rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 13 jul 06:34

​A dependência energética da RFA

​A dependência energética da RFA

A Alemanha não estará tão dependente da Rússia na área energética como Trump quis fazer crer, mas também não deu um exemplo de solidariedade europeia.

A actuação do presidente Trump é altamente criticável e põe em causa a coesão das democracias liberais que existem na Europa e na América do Norte. Mas algumas das suas posições não são originais: eram, também, posições dos antecessores de Trump na Casa Branca – que as expressavam de forma menos desabrida, decerto, mas em substância não eram muito diferentes das que o atual presidente americano exibe.

É o caso da necessidade de os parceiros europeus dos EUA na NATO e o Canadá investirem mais na defesa. Sucessivos presidentes americanos insistiram nesta tecla, com fraco êxito. Ora toda a gente percebe que essa é uma exigência justa, até porque se tornou perigoso a Europa confiar totalmente na protecção militar americana (essa, sim, é uma novidade e bem séria).

Também a crítica que Trump fez à Alemanha de depender demasiado das importações de gás natural russo não é nova. Como é habitual, Trump começou por se enganar (ou mentir) nos n��meros, quando disse que a RFA recebeia da Rússia 60 a 70% da energia que consumia. A verdade é que a RFA recebe da Rússia um pouco mais de 40% do gás natural – e não de toda a energia - que importa, o que é muito menos.

Mas está a ser construído um “pipeline” para transportar gás natural diretamente da Rússia para a Alemanha, através do mar Báltico, que deve entrar em funcionamento em 2020. É o segundo “pipeline” deste tipo. O primeiro foi apoiado pelo antecessor de Merkel, o socialista Gerhard Schroeder, que depois de ser chanceler da RFA foi para administrador da Gazprom (a empresa russa que gere esses “pipelines”). Não foi propriamente um gesto bonito nem tranquilizador, tanto mais que Schroeder se tornou um amigo próximo de Putin.

O novo “pipeline”, chamado “Nord Stream II”, suscitou receios e críticas de países como a Ucrânia e a Polónia, que temem a ameaça de fecho dos “pipelines” de gás natural russo que atravessam o seu território e ficam mais expostos a pressões de Moscovo, através de cortes no abastecimento. E os EUA têm apoiado essas críticas.

A Alemanha não estará tão dependente da Rússia na área energética como Trump quis fazer crer, mas também não deu, neste domínio, um exemplo de solidariedade europeia.

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