www.sabado.ptFlash - 18 mai 09:00

O incrível mundo do Estado Islâmico no Telegram (Parte 2) 

O incrível mundo do Estado Islâmico no Telegram (Parte 2) 

Nos canais do grupo terrorista há de tudo: execuções e destruição, ameaças e instruções, mas também imagens idílicas aparentemente inesperadas.

Ao contrário das autoridades, investigadores e jornalistas que acompanham a actividade do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) na Internet, a maioria das pessoas começou a ouvir falar nos canais de propaganda jihadista no Telegram após os atentados de Paris de Novembro de 2015. Nessa altura, foi revelado que os autores do ataque tinham planeado as suas acções através da aplicação que permitia a troca encriptada de mensagens. E nos meses e atentados que se seguiram, tornou-se habitual ouvir dizer que a sua autoria tinha sido reivindicada pelo EI através do canal da Amaq – a agência noticiosa semi-oficial do grupo terrorista – no Telegram. O que não se disse é que essas mensagens "informativas", que são depois replicadas milhares de vezes em muitos outros canais, são apenas uma ínfima parte do que podemos encontrar nestes verdadeiros fóruns da jihad.

A maioria são em língua árabe. Mas a preocupação em internacionalizar o movimento e em alcançar a maior base de recrutamento possível levou o grupo e os seus seguidores a criarem canais em muitas outras línguas: inglês, francês, alemão, russo, indonésio e urdu são apenas algumas. No Verão de 2016, na véspera dos Jogos Olímpicos no Brasil, o EI chegou mesmo a criar um canal em Português. Chamava-se Nashir Português e teve uma duração limitada. Os poucos posts colocados online antes de ser eliminado pelos administradores do Telegram incluíam links para outros canais e ainda a tradução para português, com sotaque brasileiro, do discurso do então porta-voz do grupo terrorista, Abu Muhammad Al-Adnani, com o título "Que eles sobrevivam como prova".

Mas o que mostram realmente esses canais? Sim, há muita violência: tiros, explosões, ataques suicidas, decapitações, apedrejamentos, castigos corporais, ameaças, lançamento de rockets e execuções (algumas de tal forma elaboradas e teatrais que nos recordam vezes sem conta que não há limites para a imaginação e nos fazem duvidar da bondade do ser humano). Mas há mais, muito mais.

Uma parte importante tem a ver com a capacidade informativa do grupo terrorista: comunicação de acções, ataques e operações em curso e ainda mensagens áudio e respectivas transcrições dos seus líderes. Periodicamente são publicadas infografias elaboradas com o número de baixas inimigas, quantidade de tanques e veículos destruídos ou adquiridos ou com um balanço das operações realizadas no último mês. Semanalmente é distribuído o jornal oficial do EI em árabe, o Al Naba. Diariamente  são distribuídos resumos da actividade do grupo terrorista nas diferentes províncias, por norma os mesmos que são emitidos na rádio Al Bayan. E regularmente são criados canais que, enquanto estão activos, distribuem parte ou a totalidade das revistas publicadas pelo EI: a Dabiq e a Rumiyah. Outros recuperam os vídeos altamente cinematográficos produzidos pelo grupo terrorista para que aqueles que não os têm possam fazer download e garantir que eles permanecerão online para quem os quiser encontrar. 

Contudo, e isto acontecia sobretudo no período áureo do grupo terrorista, durante o ano de 2016, uma boa parte das comunicações do EI destoava em sobremaneira do que seria expectável encontrar: tratavam-se de vídeos e, mais frequentemente, de imagens do dia-a-dia na Síria e no Iraque. A lógica era simples: para recrutar novos elementos era preciso convencê-los de que a vida no autoproclamado Califado não era muito diferente dos seus países de origem. Era por isso frequente encontrar no meio da violência, imagens de uma terra idílica: de flores, frutos prontos a colher, paisagens naturais, agricultores em plena jornada de trabalho, pescadores nos seus barcos, animais em aparente tranquilidade, trabalhadores a asfaltar estradas, a reconstruir edifícios, a recolher o lixo ou a produzir gelo, polícias de transito, juízes a aplicar a justiça, mesquitas cheias, crianças na escola, mercados repletos de gente e produtos, prateleiras de supermercados cheias, restaurantes, cafés, concursos de memorização do Corão e muito mais. Um mundo supostamente idílico mas que estava longe de ser verdadeiro


Estas imagens ainda surgem hoje em dia, embora com bastante menos frequência do que acontecia há um ano. Tal como muitas outras que mostram o dia-a-dia dos jihadistas do EI, fora das acções de combate. São reportagens fotográficas sobre treinos físicos e de manuseamento de armas, mas também de pausas para descanso aproveitadas para ler o Corão ou as publicações oficiais do grupo, quase sempre finalizadas com momentos de convívio à volta de uma refeição. São comuns também as homenagens fotográficas aos combatentes mortos, catalogadas como "A Caravana dos Mártires": imagens dos jihadistas caídos em combate ou em acções suicidas, tiradas ainda em vida, em que eles surgem a sorrir ou em pose heróica. São imagens que assumem especial importância na propaganda jihadista, uma vez que para eles não há maior honra do que ser um mártir pela causa.


Existem depois canais que fazem aconselhamento religioso, dão uma interpretação particular sobre os textos corânicos ou informam os seguidores, por exemplo, sobre a data exacta (determinada pela liderança do EI) em que se inicia o Ramadão. Partilham também música. Sim, música, no caso os chamados Nasheeds, canções cantadas à capela e que por norma fazem referência à fé islâmica, à história ou às acções do próprio grupo terrorista. Em árabe, mas também em inglês, francês e alemão.

Há ainda canais que se dedicam exclusivamente a publicar instruções (escritas e em vídeo) sobre como construir bombas na cozinha de casa com recurso a materiais que se podem adquirir no supermercado ou numa drogaria; sobre como usar uma faca numa luta corpo a corpo e quais os órgãos a atingir; sobre como usar um veículo para realizar atentados; sobre como utilizar uma arma de fogo; sobre como passar despercebido às autoridades; sobre como se preparar fisicamente; sobre como utilizar aplicações de encriptação de comunicações; ou sobre como manter a segurança dos equipamentos informáticos.

A toda esta diversidade de canais há ainda que somar a profusão de grupos criados pelos chamados "apoiantes" do EI online que, para além de divulgarem as mensagem oficiais e semi-oficiais, se dedicam activamente à promoção do grupo terrorista. Na maior parte dos casos são eles que divulgam uma espécie de cartazes com ameaças, normalmente a grande cidades ou eventos – como tem sido feito nos últimos meses ao mundial de futebol na Rússia. 

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