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Opinião. Maio de 68: algumas "palavras de desordem"

Opinião. Maio de 68: algumas "palavras de desordem"

Onde maio é emancipação é porque foi esse lugar do encontro improvável entre mundos sociais distantes e condenados a não se cruzarem.

1. Festival juvenil anti-autoritário ou a maior greve geral da história da França? Uma revolução cultural que não quis tomar o poder ou uma crise real do poder de Estado? Momento crítico de aborrecimento dos baby-boomers com a sociedade de consumo ou uma revolução nos costumes com efeito durável? “Ilusão lírica” dos filhos da burguesia francesa ou sublevação juvenil e operária contra a alienação? Insurreição hedonista precursora de um novo individualismo liberal ou um ensaio geral de uma aliança anti-capitalista, anti-imperialista e anti-autoritária capaz de fazer nascer outra sociedade?

A memória é sempre um campo de disputa sobre o modo como inscrevemos no presente acontecimentos passados. Por isso, não nos admiremos que, em momentos comemorativos, os vencedores do momento procurem interpretar os acontecimentos à luz de uma continuidade histórica mais ou menos forçada. Não nos admiremos, até, que cultivem esse sentimento de continuidade para confirmar a ordem. A esta luz, a evocação dos 50 anos de maio oscilaria assim entre a celebração nostálgica de uma festa estudantil e de um momento feliz (maio morto, feito folclore) e a exaltação dos ganhos de autonomia individual nascidos em 68 e plenamente realizados na sociedade tal qual ela evoluiu até hoje (maio dócil, feito primeiro capítulo do capitalismo pós-moderno). E, no entanto, a memória de maio é muito mais do que essas caricaturas tristes. O seu potencial de recusa é refratário a essa ordem de hoje. A história está longe de ter acabado.

2. Maio é, evidentemente, uma revolta dos jovens e dos estudantes. Mas seria pouco explicá-la como mera reação a uma moral sexual conservadora ou libertação do desejo contra a repressão. Sim, isso esteve presente no início da revolta da Sorbonne, em Paris. Mas não explica os milhares de estudantes em Berlim em fevereiro de 1968 contra a guerra no Vietname ou os muitos mais depois da tentativa de assassinato do dirigente estudantil Rudi Dutshcke, em abril desse ano. Não explica 1968 no Brasil nem a marcha dos 100 mil no Rio de Janeiro, em junho, depois do assassinato de um estudante. Não explica a combinação, no Japão, da luta contra o imperialismo e contra a expulsão dos camponeses dos terrenos do que viria a ser o novo aeroporto e o “assalto de Tóquio” pelos estudantes japoneses em outubro. Não explica a ebulição antiguerra nas universidades norte-americanas ao longo de 68 e os tumultos após o assassinato de Luther King em abril. Não explica as dezenas de milhares de estudantes nas ruas do México, em vésperas de Jogos Olímpicos, nem o massacre de Tlatelolco em que centenas foram assassinados. Não explica, claro, a Primavera de Praga, o projeto de um socialismo de rosto humano e des-estalinizado, a autoimolação do estudante Jan Palach, em protesto contra a invasão da República Checa pela tropas soviéticas. Nem explica o que se seguiu.

Antes de maio, na verdade, já a mobilização contra a guerra do Vietname (que esteve aliás na origem do movimento 22 de março, em Nanterre, e que aconteceu em fevereiro também em Portugal) exercera um extraordinário efeito de contágio na juventude. E se recuarmos mais, temos o antecedente da guerra da Argélia e dos seus efeitos de politização dos jovens solidários com a Frente de Libertação. Em 68, o maio estudantil foi muito mais do que um movimento sobre as condições do ensino, as relações de poder na Universidade ou a vida juvenil. Foi internacional, anti-imperialista e antiburocrático. Em França, esse maio foi também um encontro inédito: entre as universidades ocupadas e a ocupação das fábricas.

3. Dez milhões de trabalhadores em greve não é um pormenor. É o maior movimento social da França moderna. Convocada depois das barricadas do dia 10 de maio no bairro da Sorbonne, a greve começaria na segunda-feira seguinte. Nesse dia, 13 de maio, centenas de milhares de estudantes e trabalhadores marcharam juntos nas ruas de Paris e de outras cidades. A partir de 14, iniciam-se as ocupações de fábricas, a começar pela Sud-Aviation. Milhares seriam ocupadas, por toda a França, nos dias seguintes. A 20, a greve paralisa o país.

O maio operário nasce, em muitos casos, à margem das estruturas oficiais de representação dos trabalhadores. Abrange todos os sectores de atividade e dissemina-se por todo o território. Alarga-se às médias e pequenas empresas. À greve aderem 70% dos trabalhadores do país, mas a radicalidade do movimento grevista passa também pelas suas formas de organização de base, pelo protagonismo da juventude operária, pelas reivindicações que vão para além do salário e da negociação sindical. É a aspiração de democracia e de representação, é o comité de bairro e a exigência de um governo popular, são as perguntas que se fazem não apenas sobre como se exerce o poder patronal, mas sobre os próprios fundamentos desse poder: como se organiza a fábrica?; que leque salarial é justo?; por que não se proíbem os despedimentos?; quem decide a produção?

A 6 de junho, o jornal comunista L’Humanité fala sobre um “regresso vitorioso e em unidade ao trabalho”. Mas os resultados da negociação de Grenelle, feita entre Governo e sindicatos, seriam chumbados pelos trabalhadores na Renault-Billancourt. As conquistas no salário não foram insignificantes, é verdade. Mas a aspiração desse maio operário não cabia toda num acordo, por mais contrapartidas que se oferecessem para que se voltasse “à normalidade”. Era uma brecha que se tinha aberto na própria ordem das coisas.

O maio operário e a greve dos dez milhões fez-se contra as várias formas de alienação e de desigualdade, contra a dominação e a reprodução da sociedade mercantil. Entre este maio e o maio estudantil, houve quem quisesse erguer paredes e muros intransponíveis. Foi isso, aliás, que começou por fazer o Partido Comunista, desde logo no famoso artigo de Georges Marchais (que viria a ser secretário-geral, anos mais tarde), no dia 3 de maio, sobre “os falsos revolucionários que querem dar lições à classe operária”. Mas um e outro maio, apesar das diferenças de classe, tiveram momentos de encontro e de solidariedade concreta entre ocupações, tiveram movimentos de aproximação mútua que são irredutíveis à caricatura sobre a evocação estudantil de um proletariado messiânico. Dos registos policiais dos presos nas barricadas de 68 no centro de Paris, por exemplo, não constam apenas os universitários: estão lá também jovens operários, empregados de café, funcionários das lojas.

4. Para além do maio estudantil e do maio operário, há ainda o maio libertário dos costumes, para utilizar as categorias de Alain Badiou. Maio é também, pois, o nome dessa efervescência cultural antiautoritária, o acelerador das transformações sociais e culturais na afirmação da diversidade sexual e nas relações entre os géneros (ainda que, em maio, a palavra seja dominada pelos homens), a crítica da vida quotidiana (Lefebvre) e da “sociedade do espetáculo” (Debord), o início de uma busca de novos sujeitos colectivos de emancipação e de uma potência revolucionária no feminismo, no movimento LGBT, mas também noutros sectores considerados menos integrados no capitalismo ou mais nas margens da sociedade de controlo e do consumo: os migrantes (sujeito de eleição do operaïsmo de Tronti e Negri na década de 1970), os presos (lembremo-nos de Foucault e do Grupo de Investigação sobre as Prisões), os loucos (a experiência da clínica La Borde, de Oury e Guattari e Deleuze)...

Este maio antiautoritário representou também um novo fôlego na crítica das instituições (a escola, o hospital, o museu, o teatro, a prisão...) e das modalidades de dominação no próprio interior das organizações e movimentos revolucionários (sindicatos, partidos, associações...), da relação vertical entre massas e vanguarda, das mil e uma formas de exercício do poder nas relações intersubjetivas. Foi a procura, por exemplo, de formas pedagógicas mais dialógicas (é em 1968 que se publica A Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire), da transformação prática da arte popular (o Teatro do Oprimido de Boal é apenas uma dessas experiências), de formas artísticas capazes de quebrar hierarquias e fronteiras entre géneros (entre as quais o happening ou a performance).

Este movimento, este maio, é evidentemente contraditório, mas seria um equívoco resumi-lo a uma pura afirmação do indivíduo contra as estruturas e os coletivos, inclusive no campo artístico. O que seriam então, para usar a expressão de Blanchot, as “palavras de desordem” feitas em conjunto, os textos escritos a muitas mãos, o elogio de uma arte feita para intervir agora sem a pretensão da eternidade e sem autoria individual, em forma de boletim ou panfleto, de cartaz ou jornal de parede, de graffiti ou de aparição no espaço público?

5. Maio sujeitou-se a muitas apropriações e declinações conflituantes. À Direita, há quem tenha transformado as aspirações de autonomia na justificação para novas formas de controlo e transmutado as aspirações de liberdade no elogio da individualização e da mercantilização dos direitos e do trabalho. À Esquerda, houve quem preferisse passar a definir a revolução, não tanto como um projeto político, mas antes como um estilo, uma estética, um modo de subjetivação, o campo transgressivo da micropolítica, fazendo nesse movimento uma espécie de “eclipse da razão estratégica” (Bensaïd), numa variação muito peculiar do “fim da história”, em que o refúgio na contracultura aparece, afinal, como uma espécie de derrota por antecipação – resistimos ao capitalismo, mas já não imaginamos que seja possível superá-lo enquanto sistema.

Mas maio não pode ser reduzido a estas apropriações, como se o “espírito do empreendedorismo” de hoje pudesse ser encontrado nas barricadas do Quartier Latin ou como se a subjetividade neoliberal fosse da responsabilidade de quem se lançou à procura do impossível. A esperança de maio, por mais que alguns dos seus protagonistas insistam numa visão retrospetiva capaz de justificar os seus próprios percursos políticos de conformação, não era a de uma libertação individual no reino da competição e da mercadoria, mas sim a de uma emancipação coletiva dos indivíduos, a de um mundo liberto do despotismo do mercado, da lei do interesse privado e do cálculo egoísta.

Pela minha parte, prefiro a fidelidade a esta última hipótese – que não venceu, mas que nem por isso deve ser eliminada do campo dos possíveis. Onde maio é emancipação é porque foi esse lugar do encontro improvável entre mundos sociais distantes e condenados a não se cruzarem, foi esse momento em que se quebraram barreiras, em que aconteceu o contacto sem intermediários entre estudantes e operários. Foram as ligações inesperadas, foi a subversão das hierarquias dos lugares e das categorias de classificação do mundo. Esse maio, inconveniente, não está esgotado.

6. A leitura de maio como um fenómeno meramente cultural ou como uma simples expressão sociológica de uma crise de gerações tende a torná-lo asséptico e a despolitizá-lo. Lembrar maio não é, para mim, celebrá-lo ou lamentá-lo como preâmbulo do capitalismo de hoje ou como fugaz momento lúdico e festivo. Pelo contrário, creio que precisamos, mais do que nunca, de uma leitura histórica e política das brechas abertas por maio, do horizonte de possíveis que ampliou. E sim (por que não?) celebrar. Celebrar a convergência das revoltas contra a exploração capitalista, a opressão colonial e o despotismo burocrático. Na verdade, ninguém tem nunca a última palavra, continua a haver projetos estratégicos que não são apenas variações do que existe, continua a haver conflito social, luta de classes, brechas que se abrem nas contradições do presente. É preciso encontrá-las coletivamente. Cinquenta anos depois, insistamos em imaginar outros caminhos. A emancipação – como diria Bensaïd – não é um prazer solitário.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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