observador.ptobservador.pt - 14 jul 03:36

No campeonato do rock ‘n’ roll, os Queens of the Stone Age levaram a taça

No campeonato do rock ‘n’ roll, os Queens of the Stone Age levaram a taça

Quatro anos depois, os Queens of the Stone Age voltaram a Portugal para disputar o lugar de cabeças de cartaz com os National. Antes, houve Black Rebel Motorcycle Clube e Blossom no palco principal.

Era um concerto de rock, mas foi ao som do famoso tema do filme “Serenata à Chuva” que começou. O público, que aguardava ansiosamente pelos Queen of the Stone Age, que teimavam em não aparecer, começou a cantar “Singing in the Rain” em uníssono, mas foi subitamente interrompido por uma música épica (o tema principal de outro filme, “Laranja Mecânica”) e um jogo de luzes de fazer inveja. Um a um, os membros da banda foram aparecendo e ocupando os respetivos lugares em palco principal do NOS Alive. Esperava-se um grande concerto de rock, puro e duro, e foi exatamente isso que os norte-americanos ofereceram. Nada mais, nada menos. E, sejamos sinceros, depois da tristeza dos The National, vinha mesmo a calhar.

A banda arrancou com “Feet Don’t Fail Me Know”, tema do mais recente álbum, que os Queen of the Stone Age ainda não tinham tido oportunidade de apresentar em Portugal (não pisavam solo português desde 2014). Lançado em 2017, Villains ocupou uma pequena parte do alinhamento, onde não faltaram os grandes êxitos da banda e músicas para dar um pézinho de dança. “Vamos dançar!”, pediu o vocalista antes de “The Way You Used To Do”, o segundo tema da noite, também tirado de Villains. Josh Homme dava aquele jeito às ancas, impossível de não fazer lembrar aquele a quem chamaram o rei do rock ‘n’ roll. Fazia deslizar a guitarra, passava a mão pelo cabelo, saltava e pontapeava as barras luminosas que enchiam o palco. Ali, entre o fumo e as luzes intermitentes, era um gigante e era impossível tirar os olhos dele.

Os Queen of the Stone Age eram um dos nomes fortes do segundo dia do festival

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A presença de palco aglutinante do vocalista e guitarrista é quase injusta — todos os membros dos Queen of the Stone age merecem crédito. Sabem o que fazem, e isso notou-se bem.O espetáculo foi bem montado, com recurso a diferentes efeitos de luz que ajudaram a criar a atmosfera certa — elétrica — em palco. Nada de grandes cenários — afinal, o que conta é mesmo a música. E essa já se sabe, é boa. “JJ, liga as luzes!”, pediu o vocalista depois de “Song for the Deaf”. Josh Homme queria ver o público, as centenas e centenas de pessoas que tinha pela frente e que enchiam o Passeio Marítimo de Algés. “Estão comigo?”, perguntou. “Estão comigo? Estão connosco?” Claro que estavam, e cantavam e saltavam com ele.

A última metade do concerto foi dedicada aos temas mais famosos, como “No One Knows”, que teve direito a um solo do baterista Jon Philip Theodor. “Make It Wit Chu”, “Little Sister” e “Go With the Flow” ficaram mesmo para o final do concerto. “Espero que tenham passado o melhor momento das vossas vidas. Somos os Queen of the Stone Age e adoramo-vos”, disse Homme em jeito de despedida, antes de pedir que ligassem as luzes “mais uma vez”. “A Song for the Dead”, do álbum de 2000 Songs for the Deaf fechou a atuação e deixou os fãs a ansiarem por um regresso rápido dos norte-americanos. Esperemos que não tenham de passar outros quatro anos.

Os Queen of the Stone Age eram um dos nomes fortes do cartaz desta sexta-feira no NOS Alive, juntamente com os The National. Mas a quem coube o título de cabeça de cartaz? Isso é discutível, até porque nenhum desiludiu — cada um conquistou, à sua maneira, a atenção e o coração dos fãs. No final, é tudo uma questão de gosto. Mas no campeonato rock ‘n’ roll, foram os Queen of the Stone Age levaram a taça.

Black Rebel Motorcycle Clube e Blossoms: ficou a faltar qualquer coisa

Depois dos islandeses Kaleo, os primeiros a subir ao palco principal neste segundo dia do NOS Alive, e dos canadianos Japandroids, que quase destruíram o palco secundário (para que é que são precisos mais do que dois instrumentos, afinal?), chegou a vez dos Black Rebel Motorcycle Club (BRMC). Depois de cinco anos sem nenhum lançamento, os norte-americanos editaram no início deste ano Wrong Creatures, que serviu de pretexto ao concerto desta sexta-feira em Algés. O alinhamento contou, por essa razão, com uma mistura de temas novos, como “Question of Faith” (cantado apenas por Peter Hayes), com temas mais antigos, como “Beat the Devil’s Tattoo” ou “Six Barrel Shotgun”.

Em janeiro, por altura do lançamento do novo disco, a Pitchfork descreveu Wrong Creatures como “mais do mesmo, mas que pelo menos é mais do mesmo de uma maneira convincente”. Foi mais ou menos isso que deu para concluir durante o concerto desta sexta-feira. Se os BRMC não anunciassem os temas novos como sendo temas novos, seria difícil distingui-los dos antigos. E a verdade é que foi o mais antigo de todos que arrancou a maior reação ao público — “Whatever Happened to My Rock ‘n’ Roll”, do primeiro álbum B.R.M.C., que os tornou famosos há 18 anos dois anos depois da sua formação, em 1998. Apesar de uma prestação exemplar, o resto quase nem deu para aquecer. A banda saiu prejudicada com o horário em que tocou (seis da tarde), mas há outro problema: quando os BRMC tocam ao vivo parece que fica sempre a faltar qualquer coisa para os elevar a outro patamar.

Os Black Rebel Motorcycle Club tocaram depois dos Kaleo, no palco principal do NOS Alive

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Com os Blossoms não foi muito diferente. A banda inglesa foi confirmada à última hora, depois do cancelamento dos The Kooks, que deviam tocar a seguir aos Black Rebel Motorcycle Club no palco principal. Em comunicado, a banda explicou que o vocalista, Luke Pritchard, esteve com uma bronquite e que foi obrigado, por ordens médicas, a cancelar o concerto desta sexta-feira no NOS Alive. “A banda pede desculpa e espera poder voltar a Portugal o mais rapidamente possível”, afirmaram os Kooks. Os Blossoms foram a solução encontrada para preencher o horário, que muita gente preferiu usar como hora de jantar, antes dos The National. De um modo geral, foi pouco o entusiasmo mostrado em relação ao indie pop ligeiro da banda de Stockport, que passou pelo palco secundário do NOS Alive no ano passado.

À semelhança dos BRMC, os ingleses também lançaram este ano um novo álbum de originais, Cool Like You, uma sequência natural do anterior — o homónimo Blossoms, que conseguiu uma nomeação para os Mercury Prize em 2017. Eram, porém, poucos os que pareciam conhecer os novos temas (ou até qualquer tema). Verdade seja dita: apesar de desfrutarem de um sucesso consistente no estrangeiro desde a sua formação, em 2013, entre os portugueses, o grupo permanece essencialmente desconhecido.

Os ingleses Blossoms substituíram os The Kooks, que tiveram de cancelar por motivos de doença

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Eels, os vencedores do palco secundário

Rock ‘n’ roll à antiga: foi o que se ouviu ao final da tarde desta sexta-feira no palco Sagres do NOS Alive. Os Eels, grupo liderado pelo carismático Mr. E (Mark Oliver Everett), não são fãs de modernices. Com roupa à anos 90 (ganga do pescoço aos sapatos, chapéu na cabeça a denunciar a origem americana), Mr. E, 55 anos, arrancou o concerto com Prince (“Raspberry Beret”) e continuou com rock e folk-rock, tingidos a boogie blues elétrico. Houve baterias, pandeiretas, maracas e sobretudo grandes riffs de guitarras.

O alinhamento passou pelas perto de três décadas de carreira do músico, com destaque para “Dog Faced Boy”, precisamente o tema em que Mr. E cantou e tocou maracas. Foi um dos mais enérgicos do concerto. “Isto foi divertido como o raio. Para um homem da minha idade… Vocês não querem ver-nos cair aqui mortos mas o melhor é manterem as câmaras a funcionar, porque não vão querer perder esse momento”, brincou o cantor.

“That Look You Give That Guy”, faixa do disco Hombre Lobo (de 2009), abrandou o ritmo, introduzindo alguma quietude. Já a nova “You Are Shining Light”, do álbum editado este ano, The Deconstruction, revelou-se uma boa novidade, somando valor ao repertório da banda que atuou pela última vez em Portugal há oito anos, no Coliseu dos Recreios.

ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

A atuação dos Eels foi boa, uns furos acima da banda que se seguiu no palco Sagres, os Yo La Tengo, que apesar de terem um repertório à prova de bala — fizeram algum do melhor indie-rock dos anos 1990 e 2000, estando ainda bastante ativos e tendo editado um disco novo este ano –, atuaram no festival errado para a sua música tão desafiante do cânone pop-rock. A dada altura, enveredaram por uma viagem instrumental que durou mais de dez minutos. Os indies apaixonados por guitarras saíram convencidos, mas a maioria pareceu estranhar a opção.

Um “visto Gold” para os Future Islands

Ivete Sangalo, James, XXX e The National. Há certas bandas que quase já podiam ter passaporte português, tantas são as vezes que já atuaram em terras lusas. Os Future Island, por exemplo, ainda não se enquadram perfeitamente nesse grupo mas certamente já estão na fila do SEF à espera de vez. Já quase se perdeu a conta do número de vezes que Sam Herring e companhia passaram por cá para espalhar a sua magia em forma de pop dançante. Entre o modesto (mas incrível) concerto que deram num lotadíssimo Musicbox (a estreia absoluta) e o Palco Sagres onde esta sexta-feira atuaram, ficou um rastro de devoção do público nacional, que em nenhuma vez ficou indiferente ao contagiante festão que são as atuações do grupo norte-americano. Desta vez não foi diferente.

Saltos, pulos e muita transpiração — o habitual — pautaram o animado concerto que deram aos festivaleiros de Algés. Ou, pelo menos, àqueles que conseguiram entrar na espécie de tenda que envolve o palco. Os anos anteriores de Alive já nos ensinaram que ver concertos aqui pode ser complicado, especialmente se o nome em palco for sonante. Este ano a organização tapou ainda mais as aberturas deste recetáculo (em nome da acústica, presume-se) e isso não foi boa notícia para aqueles que se conformam em ver o show sentados no chão. “Quem me dera estar ali”, gritou um jovem ao grupo de amigos que alegremente dançava ao som de “Dream of You and Me”. É verdade, nós também gostávamos de estar ali no meio. Mas pronto. Quem estava vibrou a rodos e no final das contas, isso é que importa.

Os Future Islands encheram o palco secundário do NOS Alive

ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

Ficou na retina mais uma performance imaculada, plena em cor e entusiasmo (quer no palco quer na plateia) e fica cada vez mais sólida a ideia de que Future Islands, ao vivo, nunca desilude.

Branko fez a festa no NOS Clubbing

Outro dos destaques deste segundo dia de NOS Alive foi a atuação de Branko (João Barbosa). O DJ e produtor musical português, membro dos extintos Buraka Som Sistema, preparou algumas novidades. Munido de uma mesa de mistura e uma caixa de percussão, Branko subiu ao palco NOS Clubbing, cuja programação dirigiu neste segundo dia, às 1h20. Como habitual, apresentou os temas do disco Club Atlas e remisturou outros ao vivo. Ouviu-se “Coisas Bunitas”, de Sara Tavares, por exemplo.

As novidades surgiram quando Branko chamou ao palco cantores como o congolês (residente em Londres) Miles From Kinshasha — para cantar uma música sua e para cantar o tema “Over There”, que compôs com Branko –, e o brasileiro Rincon Sapiência e o cabo-verdiano (residente em Portugal) Dino D’Santiago, que apresentou “Nova Lisboa”, tema já tinha sido dado a conhecer pela dupla na final do Festival Eurovisão da Canção, na Altice Arena, o que ajudou a que, nesta noite, Branko tenha conseguido por toda a gente a dançar no palco de música eletrónica.

ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

Já a atuação de Branko ia a meio quando os Two Door Cinema Club começaram o seu concerto, que encerrou o palco principal do festival. Durante mais de uma hora, apresentaram a sua pop saltitante, sempre a abrir, que já se tinha ouvido neste festival há dois anos. “What You Know”, “Undercover Martyn”, “Something Good Can Work” e outros êxitos, fizeram com que o público permanecesse até bastante tarde junto ao Palco NOS. A festa passou depois para o Clubbing, onde atuou o DJ Lag.

Texto de Rita Cipriano, Gonçalo Correia e Diogo Lopes, fotografia de João Porfírio e André Carrilho.
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