observador.ptBruno Vieira Amaral - 14 jun 20:59

Caviar em pratos de plástico

Caviar em pratos de plástico

Este poderá muito bem ser o melhor Mundial de sempre disputado na Idade Média. E o jogo inaugural soou mais a encontro bilateral numa cimeira da OPEP do que a um desafio do Campeonato do Mundo.

A Rússia é um país curioso. Alguns meses atrás, os especialistas alertavam não para a ameaça terrorista, mas para uma praga bíblica de gafanhotos prestes a assolar os relvados russos. No ano passado, foram emitidos avisos para que casais homossexuais em visita ao país não se excedessem na prodigalização pública de carícias sob pena de alguns cidadãos russos mais antiquados demonstrarem fisicamente a sua indignação, com provável recurso a foices, forquilhas e balalaikas.

Agora, em vésperas de Mundial, foi a vez da senhora Tamara Pletnyova alertar as suas concidadãs para evitarem práticas sexuais com estrangeiros de outras raças. Note-se que, se analisado ao pormenor, o conselho não incide sobre todas as práticas sexuais, mas apenas sobre as canónicas de que podem resultar gravidezes imprevistas. Isto porque a preocupação da deputada Tamara não é tanto com as cidadãs russas que, aproveitando a presença de forasteiros, procurem variar a ementa sexual, mas com os eventuais filhos nascidos dessas relações híbridas. Essas crianças, denunciadas pela pigmentação ou, no caso de progenitores brasileiros, por um invulgar talento futebolístico, seriam discriminadas nas escolas e nas ruas, garante Tamara.

O caso tem um célebre precedente histórico. Em 1980, os Jogos Olímpicos de Moscovo, apesar do boicote dos Estados Unidos e de muitos dos seus aliados, proporcionaram um salutar encontro de culturas e um intercâmbio genético que deu origem a uma geração de russos com meia pinta de chamacos habaneros, numa espécie de negativo d’ A Cidade dos Malditos. Com os filhos nos braços e os amantes, não obstante todas as comodidades oferecidas pelo comunismo soviético, regressados às respetivas pátrias, as mães solteiras foram vítimas da intolerância dos vizinhos e as crianças, claro, alvo da violenta simpatia dos seus contemporâneos.

Também curioso é que, ao contrário do que aconteceu no último Mundial, desta vez não se tenha ouvido falar em atrasos na construção dos estádios. Juntem-se a todos estes ingredientes – pragas de gafanhotos, homofobia, os perigos da miscigenação – a aptidão dos espiões russos para lidar com matérias radioativas e a afirmação de Miguel Sousa Tavares de que a Rússia, ao contrário do que julga quem nunca a visitou, é um país extraordinariamente desenvolvido e ficamos com a certeza de que este poderá muito bem ser o melhor Mundial de sempre disputado na Idade Média. Não é por isso de estranhar que a FIFA, essa obscura organização, tenha mexido os cordelinhos para que o primeiro jogo fosse um condizente Rússia-Arábia Saudita. Os jogadores de ambas as seleções devem ter sido devidamente instruídos pelas brigadas dos costumes e da decência para festejarem os golos da forma mais heterossexual possível, de preferência com másculas palmadas nas costas e incentivos viris à distância.

Se o jogo inaugural habitualmente já é o mais fastidioso e desinteressante de todos, suplantando até, na minha opinião, o de atribuição do 3º e 4º lugar – que tem sempre o valor antropológico de observar 22 jogadores a destilarem da profunda desmotivação e tristeza umas gotinhas de espírito competitivo – o que dizer quando esse jogo inaugural soa mais a um encontro bilateral no âmbito de uma cimeira da OPEP do que a um desafio do campeonato do mundo? Vi o jogo por duas únicas razões: para rever o mítico Juan Antonio Pizzi e o seu cabelo de dançarino de tango agora generosamente subsidiado pelos petro-dólares árabes e com a esperança que, no final, os capitães das equipas anunciassem a descida do preço do barril de crude. Diga-se que o jogo esteve à altura das expetativas: foi paupérrimo. Diverti-me mais há uns meses nas bancadas despidas do Estádio Alfredo da Silva a assistir a um Fabril-Moitense. O melhor que aconteceu à Rússia foi a lesão da estrela Alan Dzagoev, um daqueles jogadores que envelhecem a carregar o estatuto de eterna promessa. Entrou Denis Cheryshev que, contrariando o guião previamente definido, acabou por marcar dois golos “de belo efeito”. Se tivermos em conta o nível das duas seleções, podemos dizer que as ações de Cheryshev foram o equivalente a servir caviar em pratos de plástico. Putin terá sorrido.

Bruno Vieira Amaral assina esta crónica todos os dias durante o Mundial 2018

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