observador.ptElói Figueiredo - 9 ago 11:22

A História da Carruagem 4

A História da Carruagem 4

Não podemos pedir para optar politicamente pelo transporte público e deixar de investir num serviço ferroviário com o mínimo de conforto para os passageiros.

Comboios Alfa Pendulares vão à ‘revisão da meia vida’ e ganham nova cara”, (Público, 27 de janeiro, 2016); “CP está a ficar sem comboios e à beira do colapso”, (Público, 11 de julho); “Governo tem travado todas as soluções para comboios de longo curso: no horizonte pode estar a privatização do serviço de longo curso” (Público, 29 de julho); “Governo garante que privatização da CP é fantasia” (Expresso, 30 de julho).

Lisboa, 3 de agosto, 42ºC no exterior. Depois de estacionar o carro na Gare do Oriente, são 14h09 e o Alfa Pendular 133, proveniente de Santa Apolónia, ainda não chegou. Com um atraso pouco habitual, embarco no Alfa não renovado em direção ao Porto – sou o passageiro 57 da carruagem 4. Rede wi-fi de Internet e redes de comunicação móveis não funcionam; bancos mostram sinais claros de quase 20 anos de atividade. Poucos minutos volvidos, questiono o revisor sobre o andamento lento do comboio – sou informado de “uma avaria no sistema de sinalização” na Linha do Norte. Mais uns minutos, com a carruagem cheia e isolada, o ar está irrespirável. Questiono novamente o revisor – desta vez sou informado de uma avaria no sistema de ar condicionado. Tudo que se move é leque. Algumas crianças viajam em fralda. Passageiros de pé despem-se e questionam. Entretanto, corre a notícia de que o ar condicionado da carruagem 2 também está avariado. Passageiros circulam à procura de ar respirável – “dizem” que a carruagem 3 “tem frigoríficos e mantém o ar mais fresco”. Estranhamente, a indicação do visor eletrónico da carruagem indica 25ºC no interior (!) e 41ºC no exterior. Uma verdadeira “sauna” andante em dia de verão. No final, valeu a simpatia dos tripulantes e a garrafa de água oferecida com “autorização da central”.

Conclusão: um dia mau para a CP; nos últimos dias, situações semelhantes foram reportadas noutras ligações; e não é a primeira vez que o ar condicionado “avaria” na ligação Lisboa-Porto em épocas de vaga de calor. Na medida em que se discute a privatização do serviço de longo curso, é bom lembrar de que está ainda por concluir o processo de ‘revisão de meia vida’ nos dez comboios Alfa Pendular e que “apenas” custava 18 milhões em 2016. Todos sabemos que o momento ainda é de contenção orçamental e que o Governo está limitado no nível de investimento público. Contudo, não podemos pedir para optar pelo transporte público e deixar de investir num serviço ferroviário com o mínimo de conforto para os passageiros. Numa altura em que está em discussão pública o Programa Nacional de Investimentos 2030, é importante ter presente a história da carruagem 4 e lembrar de que as linhas de longo curso são fundamentais para a mobilidade das pessoas e para o desenvolvimento do país.

Professor Universitário

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