www.sabado.ptFlash - 14 jun 03:15

António Costa não é Otelo

António Costa não é Otelo

Por muito que alguns analistas políticos tentem fazer de António Costa um dos maiores, quiçá mesmo o melhor de todos, políticos da sua geração, elogiando-lhe a capacidade para negociar e fazer acordos, certo é que a tal geringonça, por si materializada em 2015, chegará ao fim. E talvez da pior forma.

A única pessoa, pelo menos com projecção pública, que até hoje conseguiu manter dois relacionamentos na melhor das tranquilidades é Otelo Saraiva de Carvalho. Paulo Moura, o seu biógrafo, contou-nos isso mesmo no livro: "Sente-se bem em família. Tanto, que tem duas. Casou cedo, com uma colega de liceu. Mais tarde, na prisão, teve outro amor. Não foi capaz de abandonar a primeira mulher, nem a segunda." A leitura do livro ensina-nos que, com amor e alguma disciplina militar, o capitão de Abril tem conseguido o equilíbrio, aparentemente perfeito, entre pernoitar em duas casas sem que uma delas exija mais do que isso ou que fique insatisfeita com a segunda relação.

Por muito que alguns analistas políticos tentem fazer de António Costa um dos maiores, quiçá mesmo o melhor de todos, políticos da sua geração, elogiando-lhe a capacidade para negociar e fazer acordos, certo é que a tal "geringonça", por si materializada em 2015, chegará ao fim. E talvez da pior forma. Simplesmente, porque, por muito que nos tentem convencer do contrário, sobretudo com o slogan das "esquerdas unidas", dificilmente o aparelho socialista aceitará partilhar o poder nas próximas eleições quando este cheira a absoluto.

Enquanto os tais analistas andaram entretidos a reflectir se o último congresso do PS serviria para colocar o partido mais à esquerda ou mais à direita, os vários recados passados na reunião ao líder passaram-lhes ao lado. Comentador que é comentador apenas analisa as grandes questões, aquelas mais profundas, deixando de lado os discursos dos militantes, uns mais, outros menos conhecidos, que reclamaram a António Costa uma maioria absoluta para as eleições de 2019. Há um certo PS que sempre teve uma visão instrumental dos partidos mais à esquerda: são parceiros enquanto der jeito.

António Costa está, desta forma, encurralado perante o seu próprio partido e os parceiros da esquerda, que começam a dar sinais de impaciência. O PCP já começou a mobilizar o "adormecido" Mário Nogueira, assim como a principal central sindical do País, a CGTP. Os professores já ameaçam com greves aos exames ou às reuniões de avaliações. Arménio Carlos já começou a paralisar a CP e a levar milhares de pessoas às ruas de Lisboa. Por sua vez, o Bloco de Esquerda, na falta de causas fracturantes para se manter vivo (deixando até fugir a liderança do debate sobre a eutanásia para o PS), terá de colocar pressão para o próximo orçamento do Estado, tentando, aqui e ali, reivindicar vitórias? E quais as possíveis? O descongelamento das carreiras dos funcionários públicos está, como é óbvio, à cabeça. O BE já avisou que a negociação para o próximo orçamento será mais "tensa". Resta saber até onde está o Bloco disposto a aumentar a tensão, tendo em conta que, em 2019, teremos eleições legislativas, autárquicas e europeias.

Para contentar os parceiros de esquerda, António Costa terá de mandar às urtigas as exigências do défice e obrigar Mário Centeno a disponibilizar os tais 600 milhões de euros que o ministro das Finanças afirma não ter para os professores. Sendo certo que, a seguir a esta classe profissional, se seguirão outras a reivindicar, como os polícias, os militares, os juízes, todos com as respectivas carreiras congeladas. Costa prometeu muito e a muita gente ao mesmo tempo.

Sim, isto tem tudo para não acabar bem, com a esquerda a sair fracturada e traumatizada para um qualquer futuro entendimento. A questão é saber se, a médio prazo, o que é que o BE e o PCP consideram ser o mais importante: o regresso da direita ao poder ou o caminho para a irrelevância, dado que os anos encostados ao poder retiraram-lhes a capacidade de protesto.

O irónico da solução governativa é que ela pode confirmar a profecia de Marx, mas do lado contrário ao idealizado pelo teórico: a "geringonça" pode acabar por produzir os coveiros da esquerda em Portugal.

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