observador.ptRui Ramos - 15 jun 02:31

Das “fake news” aos “fake comments”

Das “fake news” aos “fake comments”

A presidência de Trump teve o efeito de trazer para a luz do dia o sectarismo e a vulgaridade de uma elite despeitada por os cidadãos americanos terem votado contra as suas instruções.

A primeira regra do jornalismo actual é esta: seja o que for que o presidente americano Donald Trump diga ou faça, o contrário é que está certo – seja o que, em cada momento, for o contrário.

Há uns meses, Trump ameaçava o ditador da Coreia do Norte com um botão nuclear maior do que o dele. Que louco, que criminoso! Não sabia ele que o mais importante, numa situação de confronto, é continuar a conversar e a negociar, mesmo que os acordos em cima da mesa não sejam muito bons? Que é um perigo encurralar Kim Jong-un? Que desconsiderá-lo só por ser um ditador é até ilegítimo, porque não compete a nenhum país escolher os líderes e os regimes dos países com quem tem de se entender?

Mas isto, como já disse, era há uns meses. Porque na terça feira, Trump viajou até Singapura para conversar, negociar e tirar a foto da praxe com o ditador norte-coreano. Ah, o que foste fazer, grande louco e criminoso! Não sabe Trump que é um perigo dar a Kim Jong-un qualquer destaque? Que nunca devia ter aceitado conversar e negociar, a não ser sobre um compromisso firme e claro? E que vergonha encontrar-se com um ditador, quando devia estar a fazer tudo para mudar o regime!

A partir daqui, posso antecipar os comentários da imprensa à eventual notícia de que, afinal, o entendimento desta semana não deu frutos: como é que foi possível deixar escapar esta grande oportunidade para resolver a tensão na Península da Coreia? Não percebeu Trump a ocasião histórica criada pela disponibilidade de Kim Jong-un para se encontrar com ele? Que louco, que criminoso!

Tínhamos as notícias falsas. Agora temos isto: os comentários falsos, isto é, comentários que não têm nenhum fundamento, a não ser a má-vontade. A imprensa americana e internacional não se dá conta de que, na sua sanha de recusar a Trump qualquer razão ou legitimidade, está a reduzir a análise a uma birra incoerente — se Trump não conversa com Kim Jong-un, devia conversar; se conversa, não devia conversar. Há quem, dramaticamente, ache que o jornalismo corre o risco de morrer com Trump. Steven Spielberg até fez um filme por causa disso (The Post). Mas se esse receio tem alguma razão de ser, é porque demasiados jornalistas abandonaram qualquer pretensão de objectividade a favor de uma lógica de guerra civil, que os tornou uma espécie de espelhos do que eles próprios dizem ser Trump. Nada há de mais parecido com o trumpismo do que o anti-trumpismo.

Os ícones das letras e das artes que outrora era suposto representarem a opinião bem pensante escorregam alegremente pela mesma ladeira. Há dias, foi o actor Robert de Niro quem, numa cerimónia pública, resolveu berrar duas vezes “Fuck Trump!” Mas não era Trump o único responsável por introduzir a ordinarice na vida pública? Talvez a presidência de Trump tenha tido o efeito de trazer para a luz do dia o sectarismo e a vulgaridade de uma elite despeitada por os cidadãos americanos terem votado contra as suas instruções. Afinal, quem é que se dá mal com a democracia?

Há muito que questionar na política americana. Trump decidiu fazer de conta que os EUA não têm amigos, mas apenas interesses, e que o que importa não é a estabilidade de alianças históricas, mas a oportunidade de acordos vantajosos. É uma revolução inquietante, não porque seja agora histrionicamente protagonizada por Trump, mas porque prolonga tendências já visíveis em Barack Obama. Vão os EUA desistir do tipo de liderança a que habituaram o mundo desde 1945? Infelizmente, a comunicação social conseguiu criar uma cortina de fumo que impede qualquer discussão. Desconfio que Trump agradece.

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