www.sabado.ptFlash - 13 jul 09:00

Os homens que preferem as loiras

Os homens que preferem as loiras

A conversa guiou-nos ao momento em que ela deixou cair a sentença: desde que é loira os homens reparam mais nela.

Entrei no comboio com o pé direito para equilibrar as forças - tinha o lado esquerdo do peito, vulgar coração, com problemas de género: tanto quanto eu podia auscultar, ele sentia-se uma panela de pressão presa no corpo de um órgão vital. Hoje sei que aquele pé direito deu sorte e que o meu coração está forte. Naquele dia, no entanto, o Intercidades para Faro ia levar-nos até à fronteira com o Algarve para um fim-de-semana que se esperava retemperador. E eu ainda não sabia mas à minha frente ia esta crónica.

Não me lembro do que ela levava vestido, se os mirtilos que comemos como pipocas eram meus ou dela nem se o pica era dos que sorria ou dos que sofria, mas lembro-me que foi na carruagem 21 que a nossa amizade começou. Ela reparou nos meus ténis verdes, eu reparei no cabelo vermelho dela. Falámos de tudo, começando na ponta dos meus atacadores e acabando na ponta dos cabelos dela. Ela, que é daquelas mulheres que parece não precisar da aprovação de ninguém, aprovou o meu gosto para sapatos todo o fim-de-semana. E assim, a pouco e pouco o meu coração perdia a pressa e mandava embora a pressão.

Esta semana combinámos jantar. Quando cheguei ao pé dela vi-a loira. Ela, claro, viu-me as sandálias. Não me lembro quantas cervejas bebi, se as iscas que comemos como bifes do lombo foram pedidas por mim ou por ela, se o empregado era dos que sorria ou dos que sofria, mas lembro-me que a conversa nos guiou até ao momento em que ela deixou cair a sentença: desde que pintou o cabelo os homens reparam mais nela.

Alto, pensei eu: reparam como? Ela não fantasiou: os seus fios de cabelo agora loiros tinham semeado um instinto cortês em todos os homens com quem se cruzava. Era vê-los: todos lhe abriam as portas, a deixavam passar à frente, a olhavam com cuidado, ternura, até desejo - um cortejo de cavalheirismo ou de horrores, dependendo do grau de feminismo e de pólen no ar. Rimos. Depois fechámos o sorriso. E ficámos a pensar naquela conversa de que os homens preferem as loiras. Porque será?

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