expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 13 jul 14:43

Draghi garante que estímulos não acabam e juros descem mais uns pontos

Draghi garante que estímulos não acabam e juros descem mais uns pontos

As atas da última reunião do Banco Central Europeu confirmam a estratégia de prudência anunciada por Draghi em junho e os juros da dívida portuguesa e do resto da zona euro estão a cair esta sexta-feira

Os juros da dívida pública desceram esta sexta-feira no mercado secundário reagindo positivamente à publicação pelo Banco Central Europeu (BCE) das atas da reunião de 14 de junho. No caso das Obrigações do Tesouro português a 10 anos, os juros (yields) desceram para 1,73%, um nível inferior em seis pontos-base ao fecho de junho e mais de meio ponto percentual abaixo do pico do ano em 2,4% em final de maio aquando do contágio italiano.

As atas divulgadas na quinta-feira revelam com clareza o compromisso unânime dos banqueiros centrais do euro com a continuação de uma política de estímulos monetários, apesar da antecipação de que o programa de compra de ativos vai terminar no final do ano. Uma estratégia que tem sido repetidamente afirmada pelo presidente do banco, Mario Draghi.

A própria descontinuação do programa de compra de ativos em dezembro depende da evolução da economia na zona euro, sublinham as atas. Há muitas incertezas que colocam em risco as previsões.

Estímulos pelo tempo que for necessário

Os banqueiros centrais do euro reafirmaram o “compromisso de dar o estímulo monetário [à zona euro] suficiente pelo tempo que for necessário”, lê-se nas atas da reunião realizada em Riga em junho.

Os mercados da dívida têm reagido bem a esse “compromisso” do BCE com a continuação da descida dos juros das obrigações iniciada no final de maio e com taxas pagas já em julho nas emissões de dívida no mercado primário a refletirem essa tendência de queda.

No leilão de dívida realizado esta quarta-feira, o Tesouro português pagou 1,727% na emissão a 10 anos, o que compara favoravelmente com 1,919% em operação similar no início de junho. Naquele prazo de referência, no mercado secundário, no caso de Itália a redução dos juros foi de 10 pontos-base desde final de junho e para Espanha foi de seis pontos-base no mesmo período.

Comunicação para os mercados reflete cautela

Apesar da reunião de junho ter decido antecipar o anúncio do fecho do programa de compra de ativos no final de dezembro, a equipa liderada por Draghi achou “prudente” deixar claro para os mercados que a própria descontinuação do programa está “condicionada pelos dados [económicos] que vierem a receber confirmarem as previsões de inflação a médio prazo”. Tudo está em aberto, apesar da antecipação do encerramento do programa, como havia sublinhado Peter Praet, membro da comissão executiva e economista-chefe do BCE, em entrevista ao Expresso no final de junho, aquando do Fórum anual do banco em Sintra.

Por via das dúvidas sobre a evolução económica na zona euro e global, o BCE procurou uma formulação cautelosa, e encontrou um “equilíbrio” nas palavras, na orientação para os mercados. “A comunicação teve de encontrar um equilíbrio cuidadoso entre antecipar o fim das compras líquidas de ativos até ao final de dezembro de 2018 e ressaltar o compromisso contínuo de fornecer estímulo monetário suficiente pelo tempo que for necessário”, escreve-se nas atas.

Mas terminar as aquisições de ativos – e nomeadamente de obrigações públicas – em dezembro, deixando de aumentar a carteira de títulos, não significa que o BCE se desfaça subitamente do que tem e deixe de intervir no mercado.

Pelo contrário, para acentuar o compromisso com uma política monetária de estímulos, o banco reafirmou a estratégia de reinvestimento das amortizações da carteira de títulos que adquiriu desde o início do programa. Lê-se nas atas agora divulgadas: “Pode salientar-se que a intenção de reinvestir os pagamentos de capital de títulos, aquando da sua maturidade, durante um período de tempo alargado continua a implicar uma presença muito significativa [do BCE] nos mercados obrigacionistas dos sectores privado e público da área do euro”.

Protecionismo é um dos maiores riscos

A “prudência” do BCE quanto ao processo de descontinuação da política de estímulos a partir de janeiro do próximo ano advém da incerteza que paira sobre os mercados devido a “riscos descendentes” (uma expressão que pretende referir tendências negativas) derivados de duas fontes de incerteza – globais e mesmo dentro da Zona Euro.

A nível global, sem referir a expressão guerras comerciais, o BCE sublinha a ameaça “cada vez mais proeminente do protecionismo” com impacto na confiança dos agentes económicos, para além dos efeitos diretos negativos da imposição das taxas alfandegárias.

Sem mencionar as dúvidas sobre o que se vai passar em Itália desde a subida ao poder do governo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga (ex-Liga Norte), o BCE refere incertezas políticas dentro do próprio espaço do euro.

Desaceleração económica é “natural”, mas crescimento próximo de teto estrutural

Os banqueiros centrais discutiram, ainda, a evolução futura da economia no espaço do euro, o que reforça a necessidade de cautela.

Reconheceram a desaceleração da economia de 2018 a 2020, com as previsões, feitas em junho, a apontarem para uma rampa de queda da taxa de crescimento de 2,5% em 2017 para 2,1% em 2018, e uma descida abaixo do limiar dos 2% em 2019 e 2020, com taxas de 1,9% e 1,7% respetivamente. Consideraram a desaceleração como tendo de ser vista “até certo ponto, como um desenvolvimento natural” no quadro de uma expansão económica após muitos anos de crescimento acima do potencial.

No entanto, as atas da reunião de junho revelam uma preocupação: “Um número crescente de países e de setores está a começar a deparar-se com restrições de capacidade [a utilizar] e com escassez de mão-de-obra, implicando um nivelamento ‘estrutural’ do crescimento, o que é visto como diferente de um choque negativo na procura”. Traduzindo, muitas economias do euro poderão estar a chegar a um teto de dinâmica de crescimento.

Recorde-se que, esta quinta-feira, a Comissão Europeia divulgou as suas previsões de verão revendo em baixa o crescimento da zona euro para 2018, reduzindo-o de 2,3% para 2,1%, e mantendo a perspetiva de uma desaceleração ainda maior, para 2%, no próximo ano. Em 2017 cresceu 2,4%. O ‘doente’ da zona euro é claramente Itália com uma previsão de crescimento que cai de 1,5% em 2017, para 1,3% este ano e 1,1% no próximo ano. A previsão de crescimento para a economia portuguesa foi revista em baixa para 2,2% em 2018.

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