www.vidaeconomica.ptSusana Almeida - 14 jun 20:41

“Made in Portugal”

“Made in Portugal”

Por força das funções que exerço na “ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal”, sou chamado, permanentemente, a realizar conferências e palestras, no país e em todo o mundo, aliás, cada vez mais por todo o mundo.
Cada ano que passa, numa conta por defeito, realizo mais de 60 intervenções – mais do que uma por semana em média -, para o mais variado tipo de audiências, sejam elas plateias escolares, de todas as idades, até à delegação do FMI ou a eurodeputados em Bruxelas, em que sou solicitado a contar o caso de sucesso que foi – e está a ser – a Indústria Têxtil e Vestuário portuguesa, a sua história de recuperação e ressurgimento, após um período em que era dada como perdida, vítima da sua obsolescência, baixa intensidade tecnológica e capacitação dos seus profissionais, como algumas luminárias da nossa classe política, dos media e “opinion makers” de ocasião, gostavam de prognosticar.
Felizmente, todos errados, embora nenhum com a humildade de reconhecer que errou.
Tal como eu, outros profissionais, dos mais variados sectores, realizam o mesmo exercício de doutrinação sobre a nova realidade das suas indústrias, que têm em comum a excelência industrial, a incorporação do conhecimento e inovação tecnológica, o design e criatividade, a modernidade da gestão e da logística associadas, revelando ao mundo um país mais moderno, mais aberto, mais tecnológico e mais internacional, afastando de vez o estigma, muitas vezes injusto, de uma geografia de origem que se caracterizava por baixos salários e simples pela venda de capacidades produtivas ou de minutos de fabrico, sem poder almejar a discutir valor e margens mais interessantes.
É certo que as circunstâncias da história, de certos momentos da nossa história, assim definiram a reputação, pois não tínhamos outros argumentos nem sequer motivação para os alterar, melhorar os nossos desempenhos e posicionamento.
Contudo, há uma lição que podemos tirar das últimas décadas e do progresso que a generalidade das atividades industriais realizaram no nosso país: ao contrário do que a doutrina oficial promovia e na qual foram gastos abundantes recursos, o “made in Portugal” não se fez por vontade administrativa, de cima para baixo, e muito menos por decreto, mesmo que “regado com milhões” em publicidade e marketing, em campanhas que nada produziram pois nelas ninguém acreditava.
O “made in Portugal”, de que hoje nos orgulhamos, tal como os italianos há duas ou três décadas atrás, quando atingiram igual nível de reconhecimento pela “performance” da sua indústria transformadora, é uma feliz e virtuosa combinação de engenharia do produto, “design thinking”, qualidade produtiva, respeito pelos valores da sustentabilidade ambiental e social, serviço ao cliente e logística avançada, que consegue chegar a toda a parte do mundo, mas que foi obra, sobretudo, do trabalho esforçado e discreto de milhares de empresas, que somando os seus êxitos, contribuíram para uma imagem colectiva prestigiada e autêntica. De baixo para cima, como sempre advogamos aos decisores políticos, os quais, na maioria das vezes, no alto da sua arrogância e do autismo que o conforto dos gabinetes de Lisboa tornam ainda mais patológicos, sempre recusaram aceitar e corresponder.
Quando a indústria têxtil e vestuário portuguesa enfrentou a sua maior crise, na primeira década deste século, como outras fileiras industriais igualmente sofreram, antes ou depois, a resposta que as empresas deram, coordenadas estrategicamente pelas organizações que as representam e prestam serviços de apoio, como foi é o caso da ATP, da ASM – Associação Selectiva Moda (feiras de moda) e do CITEVE (centro tecnológico), foi de intensificar a mudança, ajudar a diversificar e a introduzir valor nos produtos e serviços, ao mesmo tempo que se promovia a expansão internacional, para os mercados tradicionais e emergentes, alargando igualmente a base exportadora do setor, trazendo para o negócio internacional empresas que nunca pensaram poder estar presentes em mercados como a China, Japão, Rússia, Coreia do Sul ou Colômbia, entre muitos outros.
Estes exemplos, feitos de tangível realidade, de ululantes evidências, deveriam inspirar quem governa e projeta para aquilo que é crucial e que faz sentido, alocando os recursos sempre escassos onde eles são mais reprodutivos, colocando em quem deu provas históricas de sucesso a missão de continuar os investimentos, por serem mais confiáveis, não se perdendo em experiências, em desvios tantas vezes de inspiração exclusivamente de política oportunista, como, infelizmente, poderá estar já a desenhar-se para o próximo Quadro Comunitário de Apoio, receando-se que neste venha a ser apenas o Estado o grande beneficiário, única e exclusivamente para perpetuar as suas ineficiências.
O “made in Portugal” é resultado da sociedade civil portuguesa e da sua economia real, não de políticas públicas de promoção, que mais não fizeram que desbaratar recursos, sem resultados e sem glória.
Já deveríamos ter aprendido, mas, infelizmente, a experiência diz-me que vamos ter mais do mesmo nos próximos dez anos, independentemente de quem nos governar, obrigando-nos a todos que fazem a economia real não só a continuar a suportar estoicamente a indiferença – quando não mesmo o desprezo – que lhes é votada, mas sustentar o país, que aceita sempre de bom grado este vital contributo, apesar de ser sempre relutante em o reconhecer.
1
1