio que se faz parece resultar de uma proibição.

Tenho muita dificuldade em entender esta reverência cega, esta negação da crítica à eficiência das entidades públicas, este rebuço ao  exame do governo.

Ele existe para responder às ameaças, para ocupar o lugar difícil, para ter sucesso quando tudo parece desmoronar-se.

A democracia exige a avaliação do mérito ou do demérito.

Exige, também, que um governo responda nas condições que encontra com as soluções que for capaz de inventar.

Pode a história oferecer-lhe uma herança difícil.

Tem de descobrir a centelha da vida.

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