Entre as incontáveis contribuições de Churchill para o registo e a compreensão da última guerra mundial encontra-se, baseada na sua própria incomparável experiência, a afirmação de que a palavra tinha sido, no destruidor combate e pela primeira vez, uma arma de guerra. Não é difícil encontrar abono para o julgamento feito pelo autor de algumas das mais decisivas intervenções, que levantaram a vontade e a confiança do seu povo em particular, e dos aliados em geral, no sentido de resistirem e vencerem o que chegou a parecer um golpe mortal nos ideais que a contenda conduziu a identificar como ocidentais, democráticos, humanistas, ameaçados por uma nova barbárie. De facto era mais uma vez, em primeiro lugar, um desastre da frequentemente desunida Europa, e desta vez com evidentes fraturas da sua circunstância, em relação aos povos, às culturas e aos regimes que a enfrentavam, e na qual crescia a agressão verbal, ideológica e militar contra o Ocidente que consideravam o seu maior agressor de todos os tempos. E, todavia, não apareceu qualquer corrente que pusesse em causa a existência de uma unidade chamada Europa, com uma história de guerras, partilhas e formas variadas de organização política. Na sua introdução à história da Europa, dirigida por Carpentier e Lebrun, começa por se dizer o seguinte, sem omitir depois a soma do historiável e das lendas: "Quanto à Europa, não parece que se saiba nem a origem do nome nem quem lho deu." Cinco séculos antes de Jesus Cristo, Heródoto confessa uma incerteza que durará no tempo, "não sabendo de onde vem a palavra, o que representou no espírito dos que a empregaram, nem os limites espaciais a que a aplicava... E todavia a Europa existe". O que se está a passar neste ano de 2018, e o que se teme que seja o futuro, continua a manter a palavra que a identifica, mas de novo a unidade pacífica interior mostra-se inquietante em busca de nova organização. Talvez valha a pena lembrar que a chamada Paz de 1945 teve duas cerimónias, uma a 8 de maio em Reims, a outra a 9 de maio em Berlim, o que pareceu depois como que um anúncio de que o divisionismo não perdia a presença tradicional. As palavras que consagraram a vocação do "nunca mais" nos textos fundadores das construções da União Europeia começam, depois do fim oficial da guerra fria, a ser substituídos pela multiplicação das propostas ou ambições do divisionismo dessa misteriosa unidade chamada Europa, que entretanto, em poucos anos, perdeu os impérios no Terceiro Mundo, sacrificou-se com o conflito entre a Europa democrática e a Europa soviética, viu a "circunstância" agravada pelo brexit do Reino Unido e pelo inquietante atlantismo dos atuais EUA, e assolada pela crise económica e financeira global. Por infelicidade que se vai alargando, não aparece nenhuma voz que, correspondendo ao conceito ardente de Churchill, agora tenha em vista a coexistência pacífica no globalismo em crise, e cada dia parece crescer a adoção de uma política de regresso ao passado cuja repetição a paz do fim da guerra de 1939-1945 quis evitar para sempre, tentativa cuja decisão contou com a participação e a memória de líderes americanos, os que na data ainda estavam vivos, e não esqueciam a memória dos mortos. De todos está viva e orientadora a memória de Roosevelt, a quem a debilidade física que o atingiu não quebrou a coragem e a inteligência com que desenhou a intervenção e o sacrifício do seu país em defesa dos valores que entendia servir. Não parece que sirva melhor esses valores, que os ocidentais largamente assumiram e a que finalmente procuraram dar vigência universal, o percurso inovador, mas frequentemente imprevisível em cada passo, que adote o conceito "America first", embora seja vago o sentido acessível dessa desejada primazia. O enfraquecimento do atlantismo, cimento do Ocidente outonal, que o brexit do Reino Unido acentuou, a "guerra comercial" entre Washington e os desconsiderados aliados do G7, a retirada do Acordo de Paris não obstante o ambiente ir confirmando excessivamente as previsões científicas, a saída do acordo nuclear iraniano, acrescendo a inovação da linguagem diplomática, na área em que a "cascata atómica" ameaça o planeta que a ONU considera "mundo único" e "casa comum dos homens" agora talvez visando inovadoras incertas novas alianças. Tudo valores que não se espera ver esquecidos, nas próximas reuniões, onde a palavra dos responsáveis, sem perder o ardor de Churchill, fosse uma arma de paz. A orientação inspiradora pela chamada de todas as potências, emergentes ou de antiga expressão, no sentido de reunificar os esforços das múltiplas organizações regionais, numa reformada "ONU da paz", seria a desejável continuação do "nunca mais" que inspirou os fundadores da ONU. A reunião entre o imprevisível presidente dos EUA com o seu desafiante líder da Coreia do Norte vai acabar com algum acordo que melhore a imagem do primeiro, mas com a tarefa difícil de ganhar a confiança da comunidade internacional na palavra dada.