expresso.sapo.ptRicardo Marques - 13 jul 18:49

Carta a Costa, Catarina e Jerónimo

Carta a Costa, Catarina e Jerónimo

Carta velocipédica à Geringonça

Caros

António, Catarina e Jerónimo

Equipa de ciclismo Geringonça-CCJ


Espero que esta vos encontre bem, em especial nestes tempos de aparente desencontro.

Pensem em mim como aquele tio velho que passa as tardes quentes de verão a ver ciclismo e que vos liga apenas uma vez por ano, e logo no dia do debate do Estado da Nação, esse momento decisivo para o qual se prepararam meses a fio e no qual investem toda vossa energia.

Não é importante apenas por ser uma espécie de anúncio das férias, das vossas, claro, mas principalmente porque nos permite — aos que ficamos à beira da estrada a olhar para as bicicletas — contemplar um pouco mais de perto como vai a Volta.

Como bem sabem, o Tio Rodinhas gosta tanto de ver passar os ciclistas como de os ver cair, desde que, coitados, não se aleijem muito. Há algo de espetacular numa boa queda analisada em câmara lenta. É quase tão emocionante como assistir à chegada de uma etapa com um prémio de montanha daqueles bem exigentes.

E, confesso, os últimos dias deixaram-me algo baralhado: isto está a correr mal, do tipo mãos fora do volante, pés no ar e sangue no joelho e dores no corpo todo, ou tudo vai bem, e a estrada é que é difícil?

Quando começou a corrida, e logo aos primeiros metros decidiram saltar para uma bicicleta de três lugares, ocorreram-me algumas ideias. A primeira é que, com três a pedalar, iam chegar mais depressa do que os outros à meta — e a fuga mítica que encetaram, e que certamente ficará para a história, provou-o.

No entanto, dei também por mim a pensar que, mais quilómetro menos quilómetro, a coisa podia dar para o torto no seio da equipa Geringonça-CCJ: não é assim muito justo, nem socialista, que o trabalho das pernas de três fique nas mãos de apenas um. É um pouco fora do espírito daquela ideia do “volante a quem o pedala”. Apesar de o esforço ser partilhado, quem escolhe o caminho é sempre o mesmo. Até porque os dois de trás só veem costas.

O resultado, meus velocipédicos sobrinhos, está à vista. O da frente quer ir mais devagar, diz que já não tem força para tudo, mas os dois que vão atrás querem pedalar cada vez mais depressa e gritam constantemente para que ele vá por outro caminho. É como se a bicicleta não tivesse travões. Nem nas descidas abrandam. E o da frente assusta-se, claro, mais ainda porque começou a reparar que a bicicleta nova já não está assim tão nova. Os pneus estão remendados, o selim está gasto e até a corrente e os cabos já tem alguma ferrugem. Não é que esteja a desfazer-se, mas, convenhamos, já esteve bem melhor.

A grande questão agora é saber em que condições vão os meus queridos sobrinhos entrar para última etapa, a decisiva. Lembrem-se que começa logo com a tem��vel subida da Senhora do Ó, de Orçamento. Depois, apesar de ser sempre a descer, tenho ideia de que há umas curvas apertadas — demasiado apertadas para lá caberem três maneiras diferentes de entrar nelas. Temo que daqui a uns tempos, se é que não estão já, comecem a pensar demasiado na vossa condição individual de ciclistas e menos na viagem em curso.

Permitam-me citar um dos grandes, provavelmente o maior, que um dia disse o seguinte: “Se estivesse preocupado em não cair da bicicleta, nunca a controlaria”. Acreditem, porque o Lance Armstrong venceu sete vezes seguidas a Volta a França.

Depois descobriram que tinha feito batota, mas aqueles dias foram realmente gloriosos...


Um abraço e lembrem-se de olhar sempre para a frente

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