blitz.sapo.ptblitz.sapo.pt - 14 jul 01:19

The National no NOS Alive: é uma banda portuguesa, com certeza

The National no NOS Alive: é uma banda portuguesa, com certeza

Quase a celebrar 20 anos de carreira, o grupo de Matt Berninger já pode pedir cidadania portuguesa. Ao 15º concerto em terras nacionais, os 'nacionais' jogaram em casa

É certo que o cabeça de cartaz 'assumido' é Queens of the Stone Age, mas a ementa do segundo dia do NOS Alive quase que concede aos National o privilégio oficioso do 'double bill'. Primeiro os românticos, depois os musculados.

Ao 15º concerto em Portugal, os nativos de Cincinnati, estado norte-americano do Ohio, não querem ver Benjamin Clementine ultrapassá-los pela direita e 'armam' nesta sexta-feira de verão ensimesmado o seu maior espetáculo festivaleiro por cá. Esgotado há muito, o NOS Alive recebe estes bastiões do rock alternativo de braços abertos, mesmo que a multidão à frente do palco NOS seja, digamos, adequada ao estatuto de 'banda de culto': os devotos de coração nas mãos na frente de palco, uma segunda vaga bastante entusiasmada - gente às cavalitas, aquela euforia de concerto do antigamente -, um lençol de gente em observação menos participante e uma faixa traseira em trânsito para Portugal. The Man, no extremo oposto do recinto, algum tempo depois.

Sobre a espessura emocional dos cavalheiros e o historial da afeição, não se repetirá aqui o que Lia Pereira, de há uma dúzia de anos a esta parte, vem vertendo para papel e digitália na BLITZ (aqui fica um exemplo); aqui registam-se impressões que ajudarão a contar a história do ponto que se adiciona ao conto dos americanos em cima de palcos portugueses.

Primeiro, a confiança absoluta de uma banda que às primeiras cinco canções encarreira quatro amostras do seu último álbum ("Sleep Well Beast"), não as intercalando com nenhum trunfo infalível do passado (apesar do apelo pop de 'The System Only Dreams in Total Darkness' estar a par com a 'tradição').

Depois, a inabalável segurança de um combo onde cada elemento cumpre um papel para assegurar, de início ao fim, a manutenção da identidade National, esse embrulho de referências que tanto bebe do pós-punk (são deles os espinhos de canções mais antigas, como 'Bloodbuzz Ohio') como à grande canção americana ('Carin at the Liquor Store'), como se uns Joy Division transferidos para 1985 preferissem a 'balladry' de Tom Waits às arestas dos The Sound. Na sua heterogeneidade 'controlada', o som dos National é um: uma escalada cuidadosa da escada espiralada da melancolia.

Por fim, a capacidade de tocar os sítios certos (entenda-se: corações), feito para o qual contribui um 'frontman' que parece protagonizar o seu próprio filme - por vezes alienado, entregue a si próprio - e, ainda assim, capaz de comunicar com os 'filmes' dos outros, os do lado de cá (a descida ao povo em 'Day I Die', o vociferar deitado sobre uma coluna em 'Graceless'). Chamemos-lhe empatia.

'Mr. November', única memória de "Alligator" (2005), é o pico da montanha emocional. Quando Berninger canta que costumava ser transportado nos braços das cheerleaders, o homem é um de nós: junto à barraca da cerveja, copos erguidos mais alto que os telemóveis, grita até perder a voz num rápido mas intenso brinde ao contacto entre humanos. O concerto terminaria pouco depois, com a descompressão de 'Terrible Love' e a simplicidade folk de 'About Today' (evocação do quase-álbum "Cherry Tree", de 2003) a antecederem uma despedida algo 'encavacada' de Matt Berninger. É o estilo da substância.

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