observador.ptobservador.pt - 14 jun 20:12

A carta de Battaglia. Ataques “foram incentivados” por Bruno de Carvalho

A carta de Battaglia. Ataques “foram incentivados” por Bruno de Carvalho

Jogador argentino diz não ter condições psicológicas para continuar em Alvalade. E nota uma série de episódios anormais que sugerem intervenção da direção no episódio de Alcochete.

Battaglia lança fortes suspeitas sobre a intervenção de responsáveis do Sporting no ataque aos jogadores e à equipa técnica, a 15 de maio, na Academia de Alcochete. Na carta de rescisão que enviou para Alvalade, e a que o Observador teve acesso, o atleta recorda a postura de Bruno de Carvalho nos dias que antecederam a final da Taça e as mudanças repentinas. Os adeptos, diz, foram “incentivados pelo presidente do clube” a concretizar as agressões à equipa.

O documento assinado por Battaglia surge em tom próprio, divergindo da “minuta” comum que Bruno de Carvalho diz pautar todas as cartas de rescisão que chegaram ao clube de Alvalade até ao momento. Ali, o jogador argentino recorda os vários momentos em que o presidente do clube veio a público para tomar posições duras contra a equipa, e revela que esta alertou Bruno de Carvalho para o impacto que as suas tomadas de posição provocavam nos adeptos.

Numa reunião entre Rui Patrício e o presidente do clube, ficaram claros os receios da equipa:”O capitão de equipa informou-o [ao presidente do Conselho Diretivo] de que as publicações, como aquela que tinha sido feita por ele no Facebook”, em que apelidava os jogadores de “mimados” e anunciava uma suspensão coletiva, “provocavam no público uma atitude violenta contra os jogadores”.

Nesse momento, já a relação com o presidente do clube tinha esfriado. É isso que nota a passagem da carta em que Battaglia recua a meio da época desportiva para dar conta das exigências de Bruno de Carvalho aos jogadores. “Desde meados da temporada, o presidente do clube começou a fazer uma pressão inusitada sobre a equipa com a exigência de obter resultados desportivos”, sendo que o primeiro momento de choque aberto surge como consequência ao episódio do “coração”.

O presidente pediu aos jogadores que fizessem o gesto antes do início de uma partida e, como isso não aconteceu — “simplesmente por esquecimento e distração” — foram alvo de processos disciplinares.

Depois disso, veio o pedido de justificações dos adeptos, no aeroporto de Lisboa. Nesse episódio, Battaglia interveio diretamente para evitar uma tentativa de agressão ao compatriota Acuña. “Inclusive, o pessoal de segurança do aeroporto impediu que o grupo me agredisse fisicamente, tudo isso diante da equipa e do representante”, refere a carta enviada ao clube.

Depois disso, o ataque em Alcochete. Nesse ponto, Battaglia destaca uma série de acontecimentos que fugiam ao habitual e que reforçam a ideia de que havia conhecimento em Alvalade, ao mais alto nível, daquilo que acabaria por acontecer aos jogadores.

O primeiro acontecimento coincide com a véspera das agressões. Numa reunião a 14 de maio, com o presidente, diretores do clube e o “representante da equia”, Bruno de Carvalho pergunta se os jogadores estariam em condições de disputar a final da Taça de Portugal, “acontecesse o que acontecesse”. No final desse encontro, a primeira mudança: o treino seguinte seria antecipado, ficando marcado logo para o dia seguinte.

Depois, os muitos sinais. “Ao chegar ao centro de treino, naquele dia, o representante da equipa, que estava sempre presente, não se encontrava no local, nem mesmo outros dirigentes estavam lá. Inclusive, o treino da equipa feminina marcado para aquele dia tinha sido suspenso de forma imprevista”, diz Battaglia.

As agressões acontecem nessa tarde. “É inexplicável como 45 pessoas entram sem obstáculos e vão para o balneário, justamente no momento em que os jogadores estão lá, e sem freio agridem e ameaçam os jogadores brutalmente”, refere a carta do argentino.

É realmente estranho que, naquele dia, de treino antecipado, não houvesse dirigentes nem segurança alguma [em Alcochete], nem mesmo qualquer pessoa no local”, nota o jogador no documento que formaliza a rescisão do contrato.

A seguir à invasão da Academia, os jogadores apresentaram queixas na GNR do Montijo. E, no fim da linha, as cartas de rescisão — nove, até ao momento –, como a que o argetino fez agora chegar a Alvalade. “Após o inconveniente, não recebemos nenhum apoio por parte do clube”, acusa.

A equipa ainda ponderou não subir ao relvado do Estádio Nacional para jogar a final da Taça. “Na verdade, o estado de espírito do plantel indicava que não deveríamos jogar, já que não estávamos em condições anímicas”, assume. Mas a decisão foi representar o clube — “para não piorar a situação”.

De férias, depois da derrota no Jamor, Battaglia ainda ponderou se deveria ou não avançar com a rescisão. “Desde o momento da minha chegada à Argentina, tirei alguns dias para refletir e avaliar tudo o que aconteceu no clube nos últimos tempos e o modo como esses factos me tinham atingido a título pessoal”, confessa. Chegou, mesmo, a ter acompanhamento “psicológico antes de tomar uma decisão”. Mas já só admitia a saída. “Cheguei à conclusão de que me é impossível continuar com a relação de trabalho e voltar ao clube, tendo em conta os factos ocorridos”, conclui.

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