observador.ptP. Gonçalo Portocarrero de Almada - 13 jul 23:55

A Igreja Católica e os sectarismos

A Igreja Católica e os sectarismos

Seria lamentável que, por um excesso de nacionalismo, ou por sectarismo, a Igreja esquecesse que, desde a sua fundação, é católica, ou seja, universal.

Quatro notas definem a Igreja: é una, santa, católica e apostólica. É una porque foi só uma a Igreja fundada por Jesus Cristo, instituída na pessoa de Pedro e dos seus sucessores na primazia da caridade. É santa, porque santo é o seu divino Fundador, bem como santos são o fim e os meios que oferece aos seus fiéis que, chamados pelo baptismo à santidade, são, no entanto, pecadores. É católica, porque é universal na comunhão dos seus fiéis, sem ser de nenhuma nação, cultura ou raça, porque a todas abarca na confissão da única fé. E, por último, é apostólica, porque os seus bispos são sucessores daqueles doze primeiros discípulos de Cristo aos quais foi confiada a plenitude do sacerdócio.

Sendo católica, ou seja universal, a Igreja nunca se identificou com uma pátria, ao contrário do judaísmo, que é essencialmente nacionalista, nem com nenhuma cultura, como o islamismo, que tem uma especial relação com a língua árabe, pelo facto de o seu livro sagrado, o Corão, estar redigido nesse idioma, em que deverá preferencialmente ser lido e meditado, sem que deva ser traduzido.

Mas, apesar de ser universal, a Igreja católica tende a se inculturar, ou seja a adaptar-se às tradições legítimas do país ou região onde realiza a sua acção espiritual, sendo, portanto, portuguesa em Portugal; italiana em Itália, chinesa na China e angolana em Angola. Ao princípio não foi assim, porque os primeiros evangelizadores eram, por regra, missionários estrangeiros, como Paulo o foi em toda a Ásia menor, na Grécia e em Roma. Só num segundo momento foi possível estabelecer uma hierarquia e clero indígenas que, paulatinamente, substituíram a primeira geração de evangelizadores.

Mesmo depois de cristianizados, muitos países continuaram a receber missionários estrangeiros. Por exemplo, na segunda metade do século XX, vários padres holandeses – entre os quais o saudoso Padre Dâmaso – e irlandeses vieram para Portugal e cá se estabeleceram. Mais recentemente, sacerdotes africanos e até indianos têm suprido as carências do clero diocesano, insuficiente para as necessidades pastorais das dioceses portuguesas, nomeadamente do patriarcado de Lisboa. A realidade dos seminários Redemptoris Mater, da responsabilidade das comunidades neo-catecumenais, também veio enriquecer os presbitérios diocesanos com seminaristas oriundos de outros países e culturas que, depois de ordenados presbíteros, permanecem no país onde receberam a sua formação sacerdotal.

Assim sendo, será razoável que alguns desses padres, embora oriundos de outros países, venham a desempenhar funções de responsabilidade na diocese em que trabalham. Por exemplo, o actual reitor da universidade católica de Angola esteve, durante vários anos, à frente da paróquia lisboeta de São Mamede. Com o passar do tempo e a internacionalização do clero diocesano, não será de estranhar que algum padre de origem estrangeira venha a ser nomeado bispo em Portugal. Mas, estarão as nossas comunidades cristãs preparadas para aceitar uma tal eventualidade?

A verdade é que, se acontecer, um tal caso não seria inédito: segundo narram as antigas crónicas, Lisboa já teve um bispo inglês, quando os cruzados anglo-saxónicos ajudaram D. Afonso Henriques a reconquistar a cidade aos mouros. Mas também é certo que, sobretudo em regiões onde o sentimento nacionalista, ou regionalista, é mais forte, a possível nomeação de um bispo que não seja natural dessa terra não seria facilmente aceite. Pense-se, por exemplo, em Estados plurinacionais, como é a vizinha Espanha, onde seria impensável que fosse indigitado para bispo de uma diocese na Biscaia, ou na Catalunha, quem não fosse, respectivamente, basco ou catalão. Em Portugal, muito embora também existam regionalismos, nunca foi imprescindível que o bispo do Porto fosse tripeiro, nem que o arcebispo de Lisboa fosse alfacinha: os cardeais D. Manuel Gonçalves Cerejeira e D. António Ribeiro eram minhotos, sem que essa sua origem tivesse minimamente prejudicado o seu ministério patriarcal.

Contudo, é conveniente que o bispo, que deve conhecer bem as suas ovelhas, proceda, por regra, do clero nacional. Mas convém não esquecer que a Igreja, também a diocesana, é católica, ou seja universal. Quer isto dizer que não é uma Igreja nacional, nem muito menos regional ou provincial. Se, em geral, será razoável que o bispo proceda de um presbitério análogo ao que vai presidir, outras vezes será preferível que tenha outra origem, até porque, como se costuma dizer, santos de casa não fazem milagres. Aliás, era esta a razão por que os chamados ‘juízes de fora’ não eram, como o seu nome indica, da terra onde administravam justiça, porque alguém que fosse natural do lugar não ofereceria as garantias de isenção que se esperava e exigia do magistrado judicial.

Seria lamentável que, por um excesso de nacionalismo, ou um exagerado provincianismo, a Igreja esquecesse que, desde a sua fundação, é católica: o primeiro bispo de Roma era judeu, originário da Terra Santa, e o presente papa é argentino. Sendo o primeiro asiático e sul-americano o actual, nem sequer são europeus e, contudo, ninguém considerou que a sua longínqua origem fosse óbice para o desempenho do seu episcopado romano, ao qual corresponde, por inerência, a jurisdição sobre a Igreja universal.

Também é de saudar que a Igreja seja católica quanto aos seus carismas, desde que aprovados pela suprema autoridade eclesiástica, à qual compete garantir que as diversidades litúrgicas e pastorais não ofendem a comunhão eclesial. Neste sentido, a recente ordenação sacerdotal de um português, membro de um instituto religioso católico ligado à tradição e em perfeita união com a Santa Sé, deve ser vista como um sinal de abertura a outras legítimas sensibilidades litúrgicas e um enriquecimento do presbitério nacional. Não em vão o Papa Francisco é o primeiro jesuíta que é bispo de Roma e, neste sentido, é expressão da universalidade ecuménica da própria Igreja católica, que é una na multiplicidade orgânica dos seus dons.

Nesta aldeia global que é o mundo, a Igreja católica foi, certamente, a primeira experiência de comunhão. Há ainda algumas resistências à catolicidade eclesial, sobretudo onde predomina o clericalismo das ‘capelinhas’, sejam elas conservadoras ou progressistas, ou se olha com desconfiança para os ‘de fora’ do próprio grupo eclesial e se diabolizam outras formas válidas de viver a fé.

A reforma da Igreja em curso deve ser sobretudo uma reforma das mentalidades, para que as igrejas, paroquiais e diocesanas, sejam cada vez mais universais, ou seja católicas, na vivência de uma comunhão eclesial mais inclusiva e fraterna.

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