observador.ptMiguel Pinheiro - 13 jun 07:31

O meu problema com Paulo Portas

O meu problema com Paulo Portas

Portas conseguiu desiludir sempre. Aos que queriam um jornalista, saiu-lhes um político; aos que queriam um político, saiu-lhes um homem de negócios. Em Angola, passou a ser MPLA desde pequenino.

Paulo Portas sempre teve uma irresistível atração por frases de efeito. Este domingo, no seu programa de comentário na TVI, tirou mais uma do bolso do casaco. A frase foi esta, sobre as relações entre Portugal e Angola depois do processo judicial que envolveu Manuel Vicente: “Há uns doutores em virtude — e a gente não sabe que universidade é que os doutorou em virtude — que têm uma teoria específica de que Portugal deve cortar relações com todos os sistemas que não sejam iguaizinhos aos nossos”.

Eu também não sei que universidade é essa que distribui “doutoramentos em virtude”, mas sinceramente espero que não seja a mesma onde Paulo Portas tirou o seu doutoramento em memória. Há muitos anos, quando era um modesto director do jornal O Independente, Portas chamou a José Eduardo dos Santos “farsante” e “ditador antigo”, acusando-o da autoria de “uma sucessão de mentirolas, truques e maquilhagens” e de não ser “um senhor respeitável”. Noutra altura, escreveu: “Vamos ser claros. Eu tenho um respeito histórico por Jonas Savimbi que nunca tive nem terei por José Eduardo dos Santos”.

Quem ouve hoje Paulo Portas percebe que, afinal, ele é MPLA desde pequenino — e que onde antes via “farsantes” descortina agora senhores respeitabilíssimos.

Para sermos sinceros, não é uma evolução surpreendente. Afinal, Paulo Portas conseguiu desiludir sempre. Aos que queriam um jornalista, saiu-lhes um político; aos que queriam um político, saiu-lhes um homem de negócios. É o Princípio de Paulo, uma espécie de Princípio de Peter que em vez de ser aplicado à falta de competência é aplicado à falta de coerência.

Ao usar aquela frase na TVI, Paulo Portas criou, como se vê, um problema com as suas próprias ideias, passadas e presentes. Mas há pior: é que, além disso, criou também um problema com as ideias dos outros. Ao contrário do que insinua Portas, os críticos das actuais relações entre Lisboa e Luanda não querem que o regime angolano seja “igualzinho ao nosso” — querem, apenas, que o nosso regime não seja igualzinho ao deles. Ninguém aspira a pôr São Bento no Futungo de Belas — mas também não ponham o Futungo de Belas em São Bento.

O exemplo em causa, relativo ao processo do ex-vice-Presidente de Angola, é perfeito porque trata da importância da separação de poderes e da independência dos tribunais. Num regime democrático, como aquele que pretendemos ser, as coisas passam-se de forma muito simples: os políticos não se metem com os juízes; e os juízes decidem o que entendem.

O que se passou em Portugal com o caso Manuel Vicente desafiou isso. O Presidente da República e o primeiro-ministro fizeram saber, de forma pública, sonora e antecipada, que o superior interesse do país implicava uma determinada decisão judicial. E, quando ela chegou, não esconderam a sua histérica satisfação por terem dado mais importância a um saco cheio de kwanzas  do que a um princípio constitucional.

Nos últimos anos, a enchente de dinheiro da oligarquia angolana introduziu uma perigosa perversão na democracia portuguesa. Os políticos transigiram, os banqueiros facturaram, os jornais abanaram e alguns agentes da justiça capitularam. Foi um preço demasiado alto, mas Paulo Portas acha que devemos continuar a pagá-lo. Até usa o derradeiro argumento dos homens do dinheiro: a fragilização da nossa democracia justifica-se, supostamente, pela defesa dos portugueses que trabalham em Angola e das empresas que trabalham com Angola. Os fracos sempre serviram de escudo à realpolitik.

Apesar de tudo isto, a oligarquia angolana e o ex-jornalista e ex-político não se confundem de forma absoluta. Afinal, o MPLA é marxista, escola Karl; enquanto Paulo Portas, como diz uma piada antiga, é marxista, escola Groucho: “Estes são os meus princípios. Se não lhes agrada, tenho outros”. João Lourenço já sabe, portanto, o que o espera quando o vento mudar (como inevitavelmente mudará).

Não que trocar de opinião seja um pecado sem remissão. Mas convém, apesar de tudo, que a mudança da opinião não acompanhe, com excessiva fidelidade, a mudança dos interesses.

Para alguém que, como eu, há muitos, muitos anos, numa galáxia distante, começou pela primeira vez a olhar para o jornalismo com os artigos de um semanário apropriadamente chamado O Independente, esta radical transformação de Paulo Portas podia ser uma desilusão — mas, na realidade, é apenas uma confirmação.

1
1