www.publico.ptpublico@publico.pt - 13 jul 21:53

Opinião. A rainha e o “amazing” deslumbrado

Opinião. A rainha e o “amazing” deslumbrado

Isabel II deve estar muito divertida com esta visita, pelo que ela tem de caricato.

Trump é e será sempre uma fonte inesgotável de assunto e comentários. A propósito da sua actual visita ao Reino Unido, leio no PÚBLICO o entusiasmo com que encara o encontro com a rainha Isabel II. “Uma mulher fantástica”, como ele costuma dizer de quase tudo, dentro do seu paupérrimo léxico, em que amazing e extraordinary são verdadeiras bengalas de linguagem. Parece que a mãe era escocesa e – coitada da senhora – falava a Trump do modo como amava a monarca.

Detive-me nesta notícia pela circunstância de Trump se apresentar como a encarnação do american dream, um self-made man que subiu a vida a pulso e que, entre nós, poderíamos apelidar de um “novo-rico”. Confesso desde já que seria interessante tomar chá com a cabeça da Commonwealth, não tanto por Isabel II parecer ser uma excelente conversadora, mas pelo patusco da situação, com aquelas mordomias bolorentas e aquelas baixelas a relembrar que o UK já foi great, but not any longer.

Deslumbrado, portanto. Um bebé em ponto grande, sedento de atenção e que a monarca, com a sua experiência de largas décadas, vai saber captar, mantendo-o, porém, à distância de segurança de alguém que, de todo, pertence à sua casta. Mais perto estarão os amados cães. Os antigos colonizadores são agora visitados por um Presidente maravilhado com lustres e móveis, retratos e outros cómodos, mas que, provavelmente, arrasaria Buckingham para construir um condomínio de luxo. “Business as usual”, diria ele à sua interlocutora. Não fora a solenidade do acto, Trump era bem capaz de levar um contrato-promessa, just in case. Não sei se o inefável Duque de Edimburgo estará presente, mas tenho quase a certeza que ambos podiam ser “bbf’s”. Gaffe por gaffe, seria uma competição renhida e diz-se que Filipe faz rir Isabel, como talvez Donald – que não o Pato – faça ao menos sorrir a vetusta rainha.

Seria uma medalha ao peito para Trump escrever um tweet dizendo que fez rir Isabel II. Mas esta última já enterrou muitos primeiros-ministros e muitos Presidentes, pelo que o mais certo é lançar-lhe aquele olhar esfíngico típico da alta nobreza bafejada pelo divino, em que os comuns mortais não terão a mínima ideia do que lhe passará pelo real cérebro. Adivinho que contemple a cabeleira de Trump, que mentalmente reconheça o very typical da gravata a rondar locais anatómicos menos próprios e que pense que a Melania ama mesmo o Presidente, porque o interesse deve ser pouco.

May deve ter pedido ao pessoal do palácio para a rainha ser o mais agradável possível com o Presidente. Afinal, o "Brexit" está a correr mal para os seus lados e tem levado a uma sangria governamental. Se Trump mandasse, era tudo um tough "Brexit", pois nele nada é soft. Melhor: é meigo com ditaduras e claras violações de direitos humanos, se tal redundar em lucro para a confederação de interesses que o elegeu e o segura.

Isabel II terá uma história para contar aos netos: a vez em que aquele senhor deslumbrado do país outrora colonizado, inicialmente, por perigosos criminosos britânicos, entornou o chá nas caríssimas carpetes, fez um comentário desagradável ou tocou na rainha. Mais giro seria se Trump convidasse a monarca para uma selfie ou levasse na mala diplomática um contrato para a rainha ser “a cara” de campanhas publicitárias dos seus negócios. Imagino o clã Windsor a rir, sempre com os simpáticos canitos por perto, quando Trump já estiver do outro lado do oceano. O problema é que, cara Isabel, o homem tem poder – e muito –, é imprevisível – e muito – e vai-nos levando a todos, passo a passo, a um ataque de nervos. O antídoto é os demais países serem hábeis na negociação, mas com a certeza de que se se baixarem em demasia, mesmo a combinação de uma carismática rainha pode ficar à mostra...

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