www.sabado.ptFlash - 13 jun 09:00

Museu da Praia

Museu da Praia

Portugal é uma imensa praia, possui perto de dois mil quilómetros de costa. E muitos de nós levamos na memória quase toda uma vida passada na praia. No entanto, a praia não tem ainda, na sociedade portuguesa, na arte portuguesa, na literatura portuguesa, na museologia, o papel e o culto que deveria ter

Depois de ter percebido que o termo "Descobrimentos" está politicamente comprometido, muito mais do que a maioria das outras palavras do nosso dicionário, Fernando Medina decidiu fazer caso dos historiadores que denunciaram as reminiscências salazaristas que borbulhavam debaixo da ideia do Museu da Descoberta (e que puseram a descoberto, agora sim no sentido forte e rigoroso do vocábulo, os académicos e cronistas que continuam a promover e a perpetuar a ideia abstrusa da magnífica importância da História de Portugal para a felicidade do planeta) e decidiu mudar-lhe o nome. Isto é: o presidente da Câmara Municipal de Lisboa lembrou-se de, tropegamente, lhe chamar "Museu da Viagem" (de quem terá sido, por Zeus, a sugestão?).

Com o intuito de contribuir para o engrandecimento turístico de Lisboa, tomo a liberdade de fazer uma proposta a Fernando Medina e aos arquitectos que mandam na capital: em vez do Museu da Descoberta ou da Viagem, construam um Museu da Praia. Para que se deixem levar por esta fantasia, seguem-se alguns argumentos persuasivos. Não só a praia é uma das formas de lazer mais generalizadas e comuns em Portugal, como está implícita nas nossas feições como pequenina mas provecta Nação. Por exemplo, logo na primeira estrofe de Os Lusíadas, Portugal aparece como "a ocidental praia lusitana", o país onde "o mar começa", e no Canto IX o Trinca-Fortes descreve o encontro dos marinheiros com as ninfas numa "ilha das delícias", a que se seguem práticas eróticas que se desenrolam em praias de "branca areia".

Portugal, temos de reconhecer, é uma imensa praia, possui, se incluirmos os Açores, a Madeira, as Ilhas Desertas, as Ilhas Selvagens e a Ilha de Porto Santo, perto de dois mil quilómetros de costa. E muitos de nós levamos na memória quase toda uma vida passada na praia. No entanto, a praia não tem ainda, na sociedade portuguesa, na arte portuguesa, na literatura portuguesa, na museologia, o papel e o culto que deveria ter. Além disso, se não me engano muito, seríamos o primeiro país do mundo a ter um museu exclusivamente dedicado à cultura de praia.

Há mil grandes e pequenas coisas que caberiam num museu destes. Podia incorporar, desde logo, representações da praia como ponto de partida para o conhecimento e ocupação de outros continentes, como espaço para a faina da pesca (enquanto estaleiro para guardar aprestos das embarcações), mas também como território privilegiado de contrabando e de práticas terapêuticas ou medicinais. Podia reunir, com fins museológicos, uma profusão de objectos associados à cultura material do veraneio marítimo ou oceânico: o vestuário, os trajes, os adereços de banho e sua respectiva evolução; a multiplicidade de brinquedos e divertimentos ou jogos típicos do folguedo balnear; a invenção de uma gastronomia de praia, etc.

Tudo situado e envolvido no seu contexto histórico, de modo a captar a moda das elites aristocráticas e de uma burguesia em ascensão, desejosa de promoção social, um período que terá coincidido com o estabelecimento de proibições legais e restrições de costumes; a influência decisiva da praia na progressiva libertação desses mesmos costumes, porque a beira-mar, peço licença para enumerar caoticamente, promoveu o convívio ou uma maior proximidade entre classes sociais, conferiu maior protagonismo à mulher (antes remetida, por norma, para os espaços privados e domésticos), intensificou a consciência do corpo (e da degradação no tónus vital), transformou as noções de pudor, de intimidade, de embaraço e de erotismo, aumentou a nossa capacidade de estar à vontade, seminu (ou nu) diante dos outros (e fez surgir essa personagem social que pulula em algumas dunas da Costa de Caparica e não só: o mirone), fomentou o culto do corpo, do prazer hedonista e de uma vida activa (em oposição ao sedentarismo das cidades) através da promoção do exercício físico e dos desportos ou competições aquáticas, enfim, mudou os padrões estéticos desejáveis ou ambicionados (o bronzeado, para que possam ajuizar, estava inicialmente associado às classes populares).

Este processo de generalização e democratização da prática balnear marítima deixou marcas não apenas na cultura material, nos costumes, nas mentalidades, nos estilos de vida, na configuração dos tempos livres e das práticas de sociabilidade, na forma como a vida se passou a organizar para permitir o aproveitamento da praia, mas também no desenvolvimento da costa portuguesa (com tudo o que de mau e de bom ele trouxe). Por outras palavras, inspirou a arquitectura (hotéis, casinos, casas de férias, etc.), levou à construção de infra-estruturas de transporte, acessos, percursos, equipamentos e apoios de praia (balneários, bares, restaurantes, socorros a náufragos).

Mais importante ainda: o museu poderia ajudar a incutir nos nossos hábitos e costumes o estímulo de não sujar e não poluir as praias, educaria os banhistas a não deixarem lixo e beatas na areia, a não as atirarem para o mar (como tenho visto fazer e me provoca repulsa e espanto), a não deixarem o cão fazer as necessidades na areia; ensinaria a importância de defendermos o nosso litoral, o respeito pela praia, por aquilo que o oceano nos oferece, e, em geral, por esta tira de terra estreita chamada Portugal.

Felizmente, há alguns anos (2011) alguém compreendeu tudo isto e pô-lo no papel. Refiro-me a Carlos Manuel de Oliveira Severo, o arquitecto que teve a ideia e a transformou numa tese de mestrado em Museologia e Museografia, desenvolvida na Faculdade de Belas-Artes (Universidade de Lisboa): A Cultura Balnear na Costa do Sol: para um museu da praia. A meu ver, a Câmara Municipal de Lisboa, o Governo, a Presidência da República, o País inteiro deviam acompanhar esta sugestão e construir um Museu da Praia. Este é o momento próprio. Se o intuito principal do País é andar colado às calças dos turistas e dos negócios imobiliários, remetendo-os para o imaginário das nossas travessias marítimas, o Museu da Praia vem mesmo a calhar: ao promover o cenário deslumbrante de algumas das nossas praias, um museu com as características e os enfoques acima especificados ofereceria, desse ponto de vista, certas vantagens nada desprezíveis. Desde logo, andaria muito mais perto da nossa identidade (qualquer que seja o significado dessa criatura mutante) e concorreria para desmontar a ideia de que ela é um estado ou uma "substância" (e não um processo, como de facto é).

Se queriam pretextos de especulação turística, eis um magnífico: o Museu da Praia. O plano está feito.

1
1