observador.ptJosé Pinto - 11 ago 00:54

António Costa, a vela e o fogo

António Costa, a vela e o fogo

No ato da criação do Mundo, Deus descansou ao sétimo dia. No caso do incêndio que assolou a zona algarvia, António Costa, ao sexto dia, veio descansar os portugueses.

A imagem tinha tudo para correr bem. A reflexão tinha sido longa. Cinco dias a maturar no reino dos tweets. Ao sexto dia, a comunicação pública não de uma epifania – a sorte que os crentes têm de as ideias lhe chegarem sem trabalho – mas de uma construção do pensamento costista.

Afinal, aquele fogo, malgrado as várias frentes, representava uma exceção única no sucesso da política governamental de combate aos incêndios.

Depois, veio a lume – expressão pouco aconselhável na atual conjuntura – a imagem tão longamente elaborada: a vela de um bolo de aniversário todos nós apagamos com um sopro. Uma imagem claríssima, ainda que os céus algarvios estivessem cobertos por nuvens escuras de fumo. Nuvens tão espessas que exigiam a evacuação de povoações e tiravam os veraneantes das praias.

Nada que incomodasse a criatividade costista. A um governante é lícito invocar festas de aniversário no meio da desgraça alheia. Uma figura de estilo é isso mesmo. Só não compreende quem não quer ver. Ou quem quer ver e não enxerga bem devido às listas de espera para uma consulta de oftalmologia no Serviço Nacional de Saúde. Contas de um rosário que não convém desfiar. Se as listas de espera são a perder de vista, há que saber adaptar-se. Escolher outra doença. Há especialidades – poucas, é certo – onde a espera pela consulta é curta.

Voltando à questão da imagem, talvez não seja abusivo dizer que tem muito a ver com o facto de António Costa se preparar para apagar a vela de mais um orçamento. Os últimos meses têm sido passados a treinar o sopro. O primeiro-ministro não quer imprevistos. Já mandou imprimir os convites. Teve de se empenhar para convencer os convidados que se fingiam descontentes. Aqueles que ameaçavam faltar à festa, mesmo estando mortinhos por serem convidados.

Por isso, fizeram exigências. Aquelas que sabiam que, mais milhão menos milhão de euros, António Costa estava disponível para atender. Não é altura apropriada para olhar para o fundo do cofre, ainda que o discurso oficial já não esconda, pontualmente, essa inquietação.

Os convidados querem ajudar a apagar a vela. Só que, ao contrário da imagem costista propagandeada em Monchique, a vela não se apagará de um sopro. Verdade que o Governo recusou colocar no bolo orçamental uma vela daquelas que, mal se apagam, voltam a reacender. Uma escolha a que não foram alheios os reacendimentos habituais nos incêndios reais. Só que os parceiros bateram o pé. Na impossibilidade de usarem esse tipo de vela, exigiram que ao lado da vela, fossem colocados dois daqueles pauzinhos que se consomem enquanto vão deitando pequenas faúlhas.

Um fogo-de-vista momentâneo e inócuo. Até porque o Governo de António Costa revelou-se solidário com os fracos resultados dos alunos nos exames nacionais de Matemática e errou os cálculos que lhe permitiriam o controlo do SIRESP.

A continuar assim não demorará muito para que Costa confirme as palavras de Henry David Thoreau: «o melhor governo é o que absolutamente não governa».

Professor de Ciência Política

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