visao.sapo.ptCarmo Machado - 14 jun 09:27

Quando as aulas chegam ao fim

Quando as aulas chegam ao fim

Só lá para agosto, nos primeiros dias do mês, quando finalmente entregar a correção dos exames nacionais de segunda época, poderei, como disse o nosso Eça, fazer essa coisa estúpida e sempre eficaz que se chama distrair

Parece que nunca mais chegamos ao fim, em janeiro o final do ano parece uma miragem, as queixas e o cansaço acumulam-se dentro e fora de nós e depois, de repente, sem nos apercebermos, atolados que estamos em tarefas, eis que chega a última aula do ano. Em algumas turmas, respiramos de alívio. Foram turmas e aulas cansativas, com alunos insolentes e mal educados, fazendo-nos desperdiçar energia para nós tão necessária: cala-te, tira o boné, chegaste outra vez atrasado, não fales com a colega do lado, não trouxeste livro outra vez, onde está o caderno, não digas palavrões, não se responde assim, vai lá para fora, guarda o telemóvel, tira os auscultadores, vai deitar a pastilha elástica para o lixo, tira os pés da cadeira da frente, senta-se corretamente, não grites, não escrevas na mesa, apanha esse papel do chão... Noutras turmas, porém, fica aquela dorzinha no peito e a saudade dos dias em que, logo pela manhã, enquanto lá fora chovia, nos aconchegávamos dentro da sala de aula e líamos em silêncio e o mundo parecia um lugar de paz. Estamos juntos há um, dois, três anos e vemo-los crescer, sonhar sofrer. E a partir de agora, eis que seguem viagem. Resta-nos a esperança de que um dia não nos cruzemos apenas na secção do talho de um hipermercado qualquer...

Ao fechar a porta da sala, atropelam-se em mim todos os diálogos trocados com eles, todas as respostas que lhes dei e as muitas que não lhes consegui dar. Sei, porém, que tudo o que me escreveram ao longo deste ano acompanhar-me-á até setembro: Por vezes torna-se difícil estar nas suas aulas com atenção. Não é por falta de interesse, stora! É que há pessoas e problemas difíceis de esquecer... A stora é simpática, diferente e faz tudo �� grande e à francesa, estou-me a referir aos testes... Stora, eu baldei-me muito às aulas porque tinha outras coisas para fazer, até que fiquei tapado... Foi um privilégio termos calhado consigo, stora, porque consegue que fique tudo nas nossas cabeças. Não gosto quando a stora faz cara de má porque nós sabemos que não é... Stora, lembra-se daquela fase que eu tive, em que via tudo escuro e a stora me ajudou a utrapassar? Pois é, voltou outra vez... Stora, gostaria que me ajudasse. Quando me pergunta alguma coisa, eu por vezes até sei a resposta mas tenho vergonha de responder... Stora, gosto das suas aulas, acho que tem jeito para isto... Stora, as aulas de Português são 90 minutos terríveis, dolorosos, enfim, tempo de por a minha paciência à prova... Stora, o que lhe aconteceu? Era tão bem disposta e nestas últimas aulas perdeu o sentido de humor... faça um esforço, stora, que o ano está quase a terminar e nós queremos a nossa divertida stora de volta.

Enquanto fecho à chave a porta da sala, sorrio de todas as subtilezas irónicas atiradas por uns quantos alunos e penso na importância da escola, de uma boa aula, da empatia para com o professor. Quando terminar a minha carreira não quero olhar para trás e ver um percurso de desencanto e desistência. Não! Quero revisitar os meus muitos anos de escola e sorrir ao recordar todas as qualidades de tantos alunos que tinham tudo para serem vencedores. Quero que vençam na vida, seja lá o que isso for nestes dias que correm apressados. Quero recordar todos os momentos de rebeldia criativa a que assisti dentro da sala e que espero nunca ter defraudado. Passadas praticamente três décadas a ensinar, consigo recordar o dia em que entrei numa sala de aula pela primeira vez e me senti nervosa e pequenina. Agora, há um turbilhão de antíteses, metáforas e paradoxos dentro de mim e são eles que me protegem desta frustração de ser professora e saber que os políticos, os pais e encarregados de educação não valorizam esta profissão inteira, totalmente feita de afetos e angústias. Stora, o que é uma musa? Stora, Camões é do séc. XX? Stora, quem foi o Padre António Vieira? Stora, posso inventar uma palavra? Stora, Fernando Pessoa era gay? Stora, o Carlos da Maia era tipo um garanhão? Stora, sabia que merda é um galicismo? Isto é horrível, stora. O autor para descrever um objeto é precisa uma página inteira? Stora, este também se suicidou? Stora, eu quando acabar a escola o mais certo é ir para o degredo...

Também a mim, por vezes, me ocorre a mesmíssima ideia, queridos alunos. Agora mesmo, neste início de junho, apetecia-me parar e descontrair e talvez enfiar-me numa toca. Queria poder afirmar: enfim, acabou-se! Palavras como pauta, ata, grelha, turma, matrícula, reunião, avaliação, exame provocam-me calafrios e sudações. Mas só lá para agosto, nos primeiros dias do mês, quando finalmente entregar a correção dos exames nacionais de segunda época, poderei, como disse o nosso Eça, fazer essa coisa estúpida e sempre eficaz que se chama distrair.

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