observador.ptobservador.pt - 13 jul 14:05

Zlatko Dalic, o ‘underdog’ que nem acreditou quando foi convidado para ser selecionador da Croácia

Zlatko Dalic, o ‘underdog’ que nem acreditou quando foi convidado para ser selecionador da Croácia

Pegou na seleção croata quando ela estava a um jogo de falhar o Mundial, mas ainda conseguiu colocá-la na rota da Rússia. E na rota da final. Quem é Zlatko Dalic, o técnico que até treinou de graça?

É a seleção que provou, diante do mundo (e dos ingleses em particular), que o futebol pode ter muitas casas. Mesmo que seja uma casa pequenina, nascida da divisão de uma casa maior (neste caso, a Jugoslávia). Uma casa sem a imponência de outras com mais anos e enfeites e histórias. Uma casa em que o dono parecia não ter pedegree para o ser, mas que se tem revelado um caso de estudo como mestre de cerimónias.

O dono é, como já terá percebido, o selecionador Zlatko Dalic. Aquele que terá levado os croatas a soltar um ruidoso ‘queeeeeeeeem?’ quando foi anunciado como boia de salvação de uma equipa que estava a um jogo de ver a Rússia por um canudo. Como jogador, nunca passou de mediano: era um esforçado mas longe de ser brilhante médio defensivo que não chegou a internacional nem a clubes de grande relevo (teve duas passagens pelo Hajduk Split e pelo Varazdin e uma pelo Cibalia e pelo Mostar) e que ainda teve de interromper a carreira três meses para tratar da logística no exército croata durante a Guerra dos Balcãs.

Como treinador, era também um ilustre desconhecido sem experiência de comando em grandes equipas: tinha liderado o Dínamo de Tirana, na Albânia; o Al-Faisaly e o Al-Hilal, na Arábia Saudita; e o Al-Ain, nos Emirados Árabes Unidos – além de passagens pelos emblemas croatas Varazdin e Rijeka e pela seleção Sub-21, onde trabalhou, por exemplo, com Rakitic e Mandzukic. Um ilustre desconhecido – voltamos a essa ideia – tão desconhecido que até teve de viajar para Madrid, no último Natal, para conhecer pessoalmente Luka Modric.

Era assim tudo tão improvável e tão inesperado, que o próprio Dalic não acreditou quando um dia recebeu um telefonema de um funcionário da Federação croata a convidá-lo para ser interino da equipa principal. Tinha de falar com o presidente, Davor Suker, para levar a proposta a sério. Era o tudo ou nada para o técnico: o contrato só contemplava um jogo, o último da qualificação frente à Ucrânia, que passaria a três, caso conseguisse o acesso ao playoff. Nada mais. Por esta altura, a seleção croata estava mergulhada no valente sarilho e na perplexidade – afinal tinha jogadores a alinhar nos principais clubes do mundo – de estar com mais de um pé fora do Mundial. Com a Ucrânia, só vencer dava o direito a sonhar e Dalic sonhou com uma mudança tática que foi decisiva: colocou Modric mais solto no centro para o médio do Real Madrid poder criar. A troca deu vitória por 2-0, depois o playoff com a Grécia foi exímio e, de repente, o patinho feio mudou de penas e tornou-se cisne.

Uma qualificação alcançada de graça

E tornou-se também, provavelmente, num dos últimos românticos a habitar este microcosmo que é o futebol. Num mundo pouco dado a lirismos, preferiu o sonho aos números na conta bancária – e por isso aceitou trabalhar de graça durante a qualificação. “Quando me chamaram, perguntaram se estava pronto. Disse que estava. Não fiz perguntas. Fui encontrar os jogadores antes do voo para a Ucrânia, 48 horas antes do jogo. Não houve negociação, não houve mensagens. Apenas aceitei. Porque era o sonho de uma vida ser o técnico desta equipa. Não tinha dramas, não tinha dilemas. Não queria assinar um contrato. Disse: ‘Vamos ver o playoff‘. Não preciso do salário. Se conseguir a qualificação para o Mundial, aí conversamos. E assim foi“, contou Zlatko Dalic já depois da meia-final ganha à Inglaterra.

Zlatko Dalic colocou a Croácia a jogar como uma equipa. “Todas as seleções que dependem muito de um único jogador foram para casa”, disse (Alexander Hassenstein/Getty Images)

Tudo resultou neste conto de fadas – e a Croácia conseguiu a presença inédita na final do próximo domingo. Não há propriamente uma receita para o sucesso, mas há alguns ingredientes. “Messi é o melhor jogador do mundo. Neymar joga a um alto nível. Mas todas as seleções que dependem muito de um único jogador foram para casa“, atirou Dalic, numa mensagem que também poderá ter Portugal como destinatário. “Esta é a diferença do Mundial. Equipas que jogam com mais foco no coletivo seguiram em frente. Alemanha, Argentina, Brasil, Portugal [afinal Dalic falava mesmo para nós] e outros favoritos caíram antes. O futebol evoluiu muito, qualquer equipa bem treinada defende em bloco, organiza-se. As individualidades não vão resolver sempre, mas a força do conjunto sim. A Croácia tinha esse problema: jogadores bons mas que não conseguiam formar uma equipa”, concretizou.

Sabemos que o mundo das “futeboladas” é dado a superstições e estatísticas. E há uma que, a concretizar-se, embalaria a Croácia para a doce vitória do troféu final: é que a cada duas décadas, em anos terminados em 8, há um campeão inédito. Foi assim com o Brasil em 58, com a Argentina em 78 e com a França em 98. Mas está Dalic inebriado pelos números? “Não acredito em estatísticas, padrões e números. Acredito no que fiz, no que faço. O que aconteceu há 20 anos não me interessa. Se fôssemos acreditar em estatísticas, não estaríamos aqui”.

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