visao.sapo.ptMafalda Anjos - 12 jul 12:08

O diabo sai da garrafa no outono

O diabo sai da garrafa no outono

Depois de se vender a ideia de paraíso, como é que agora se vai explicar que afinal as nuvens nunca se foram embora e que a folga orçamental teve muito de acaso conjuntural?

Gozem bem as férias que em setembro vem aí o diabo”, terá dito por esta altura, há dois anos, Pedro Passos Coelho. Aproveitando a deixa magnífica, António Costa apressou-se logo em afirmar, de sorriso na cara, que “felizmente o diabo já lá vai”, confiante no virar definitivo da página da austeridade, ou disso fazendo--nos crer. Durante dois anos, fez bem o papel de declarar que o papão estava bem longe e que o bicho mau não nos ia comer. Estávamos a salvo de entidades que nos levariam para dificuldades e bancarrota. Tão bem feito foi o papel, que quase todos se convenceram por cá de que a coisa não dava apenas para safar durante uns tempos, mas sim que isto ia, afinal, extraordinariamente bem – um mar de rosas económico e orçamental, com milhões de turistas e muito investimento, onde nos iríamos banhar alegre e eternamente. É que grande parte destes bons resultados – um défice de 0,9% do PIB, um desemprego em mínimos desde 2008 e previsões de chegada a 2020 com excedentes orçamentais estruturais 
– foi conseguida por influência do ciclo económico benevolente, mais do que pelos cortes que o Governo fez ou pelo que deixou de gastar. Mas promover isso seria desvirtuar méritos próprios e o discurso do “milagre económico” foi empolado, dentro e fora, como se não houvesse amanhã e a dívida pública não continuasse a tocar máximos históricos 
– 250,3 mil milhões de euros.

Faz-me lembrar a velha lenda brasileira do Familiá, o diabinho familiar que vive dentro de uma garrafa e atende ao dono com riquezas quando este abre a garrafa e lhe pede desejos. Lá pelo outono – quando apertarem as negociações, para convencer agora a opinião pública e a esquerda de que o dinheiro não dá para tudo –, vai mesmo ser preciso tirar o diabo da garrafa. E, já agora, pedir-lhe um desejo bem chorudo.

(Editorial da VISÃO 1323, de 12 de julho de 2018)

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