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O mundo é o estreito de Gibraltar

O mundo é o estreito de Gibraltar

Em Itália, atiçam-lhes cães nas praias. São alvos da raiva e da chacota colectiva. Em Portugal são fantasmas, totalmente ausentes do debate público. Todos os dias o estreito é feito de camadas de sobrevivência e as praias do lado de cá corporizam uma sociedade e um mundo totalmente inacessíveis aos que vêm do outro lado do grande mar.

Leonardo Sciascia, grande escritor siciliano, ajudou-nos a entender como o nosso pequeno mundo, por vezes, comporta uma ideia de universalidade através de valores, factos e ideias que não têm paternidade identitária na perspectiva de um regionalismo ou de um nacionalismo. Sciascia proclamou no essencial da sua obra, devotada à Sicília, ao que chamava sicilianidade e às luzes do racionalismo, que todo o mundo está representado na sua ilha e na forma de ser siciliano. Na relação que tudo isso tem com o poder acertou. O exercício do poder a partir do abuso faz parte da condição humana e não apenas dos sicilianos. A luta contra esse abuso a partir da ideia de cidadania também. Um e outro são faces do localismo identitário sobre o ser siciliano que Sciascia transformou numa metáfora universal sobre o indivíduo e o poder.

Por estes dias, como há demasiados anos, tanto o localismo como a universalidade das propostas estão como nunca no estreito de Gibraltar e no Mediterrâneo. Ambos são palco da maior tragédia contemporânea representada pela fractura Norte/Sul, há décadas instalada naquele pequeno ponto geográfico, sem que as potências mundiais sejam capazes de encontrar respostas.

O localismo, aliás, é diabólico nestes meses estivais. Famílias de toda a Europa, ricos de todo o mundo percorrem aquelas águas em busca de tudo o que delas brota e o dinheiro pode pagar. O turismo é a indústria que dita as cartas e define uma cultura de bem-estar e opulência material, totalmente indiferente ao drama que está no mar ou que se cruza com eles nas praias, corporizado nos homens que conseguiram vencer a pobreza total do lado de lá da fronteira e hoje vivem apenas na pobreza. Homens que conseguiram vencer o mar, os traficantes e as muitas burocracias do mundo dos indocumentados e vendem toalhas de banho e camisolas nas praias. Primeiro, vemos os barcos de pesca que todas a noites fazem a faina que garante o prazer das mesas ricas do turismo. Depois os petroleiros e grandes cargueiros que asseguram o consumo cruzado de Ocidente e Oriente. Atrás deles, estão os caminhos do tráfico de drogas que, por estes meses, trabalham como nunca para alimentar o hedonismo de Ibiza, Palma de Maiorca e todos os fios dos horizontes abastados que o Mediterrâneo comporta. Na última camada dessa imensa e chorosa cebola estão os rostos invisíveis desse incessante tráfego marítimo que já não são apenas clandestinos perante a lei, como os que traficam drogas, mas perante a humanidade que, em interpretação livre de Scott Fitzgerald, passa pelas praias do estreito e do Mare Nostrum. Esse mundo que pulula por essas praias - de Cádis em diante até ao Mediterrâneo - está-se nas tintas para os homens, mulheres e crianças que tentam atravessar o estreito em busca de uma vida. Mas o que está de Cádis para cá também.

As pateras, urnas ambulantes que vogam ao sabor das correntes, são invisíveis para todas essas consciências, como são para pequenos mundos políticos como o nosso, que se limita a um papel de espectador no palco das grandes cimeiras europeias sem alma, sem decisão, sem coragem de travar os populismos emergentes por todo o lado. A coragem, essa, está noutro lado, também no meio do mar, nos barcos que fazem chegar aos imigrantes laivos de uma humanidade que ainda persiste. Não está nas mesas dos chiringuitos de praia nem das grandes cimeiras.

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