visao.sapo.ptAntónio Lobo Antunes - 9 ago 08:12

Há outro mundo mas está dentro deste: 4 crónicas romenas – Primeira

Há outro mundo mas está dentro deste: 4 crónicas romenas – Primeira

Quando não nos batíamos contra dúzias de Cholokoves possessos, concedíamo-nos alguma alegria numa discoteca próxima, tentando melhorar as nossas relações com as beldades locais. O macedónio, romancista, fisicamente parecia um chulo do Cais do Sodré, o romeno, o poeta Dinu Flamand, grande e forte, era um camponês dos Cárpatos e eu um loirito de Lisboa, os três no meio de dúzias de génios de toda a parte

Ilustração: Susa Monteiro

Vou tentar contar as coisas por ordem e, para as contar por ordem, tenho que dizer que a minha relação com a Roménia começou na Finlândia, no princípio dos anos oitenta. Eu era um escritor com dois ou três livros publicados, que tinha recebido uma carta de um agente americano, Thomas Colchie, que depois de protestos de grande admiração dizia querer agenciar-me. Era, à época, quem representava alguns dos mais importantes autores latinos, como Jorge Amado, Ernesto Sábato, Reinaldo Arenas, Manuel Puig, Carlos Drummond de Andrade, etc., etc., e eu achei que ele, ou alguém por ele, estava a brincar comigo e nem sequer respondi. Veio uma segunda carta, em que Thomas Colchie escrevia “você vai conquistar o mundo” e insistia que eu entrasse para a sua coudelaria. Pensei

– Porque não?

mesmo que isto seja a brincar é chic ter um agente em Nova Iorque e assinei um contrato com ele. De início ninguém me queria publicar: eu era um rapaz com dois ou três livros apenas, era português

(Portugal não existe)

quem iria traduzir português, o que é Portugal, um pinguinho nos mapas que não deve ter nada de interesse, para além de minúsculo de certeza que pobre, que raio de escritores podem eles ter. E todas as editoras, em toda a parte, me recusaram. Disse a Thomas Colchie que era melhor desistirmos: ninguém se interessava pelo meu trabalho e ele estava a perder dinheiro a enviar livros desnecessários para dúzias de países que tinham muito por onde escolher. Colchie insistia, inabalável, que eu ia conquistar o mundo e um dia fez-me um telefonema surpreendente. Disse apenas

– Grove Press

na altura uma das mais importantes editoras norte-americanas, que queria publicar os Cus de Judas e me convidava para ir a Nova Iorque. Só o tamanho do edifício metia medo, eu que trabalhava em Portugal com uma editora minúscula. Fui recebido pelo patrão mor. O diálogo foi mais ou menos assim: eu:

– Vai publicar o meu livro?

Ele:

– Vou.

Eu:

– Gostou dele?

Ele:

– Não o li.

Eu:

– Se não o leu porque carga de água o publica?

Ele:

– Porque se for mau nunca mais compro um livro a este agente.

Os Cus de Judas lá saíram e aconteceu um milagre: tivemos a primeira página do New York Times, com Ariel Dorfman, o Washington Post, o Chicago Tribune e o Los Angeles Times, tudo isto num entusiasmo aterrador. E, de repente, fiquei cheio de contratos porque conquistar os EUA significava conquistar o mundo. Isto enquanto eu fazia a Explicação dos Pássaros, de boca aberta, e preparava-me para começar o imenso trabalho do Fado Alexandrino, à medida que os livros iam saindo num ritmo assustador. Saíam os livros e chegavam convites de todo o lado. Um deles vinha da Finlândia, que organizava em Lahti um congresso no verão, com artistas de toda a parte, conhecidíssimos, nos quais entretanto eu ganhara bastantes leitores. Lahti era uma pequena cidade onde as sumidades se juntavam para discutir Literatura, ao ar livre, com muito calor e sol a pique toda a noite. Era o único português no meio daquela ilustre assembleia de gente premiadíssima do mundo inteiro. Lembro-me da gigantesca delegação soviética, lembro-me de dúzias de celebridades, lembro-me do calor e da sauna, lembro-me de ser tudo muito mais velho do que eu, à excepção de um poeta romeno e de um romancista da Macedónia e do modo como, por exemplo, a imensa embaixada russa louvava o realismo socialista, contra o qual o poeta romeno e o romancista da Macedónia se pronunciavam com imensa coragem e veemência, eles que pertenciam a países então comunistas também. Isso aproximou-me deles, formámos um trio a que chamámos Trio Komintern, e os combates verbais sucediam-se com violência. Às vezes perguntava-me o que fariam os nossos queridos neo-realistas se lá estivessem. O Trio Komintern foi-se tornando cada vez mais interventivo, com grande raiva dos comunistas, e eu pensei que o romeno e o macedónio, mal chegassem aos respectivos países, se iriam suicidar com um tiro nas costas. De modo que, quando não nos batíamos contra dúzias de Cholokoves possessos, concedíamo-nos alguma alegria numa discoteca próxima, tentando melhorar as nossas relações com as beldades locais. O macedónio, romancista, fisicamente parecia um chulo do Cais do Sodré, o romeno, o poeta Dinu Flamand, grande e forte, era um camponês dos Cárpatos e eu um loirito de Lisboa, os três no meio de dúzias de génios de toda a parte, com os quais participávamos em jogos de futebol épicos entre duas equipas ferozes, a Finlândia de um lado e o Resto do Mundo do outro, que eu aproveitava para umas boas caneladas em Salman Rushdie de quem nunca gostei, nem do homem nem dos livros, mas poupando os meniscos do Nobel Claude Simon e as suas T-shirts de adolescente. Quanto ao resto as discussões literárias não me interessavam muito, comia peixinhos minúsculos, aturava as trágicas, agressivas e chorosas bebedeiras finlandesas e aquele sol de vinte e quatro horas estimulava-me as meninges e outras partes menos confessáveis. De qualquer modo foi na Finlândia que a minha relação com Dinu Flamand se estreitou até se tornar a cumplicidade de irmãos que continua até hoje. O Zé costumava dizer que podia ser amigo de um médico, um escriturário, um engenheiro, fosse o que fosse. Para ser amigo de um escritor precisava de admirá-lo. Tinha razão como quase quase quase sempre. E eu admiro a poesia do Dinu como admiro a sua pessoa. Fisicamente é um camponês dos Cárpatos, por dentro um poeta de alta qualidade sem ser o que as pessoas chamam um intelectual, criaturas para as quais não tenho paciência. Algumas coisas que vivemos juntos virão nas crónicas seguintes. Só queria dizer, para acabar esta, a frase que ele me atirou um dia e continua a acompanhar-me, uma frase de um romeno durante a ditadura terrível de Ceausescu. Não uma frase aliás, uma pergunta: HAVERÁ VIDA ANTES DA MORTE? Isto é mais que uma pergunta, é uma angústia e uma dor sem fim. Felizmente há, Dinu, mas custou-te muito ganhar isso, com tanto sofrimento, tanta dignidade, tanta coragem. 


O meu irmão camponês do norte de Cárpatos. Estive em casa dos teus pais, uma vivendita de pobres, e comovi-me tanto nesse lugar de uma beleza única, com o retrato da tua mãe, tão linda, na parede. Somos os dois extremos da latinidade, como dizem os romenos. Talvez seja uma das razões porque somos tão próximos. E agora vêm aí as nossas aventuras desde então, e a difícil maneira através da qual alcançámos a paz de agora, a atormentada paz de dois irmãos que escrevem. Mas pelo menos quem ler esta história ficará a saber que vivemos antes de nos irmos um dia. Pelo menos continuamos: podem matar-nos, não nos conseguem destruir. Quem destrói um homem? Um homem, quando é homem, não acaba nunca.

(Crónica publicada na VISÃO 1326 de 2 de agosto)

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