www.sabado.ptFlash - 10 ago 09:00

Os descobridores de Portugal

Os descobridores de Portugal

Com mochilas que se lhes estufavam nas costas e águas que lhes morriam nas mãos, dezenas de turistas esperavam pelo autocarro que os levaria para fora daquele Oeste sem lei nem rock

Não havia chão nem compaixão naquela garagem. Com mochilas que se lhes estufavam nas costas e águas que lhes morriam nas mãos, dezenas de turistas esperavam pelo autocarro que os levaria para fora daquele Oeste sem lei nem rock - ou pelo menos era assim que eu os via, cheios de pressa para fugirem dali, como se lhes custasse a engolir a areia que o vento levantara todo o fim-de-semana. Revirando mentalmente os olhos, lamentei que não percebessem os encantos do microclima, da água gelada e da energia eólica e subi para o autocarro.

A pressa levara quase todos os turistas a sentarem-se nos lugares errados, o que por sua vez levara todos os locais a reclamarem da desfaçatez dos forasteiros. O dia normal de um motorista do expresso no Portugal colecção Primavera/Verão 2018, supus, enquanto tentava acalmar os ânimos, apontando a uns e outros a placa mágica onde se liam os números dos lugares e o facto de haver lugar para todos.
Como tinha um plano de sonho para a viagem, nem esperei que o condutor (100% cool, no meio de tudo) desse início à marcha: fechei os olhos e acenei ao longe a uma sesta justa e necessária. Só que à minha frente, atrás e ao meu lado, três turistas tinham decidido ficar amigos por uma hora e meia.

O António era mexicano, vivia no Canadá e tinha passado o último mês a viajar (começara na Islândia, passara pela Croácia e despedia-se agora de Portugal); o Calibur estava a espalhar-se pelo mundo (um filho sérvio-português de nove meses era o seu passaporte para umas férias por cá); por fim, a Martina era sueca, vinha de Braga, percorrera o Oeste e ponderava dispensar Lisboa.
A Martina só queria saber uma coisa: do que mais tinham gostado os dois. Ela não tinha dúvidas: Portugal era o melhor País do mundo para visitar. António (o mexicano que tinha estado na Islândia um mês antes) concordava, Calibur (o pai) também. Percebi, então: a pressa deles em sair do Oeste não era pressa em sair dali, era só a urgência em descobrir mais. Afinal, eles tinham estado sempre no lugar certo.

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