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Uma classe política em Estado de Negação

Uma classe política em Estado de Negação

Se é um facto que em Portugal temos diminuído o desemprego, o défice, e melhorado alguns indicadores de reposição de rendimentos, é também factual que no último mês atingimos a capacidade máxima de regeneração dos nossos ecossistemas.

Economia, mercado, mais economia e alguma saúde. Foram estes os principais temas abordados no tão aguardado Debate do Estado da Nação que teve lugar esta sexta-feira. Pessoalmente, não me revejo neste discurso puramente economicista e puramente numérico: foram imensas as percentagens e os valores absolutos apresentados em debate. Mas o PAN também apresentou os seus números.

Se todos os países tivessem os níveis de consumo de Portugal, precisaríamos de 2 planetas. Estes dados são claros e preocupantes pois estamos todos a viver a crédito. Sim, em Portugal vivemos acima das capacidades do planeta.

Minhas caras, meus caros: estamos perante uma classe política em claro Estado de Negação. Negamos que continuamos a fazer crescer a economia à custa do bem mais precioso que temos: o Ambiente. Todos os sistemas de águas subterrâneas do país estão poluídos devido aos efeitos da agropecuária intensiva e o Governo e o Parlamento têm andado de mãos dadas, incentivando e apoiando financeiramente estes sectores, porque para estes os resultados do produtivismo sobrepõem-se aos valores ambientais. A Confederação dos Agricultores de Portugal manda, o parlamento obedece, o Ministro do Ambiente não se opõe, e o Ministro das Finanças passa o cheque: eis a equação perfeita da Política Agrícola Nacional.

Pelo contrário, a Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica apenas existe no papel, sem qualquer apoio para a sua implementação. Um paradoxo, na medida em que o país continua a não investir em formas sustentáveis de produção de alimentos saudáveis, uma fileira em franco crescimento em toda a Europa que Portugal não está a acompanhar.

Este Estado de Negação reflecte-se também no que diz respeito à política energética. É inegável que houve uma mudança no discurso político. Hoje, o Governo assume a contradição de querer descarbonizar a economia e cumprir as metas de Paris, explorando petróleo na costa portuguesa, ignorando os apelos das populações, dos municípios e da comunidade científica para travar esta exploração.

Também no Turismo se vive o Estado de Negação: queremos crescer a todo o custo. E os resultados são a gentrificação das cidades, o brutal aumento das rendas de quem nasceu e sempre viveu nos bairros e a massificação insustentável da oferta turística.

E porque a memória não é curta, é impossível não recordar os incêndios do ano passado. Aqui, o problema de raiz está na forma como olhamos para floresta: apenas como um mero bem económico em vez de a encararmos como um activo ecológico.

Mesmo a nível macroeconómico e financeiro continuamos em Estado de Negação. Em vez de optarmos por iniciar o processo de negociação da dívida externa, libertando assim o país do peso dos juros e acrescentando liquidez à economia, aguardamos o avale dos omniscientes mercados e da omnipresente burocracia Europeia. Neste impasse, o Governo continua com dificuldades em financiar o Serviço Nacional de Saúde, em concretizar o descongelamento na progressão das carreiras dos docentes e em priorizar, de uma vez por todas, o sector da Cultura em Portugal.

No final, verificamos que as dificuldades que Portugal enfrenta são sobretudo de natureza ecológica. A Humanidade representa apenas 0,01% da biodiversidade mundial. E, neste período a que muitos cientistas designam por Antropoceno, o Ser Humano já extinguiu ¾ das espécies de mamíferos e metade da biodiversidade vegetal do mundo. E o nosso país está a contribuir demasiado para isso.

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