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Irão. Campeã indiana de xadrez abandona torneio por causa de lei do “hijab”

Irão. Campeã indiana de xadrez abandona torneio por causa de lei do “hijab”

Esta não é a primeira vez que uma atleta abandona uma competição devido à lei que obriga ao uso do véu islâmico. Em 2016, a atiradora indiana Heena Sidhu e a jogadora de xadrez americana Nazi Paikidze recusaram-se a participar em torneios no Irão por considerarem "discriminatório" e "inaceitável" o uso do hijab.

A jogadora de xadrez indiana Soumya Swaminathan anunciou que vai abandonar o campeonato asiático de xadrez, a realizar-se em Julho no Irão, como forma de protesto contra a lei sobre o uso obrigatório do hijab (véu islâmico).

Soumya Swaminathan, que ocupa actualmente o quinto lugar no ranking da Índia, preparava-se para a competição internacional quando soube que o torneio iria mudar de lugar e seria realizado no Irão, em vez de no Bangladesh, país onde estava previsto. Assim que soube da mudança de planos, a indiana, de 29 anos, anunciou que iria abandonar a competição por causa da lei que obriga as mulheres participantes ao uso do véu islâmico. "Assim que as novas datas e o novo local surgiram, eu retirei-me", explicou Swaminathan à imprensa local, segundo a estação britânica BBC News.

 "A lei iraniana [do uso] do véu obrigatório viola directamente os meus direitos humanos básicos, incluindo o meu direito à liberdade de expressão e o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião", escreveu Swaminathan numa publicação no Facebook. Por isso, afirma que a única maneira de proteger os seus direitos é não comparecer no torneio, que se irá realizar entre 26 de Julho e 4 de Agosto.

A ex-campeã mundial júnior feminina de xadrez assegurou que os jogadores em competição estão dispostos a ajustarem-se às regras, mas que "não há lugar para um código obrigatório de vestuário religioso no desporto", tendo-se mostrado "desapontada por ver que os direitos e o bem-estar dos jogadores têm tão pouca importância" durante a organização dos campeonatos oficiais. "Enquanto nós, desportistas, estamos dispostos a fazer vários ajustes em prol do nosso desporto, dando-lhe sempre prioridade na nossa vida, algumas coisas simplesmente não podem ser comprometidas", acrescentou na mesma publicação no Facebook.

O hijab como símbolo de protesto 

Swaminathan não é a primeira atleta indiana a desistir de um torneio no Irão por causa da lei do véu islâmico. Em 2016, a atiradora profissional Heena Sidhu abandonou o campeonato asiático de tiro, realizado em Teerão, por considerar aquela lei discriminatória e, no mesmo ano, a jogadora de xadrez americana Nazi Paikidze fez manchetes ao recursar-se a participar no campeonato mundial feminino no Irão, afirmando que é "absolutamente inaceitável receber um dos mais importantes torneios femininos num local onde as mulheres são obrigadas a cobrir-se com um hijab". Já em 2017, a jogadora de xadrez iraniana Dorsa Derakhshani mudou-se para os Estados Unidos, depois de ter sido impedida de entrar na equipa da sua cidade natal por se recusar a usar o hijab durante uma competição em Gibraltar. "É bom e pacífico jogar por uma federação onde sou bem recebida e apoiada", disse Derakhshani em declarações à Federação de Xadrez dos Estados Unidos, de acordo com a agência Reuters.

A decisão de Soumya Swaminathan foi elogiada por vários atletas e activistas nas redes sociais, incluindo o jogador de críquete indiano Mohammad Kaif: "Tiremos o chapéu a Soumya Swaminathan por desistir deste evento no Irão. Não deveria haver espaço para códigos de vestuário religiosos a serem impostos aos jogadores. Uma nação anfitriã não deve ter permissão para acolher tais eventos internacionais se não tiver em consideração os direitos humanos básicos", escreveu Kaif no Twitter.

No início deste ano, várias mulheres manifestaram-se no Irão contra o uso do lenço islâmico. Os protestos começaram com uma mulher que subiu a uma caixa de electricidade e retirou o seu hijab – o que se tornou um símbolo do descontentamento naquele país, imitado por várias mulheres, resultando na detenção de 29 mulheres pelas autoridades iranianas

Texto editado por Maria Paula Barreiros

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